26/01/08

CACHORRO LOUCO



Era quinta feira bem cedo quando os primeiros começaram a chegar para o protesto dos motoboys contra a proibição do uso das marginais e do garupa. O sol já maltratava às sete da manhã e tava piorando. Em pouco tempo eles já eram mais de cem. A idéia era que pequenos grupos se formassem nos bairros e seguissem em comboio até o viaduto do chá, em frente a sede da prefeitura, pra tentar falar com o prefeito e entregar a ele um envelope com várias reivindicações. Acostumados a entregar envelopes dos outros, desta vez eram eles mesmos os remetentes.
Haviam quatro grupos oficiais, todos com escolta policial, carro de som e gente organizando. Mas haviam também grupos paralelos, que vieram parando avenidas importantes e desafiando a policia, como esse que fotografei.
Logo de cara eles fecharam a Radial Leste. Ainda não havia policia por perto. Buzinavam fino o tempo todo e soltavam pipocos no escapamento das motos. O rush da manhã se tornava pesadelo para quem estava naquela fila de carros.
Em poucos minutos chegou a primeira viatura. Saíram dois policiais, um homem e uma mulher. Assustados pediram reforço e voltaram para o carro. Ligaram a sirene pra tentar espalhar os motoqueiros mas não adiantou.
A provocação durou pouco e os motoqueiros partiram. Levavam o capacete na mão e placas cobertas por pedaços de papel. Parecia o filme Mad Max. O barulho das motos, as buzinas e e os gritos eram um espetáculo de musica urbana. Uma verdadeira orquestra Sinfônica Paulistana tocando sua mais recente obra, talvez sua obra prima, enquanto seguiam em comboio sobre o asfalto.
Fecharam também a ligação Leste-Oeste por cinco minutos e a 23 de Maio por dois. Foi ai que apareceu a ROCAM, grupo especial da policia que também usa moto, e botou todo mundo pra correr dali.
Seguiram comportados até a prefeitura e o resto do protesto foi pacífico e tranqüilo, apesar da aparência apocalíptica.
Os motoboys são uma categoria unida. Quando um cai todos param para socorrer e quando um briga todos param pra brigar. Essa união não existe a toa. Sem capacete, são todos muito parecidos. São jovens, nasceram na periferia, estudaram em escola pública mas abandonaram cedo, por total falta de opção compraram uma moto a prestação e se jogaram no trânsito louco de São Paulo em que dois deles não voltam pra casa vivos a cada dia.
Cerca de dois mil motoboys chegaram juntos à porta da prefeitura e chamaram o prefeito Gilberto Kassab para conversar.
Alguns traziam carnês do IPVA nas mãos e no carro de som, o “Rap do Motoboy” era cantado ao vivo pelo Carlinhos, do grupo CR13MC’s enquanto esperavam o prefeito. Nas janelas dos escritóriospescoços se esticavam pra ver que caos era aquele. Já era quase meio-dia e o calor chegou a seu ápice.
O prefeito evidentemente não recebeu os motoqueiros e mandou assessores irem buscar o envelope. Uma desculpa esfarrapada e duas promessas falsas foram suficientes para os motoboys partirem. Eles prometeram voltar caso não sejam cumpridas as promessas que certamente não serão.

19/01/08

SENZALA





O bairro do Bom Retiro já foi dos judeus, mas hoje é dos coreanos. Onde se viam barbas longas, chapéus pretos, cachos e quipás hoje se vêem olhos puxados e letras esquisitas.
Os coreanos são ricos. Compram as lucrativas lojas do Brás e escravizam os bolivianos, que por serem em sua maioria clandestinos, trabalham como costureiros nos subsolos do bairro em troca de casa e comida garantindo o preço baixo e o lucro alto dos coreanos, como revelou a grande reportagem de Antônio Gaudério na Folha.
O Brás é a senzala e o Bom Retiro a casa-grande. Clandestinos não são cidadãos e portanto não tem direitos. Na pirâmide social estão abaixo dos miseráveis, são piores que os mais pobres dos brasileiros. Um mendigo vale mais que um clandestino.
É uma novela perversa em que os brasileiros passam longe, como se estivessem apenas assistindo a um filme gringo sobre Chinatown.
Todo mundo sabe que a senzala funciona nos subsolos das confecções do Brás, todos os dias das sete às dez, menos aos domingos e nenhuma autoridade brasileira faz nada. Fingem que não é com eles. Além do mais, os bolivianos são pobres e os coreanos são ricos e cheios de amor e propina pra dar. Todo mundo fica feliz enquanto os bolivianos se fodem.
Cento e dez anos depois da abolição da escravidão os tradicionais bairros dos imigrantes mudaram de mão e um dos mais desprezíveis crimes da humanidade se transformou em rotina.
Os judeus que antes moravam no Bom Retiro se mudaram pra Higienópolis. Pra onde irão os coreanos quando ficarem milionários?