Era uma pauta ruim, tão ruim que eu nem me lembro mais qual era. Cheguei na porta do 35DP, no Itaim e antes mesmo de por o pé pra dentro um policial que fumava um cigarro encostado na viatura vermelha e preta já me deu a letra. “Acabaram de fechar o Bahamas. Se vc correr lá vai se dar bem”, disse cheio de segundas intenções.
O Bahamas é o mais famoso puteiro de luxo de São Paulo, onde a entrada custa R$250, uma dose de whisky R$ 200 e um programa pode chegar a R$1.500.
Não pensei duas vezes e corri pra lá. Sempre quis conhecer o Bahamas e essa me pareceu uma excelente oportunidade.
Cheguei muito rápido, vi as viaturas da policia civil encostadas e quase nenhuma movimentação do lado de fora. Atravessei a rua e bati na porta, pronto para levar um não na cara, como é normal nessas operações. Um policial abriu a porta e para minha surpresa foi gentil e me convidou para entrar.
No saguão principal, algumas prostitutas de biquíni, salto alto e roupas de “trabalho” estavam sentadas em um canto enquanto do outro lado um grupo de clientes constrangidos, vestindo roupões de banho e observados por um policial armado eram obrigados a aguardar, transformando aquilo numa cena digna de Garcia Márquez.
Ao notarem a câmera fotográfica todos os rostos imediatamente se esconderam entre mãos, joelhos e cabelos longos.
As mulheres eram jovens, lindas, bem cuidadas e com corpos perfeitos. Os homens quase todos gordos, alguns carecas, grisalhos e completamente envergonhados como crianças pegas em flagrante. Pareciam empresários ricos, estavam em um lugar caro. Nus sob os roupões, os relógios Rolex e Tag Hauer eram as únicas peças que denunciavam a condição social do grupo. O relógio na parede indicava que eram três da tarde naquela terça-feira. Vida fácil devem ter os caras que freqüentam um puteiro de luxo nesse horário. Imagino o susto que devem ter levado ao serem surpreendidos pela policia pelados e com prostitutas no meio da tarde.
Um dos delegados responsáveis apareceu para me mostrar a casa. Me disse que havia encontrado irregularidades na reforma do andar de baixo, um revólver calibre 22 sem registro e uma peça de carne vencida no congelador, portanto o dono daquilo tudo, o empresário Oscar Maroni, conhecido comoo o Larry Flint brasileiro, ia ser preso e a casa seria lacrada. Logo as equipes de jornalismo da TV Record e da Band chegaram. De imediato imaginei o Datena berrando no Cidade Alerta. Os policiais apenas esperavam a chegada da TV para darem inicio ao show.
O delegado, em tom de brincadeira, declarou que era dia de “open bar”. Um policial fazia as vezes de barman e servia drinks para os jornalistas, fiscais da prefeitura e policiais que participavam da blitz. Todos pareciam estar se divertindo muito com aquilo. O balcão virou um happy hour informal.
Aos poucos as prostitutas foram sendo conduzidas semi-nuas aos camburões estacionados na porta. Os clientes nao puderam se vestir e foram levados de roupão para o chiqueirinho. Oscar Maroni desceu algemado e sob protesto também foi levado.
Sempre me lembro do método judaico para a resolução de problemas que diz que todas os problemas tem o lado “aparente” e o “oculto do aparente”. Aquele show parecia desproporcional as irregularidades encontradas. Quais seriam os interesses por trás daquela apreensão? Fui a luta pra tentar saber mais e por incrível que pareça, o que descobri não me surpreendeu tanto.
O dono do Bahamas, Oscar Maroni, é odiado por toda a Policia Civil de São Paulo. Dizem as más línguas que isso acontece porque ele é o único empresário de prostituição que não paga propina pra ninguém. Legalmente o Bahamas não é um puteiro. É uma casa que cobra uma pequena fortuna dos homens na portaria, os drinks são caríssimos e as mulheres “selecionadas” entram de graça. São universitárias de várias partes do país que estudam de manhã e no resto do dia andam seminuas pelo Bahamas dançando e oferecendo sexo pago para clientes endinheirados. Nos fundos existem pequenos quartos com cama de casal e espelhos por toda parte.
A casa fatura por todos os lados, menos na hora do programa. A garota combina diretamente com o cliente o valor da foda, e isso isenta completamente o Bahamas de qualquer envolvimento com a prostituição. Na legislação brasileira prostituição não é crime. Crime é agenciar a prostituição.
Com dinheiro e bons advogados, Maroni se blindou. Com seu talento, usou e abusou do marketing. Na semana anterior ao fechamento do Bahamas, havia dado uma entrevista para a revista “Istoé” gabando-se de faturar R$ 1 milhão por mês com o Bahamas. Alguém importante que não estava recebendo a propina que considerava ter direito ficou bravo mexeu seus pauzinhos e mandou fechar a casa.
Objetivo alcançado, foi gerado um grande estardalhaço na imprensa, mas em poucos dias tudo voltou ao normal. Operações policiais feitas exclusivamente para sair na mídia são assim mesmo. Infelizmente uma parte da nossa digníssima policia trabalha assim. Só saem da delegacia pra faturar um troco, ou defender o interesse escuso de algum fodão.
11 comentários:
Isto sim é putaria em todos os sentidos!
É...daqui a pouco eles reabrem e a putaria volta com toda força,para a alegria das garotas de programa e dos ricos pagões.
salve joão.
não bastasse ser um ótimo fotógrafo, é um ótimo cronista. seus textos são muito bons. parabéns.
Caro Joao,
cheguei aqui pelas andanças na net e não consegui parar de ler.
Parabéns pela ótima articulação de palavras e idéias. Como é bom ler textos com coesão, com objetivos implícitos e explícitos dosados corretamente.
Parabéns!
PUTZ, Joao, isso aqui eh muito bacana! Os textos sao muito bons...
Muito boa a abordagem dos temas. Sua escrita insere o leitor na descrição acontecimentos.
Valeu!!
Mais uma vez digo que esse site é muito bom. Achei curiosa a foto do modelo presidencial em chamas. muito mais do que um exemplar raro, é a fotografia de um episódio ainda mais inustado.
renner estudiopinel.com
Du Caraio,aliás da Bahamas...rsrs essa matéria tá sensacional.Saudade do jornalismo investigativo...
valeu!!
hanhan'
é d se imaginar
^^
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