20/12/08



Depois de 53 dias presa por pichar o andar vazio da Bienal, Carol "Susto's" de volta as ruas de São Paulo. Hoje na folha:

LAURA CAPRIGLIONE
DA REPORTAGEM LOCAL

Caroline Pivetta da Mota, 24, ganhou ontem a liberdade, depois de 54 dias de prisão. Ela chegou a chorar ao se despedir da condenada por assalto a mão armada com quem dividiu uma cela na Penitenciária Feminina de Santana (zona norte de São Paulo). Saiu com uma micose que lhe provoca coceiras pelo corpo todo, "culpa da sujeira daquele lugar", e com a convicção de que sua prisão prolongada foi decorrência do ódio que a sociedade dedica aos pichadores, causado pelas "malditas pessoas que picham um muro branco". Como é que é?
Caroline, 20 tatuagens espalhadas pelo corpo, incluindo uma caveira entre os seios, piercing no nariz e na língua, baixinha, 1,55 metro, cabelos vermelhos, sobrancelhas recém-depiladas e risonha de felicidade ontem, foi um dos 40 jovens que, no dia 26 de outubro, picharam o andar vazio do prédio projetado por Oscar Niemeyer no parque Ibirapuera, onde acontecia a 28ª Bienal Internacional de São Paulo. Ela foi a única presa.
Caroline diz que foi agarrada pelos seguranças, jogada ao chão, xingada. Novata no mundo da pichação, a garota chegou a ser apresentada como liderança do grupo. Ela nega: "Eu só fiquei sabendo da ação na quinta-feira, três dias antes".
O advogado Augusto de Arruda Botelho Neto, que assumiu o caso da jovem, diz que ela foi vítima de um "equívoco".
"Nem o Fernandinho Beira-Mar, se fosse pego pichando um muro, receberia a pena que ela já recebeu. O Ministério Público denunciou a Caroline pelo crime de destruição de um bem protegido por lei, quando deveria tê-la denunciado pelo crime ambiental de pichação. Já seria um erro. Há mais. Também não se aplica a "destruição". O muro pichado por ela foi pintado e continua lá. Não houve destruição nenhuma." [Leia nesta página texto com pareceres de outros advogados sobre o caso].
Para Carol Sustos, como é conhecida entre seus camaradas de spray, a pichação na Bienal tinha o objetivo de "chamar a atenção para esta arte marginal". Ela provoca: "Por que é que se aceita que uma pessoa exibindo-se nua [refere-se ao artista Maurício Ianês] seja uma forma de arte e uma parede com algumas letras e siglas não possa ser?"

Aristocrata
Carol Sustos é uma legítima representante da aristocracia dos pichadores, os que atacam prédios (quanto mais altos, melhor), admirados por seus pares pela coragem e ousadia. Como tal, nutre uma espécie de desprezo pelos pichadores do chão. "Eu detestaria que alguém fosse lá pichar a parede da minha casa. Se eu quisesse um muro sem qualquer cuidado, eu teria deixado sem qualquer cuidado. Mas não, eu pintei de branco. É lógico que vou ficar com raiva se alguém descaracterizá-lo", surpreende.
Para a garota, rara representante feminina na categoria dos pichadores, o encanto da pichação de prédios (ela admite o ataque a 37) vai muito além do registro com spray naquela caligrafia peculiar.
"Eu gostava da dissimulação. De passar pela portaria, o porteiro me perguntar onde eu iria, eu despistá-lo e entrar, subir até o ponto mais alto, abrir a porta ou a janela e, lá em cima, olhar o céu, sentir o vento, ver a cidade de longe, em paz e em silêncio. É lindo. Deixava a minha vida muito mais contente", diz a pichadora.
Ela terá de deixar essa beleza de lado. Sabe que, se pichar, volta para a cadeia, o que não quer. Vegetariana por compaixão dos animais, Carol sofreu com a dieta da cadeia. "Tu sabes, a comida lá era triste", diz. "Aliás, aquele lugar inteiro era muito triste, 3.000 mulheres que não têm direito nem a um ginecologista; baratas, mofos e ratos por todos os lados."
Carol chegou a participar de uma "rebelião pacífica" com suas colegas de cana. Naquele dia, nenhuma presa trabalhou, ou comeu. Ficou todo mundo fora das celas até as 23h. O protesto foi pela melhoria, entre outras coisas, da alimentação.
Ontem à tarde a jovem ainda não sabia onde dormiria. Durante a prisão, ela perdeu o apê em que morava, por falta de pagamento do aluguel.
Sem um real no bolso, Carol quer retomar o trabalho como artesã e morar no centro da cidade. Por enquanto, jura, ficará longe das latinhas de spray.

13 comentários:

Joana Rizério disse...

a demora valeu o tema: adoro pixo. grandes fotos! qual a idade da menina? beijos

Roberta disse...

nossa João, isso aqui tá ótimo!
Bj
R

petra schwarz disse...

Finalmente pude ler um texto, ver uma imagem dessa garota da tão falada manifestação que houve na Bienal, aliás adoro pressentir que algo está mudando no que diz respeito á arte, parece que estamos entrando numa nova fase para se refletir o que já foi feito e andar pra frente, questionar se preciso...E como é preciso, tanto na arte, como na música, no teatro, enfim como nós brasileiros absorvemos o que somos.Alguma coisa está mudando, que seja pra melhor.
Parabéns João, até.
Petra Schwarz.

Filipe Mamede disse...

Em meados da década de 90 quando eu ainda morava pelas bandas de São Paulo, ouvir rap e pichar muros eram o escapismo comum aos que comungavam dos de 13 até os 18 anos de idade. Esteticamente a pichação é grito, uma incógnita talvez. Arte para alguns? Depredação do patrimônio alheio? Afinal, o que é arte? Um urinol num canto de uma sala com meia dúzia de apedeutas? Enfim...

Tiago Medina disse...

"Por que é que se aceita que uma pessoa exibindo-se nua [refere-se ao artista Maurício Ianês] seja uma forma de arte e uma parede com algumas letras e siglas não possa ser?"


ótima reflexão!

kaio disse...

pixo como arte vale para são Paulo,lá em Brasilia onde a movimentação de pixadores é bem maior,ser pixador lá é ter costas questes,é participar de gangues,que se matam dia-a-dia com outras gangues rivais,e ter dominio de região ,"ganhar" roupas e objetos dos patricios na mo moral,é tar disposto a rasgar na bala o rival da outra gangue independente de ser mulher ou homem,de ser menor de idade ou maior,não importa quanto mais vitimas a guangue faz,maior o respeito do pixo na paredede.

Tiago Mesquita disse...

olha só quem tá lá no guaciara
abraço saudoso

beatriz disse...

Adoro suas fotos e seus temas, porém não concordo com a maioria dos seus textos. Acho que em alguns deles vc faz uma inversão de valores, como no post sobre a cracolandia, ao igualar diretrizes do PCC e CV aos órgão públicos (que eles são relapsos todos sabemos, mas elevar as decisões do PCC e CV à ponto de reflexão é no mínimo contraditório, pois são organizações criminosas que abastecem o mercado ilícito de drogas e armas no país).

Alguns textos são, com o perdão da força da palavra, hipócritas, como o texto do Bahamas. Da cruzada assexuada do governo paulista, quantos prostíbulos foram fechados? Desses, quantos estavam em bairros nobres ou de classe média? Quantos estavam na periferia? Todos funcionam da mesma forma: exploração sexual.

Quanto à esse post é inoportuno e inconsequente apoiar manifestações vandalas que não sabem distinguir um muro de um patrimônio público. Com isso vc abre portas para que monumentos históricos e outras obras públicas sejam denegridas, as vezes de forma irrecuperável ou de recuperação extremamente dispendiciosa aos cofres públicos. A máxima de que seu direito acaba onde começa o do próximo ainda existe e sempre existirá, principalmente o direito de propriedade, já que vivemos em um sistema capitalista.

Gostaria de finalizar dizendo que sou ciente das condições desumanas nas ruas, nas cadeias, nas favelas, nos bairros pobres e em outros locais desfavorecidos. Sou ciente tbm da exploração de menores, das mulheres, da população carente e do trabalhador e de outras classes e "castas". Porém também sou ciente que os causadores disso foram os antigos governantes do país e os mantenedores atuais da política de interesse políticos com a qual nos governam. E por fim, sou ciente de que tais manifestações não os atingem, atingem apenas a nós, classe mérdia, pagadora da luxuosidade dos ricos e das revoltas, manifestações e estragos dos pobres.

Fernando disse...

Poderia apodrecer lá na prisão, tanto ela como todos os pichadores.

Anônimo disse...

Beatriz, você que se diz tão cuidadosa ao falar dos direitos dos outros, preocupando-se sempre em esclarecer que está ciente " tbm da exploração de menores, das mulheres, da população carente e do trabalhador e de outras classes e "castas"." Tome mais cuidado com os termos extremamentes preconceituosos que usa como por exemplo "denegrir", no sentido de tornar sujo. Vale sempre consultar o dicionário e a consciência antes de sair por aí. Cuidado, Beatriz, o preconceito é um bichinho muito esperto.
Ass: Fernanda D´Umbra.

A saber, segundo o o dicionário:

denegrir
de.ne.grir
(de2+negro+ir) vtd e vpr 1 Tornar(-se) negro ou escuro: As chamas denegriram a parede. A sua pele denegriu-se. vtd 2 Macular, manchar, infamar: Ninguém o denegrirá na minha presença. Denegriu-lhe a reputação com palavras aleivosas. vpr 3 Pint Escurecer-se. Conjuga-se como agredir.

Anônimo disse...

pau mandado e nem sabe...
o cara do documentario q tinha que ser preso....

Frederico Antunes disse...

João, também me interesso muito pelo pixo. Assim como o Gustavo Lassala– cuja fonte usas no header do teu blog– também desenvolvo tipos digitais baseados no estilo.

Gostaria de poder le enviar algum material. Se possível entre em contato pelo frederico (@) chibachiba.com.

Qual a previsão para lançamento do documentário?

Um abraçø

Felipe Baenninger disse...

Agora que ela tinha que lançar varias latas por ai.