
Fuçando nas entranhas do meu mac, achei hj esse texto feito em 2002, no calor da eleição, quando o Lula foi eleito presidente pela primeira vez. Fui um dos "carrapatos" dele, designado pela Folha, e cobri oito meses de campanha, viajando para todos os cantos do país, testemunhando um puta momento histórico. Gostem ou não, a eleição do Lula foi um marco na história do Brasil e foi ducaralho ter visto isso tão de perto. Segue o texto:
Em 1950 Getulio Vargas foi eleito presidente da república por uma maioria
esmagadora de votos. Meu avô, Samuel Wainer foi o único jornalista a cobrir
de ponta a ponta para os Diários Associados de Chateubriand, a campanha do ex-ditador que foi reconduzido ao poder nos braços do povo como ele mesmo havia previsto em entrevista exclusiva meses antes.
Dias atrás, Luiz Inacio Lula da Silva foi eleito presidente e desta vez fui
eu que, a serviço da Folha de S.Paulo, tive a chance de ser a testemunha da
história.
Sempre ouvi relatos da histórica campanha de Getúlio, das multidões nas
praças públicas gritando o “Ge-tú-lio” e das pessoas escalando árvores e
postes para ver mais de perto o “pai dos pobres” como era conhecido.
Imaginei que jamais veria algo parecido em minha vida, mas errei.
Do final de maio ate a festa na Paulista colei no candidato como um
carrapato no hospedeiro. Viajei aos quatro cantos do país e assisti de
camarote a comoção popular que Lula causava nos lugares em que chegava.
O roteiro era sempre parecido. Uma pequena multidão o esperava no aeroporto, e Lula fazia questão de atravessa-la no peito deixando malucos os policiais federais que tinham a missão de acompanhá-lo. As pessoas gritavam, choravam jogavam-se em cima do candidato que não perdia a paciência nem quando um mais afoito o machucava.
Na seqüência, uma carreata o levava até o local onde seria o comicio e lá
sim, uma verdadeira multidão o aguardava a postos, sob sol ou chuva, com um brilho nos olhos que só quem viu de perto a campanha pode compreender.
Depois do comicio, sem muita espera, Lula voltava ao aeroporto e embarcava
no jatinho alugado pelo PT para começar tudo de novo em outro canto do país.
Lula percorria trechos enormes no mesmo dia. Num dos mais longos, acordou em Natal, RN, tomou cafe com empresários e foi a Fortaleza. Fez comicio e carreata, trocou de roupa e seguiu para Dourados, MS, fez outro comicío por lá e novamente embarcou no avião para terminar o dia em Florianópolis num comício gigantesco do outro lado do país.
Apesar do jingle criado por Duda Mendonça e pelo compositor baiano Peri ser
de boa qualidade, quase ninguém o cantava nos comícios. A música cantada por 100 mil pessoas em Salvador no primeiro turno e por 150 mil no segundo era sempre a de 1989, o agora clássico “ Lula lá, brilha uma estrela, Lula lá,
cresce a esperança...”
Lula é uma daquelas pessoas que fala olhando nos olhos. Ele sobe no palanque e discursa como se estivesse no balcão da padaria conversando com um amigo que não vê a alguns meses. São raras as pessoas com esse talento.
Ouvi tantos discursos e entrevistas de Lula nos ultimos meses que no final
da campanha me sentia apto a dar uma coletiva no lugar dele.
Dia 26, na noite anterior as eleições, os Racionais fizeram um show no Brás
para 20 mil manos. Na manhã seguinte, milhøes foram as urnas e elgeram o
primeiro Silva presidente do Brasil.
O novo CD dos Racionais não saiu de meu discman durante todos esses meses. A analogia é inevitável: A periferia grita e o povo chega ao poder. Alguma coisa está mudando.
Em um dos primeiros pronunciamentos como presidente eleito, Lula dedicou a vitória a seu amigo “Cabeção”, morto dias antes vitíma de um infarte. A
frase que passou batida por todos os jornalistas presentes me arrepiou e fez
com que minha ficha começasse a cair.
Aquela noite do dia 27 de outubro jamais saira da cabeça daquelas 50 mil
pessoas que lotaram a avenida Paulista na festa da vitória.
Eu estava lá, a postos, com uma lente 500mm no tripé apontada para o palco onde Lula apareceria, concentrado e preparado para fazer uma das mais importantes fotos da minha vida. O cara que eu acompanhei durante meses foi eleito e a primeira página histórica do maior jornal do país estava aberta esperando apenas essa foto.
Haviam muitas bandeiras tremulando e a luz não estava bem posicionada.
Marquei o foco manual em um ponto e esperei a entrada do novo presidente.
A endorme bandeira do Brasil que servia de pano de fundo foi erguida por
volta da uma hora da manhã. De tras dela veio Lula, que sorria e acenava
para todos aqueles que estavam lá numa imagem emocionante. Estavamos no limite da hora do fechamento portanto a foto seria transmitida dali mesmo via celular assim que acontecesse. Eu estava com a lente certa, no lugar certo, cliquei na hora certa, mas ao abri-las no laptop para transmiti-las por celular descobri que estavam todas sem foco. Eu errei num momento
crucial e quando percebi, quis bater a cabeça na parede de raiva.
Voltei e fiz a foto desta vez com foco, mas havia perdido o “moment” da
história. Perdi a primeira página que ia coroar meu trabalho e a raiva
misturou-se com alegria. Foi uma verdadeira bomba de emoções que na verdade não tinha importância nenhuma, porque pela primeira vez um Silva ia governar o Brasil dos Orleans e Bragança, e o povo estava muito feliz com isso.