24/12/07

NAS VEIAS




Transito caótico. São Paulo cada vez mais travada. Quem anda por ai escuta o tempo todo. Com 700 carros sendo jogados nas ruas todos os dias pelas montadoras, todo mundo sabe que um dia São Paulo vai parar. Taxistas, motoristas de ônibus, caminhoneiros, policiais. Qualquer profissional que lida com trânsito tem consciência de que um dia isso vai acontecer.
Quando trava é embaçado. Só andam mesmo os motoboys, desviando seus joelhos dos retrovisores com o dedo nas buzinas agudas que cada um toca de um jeito diferente.
Imagino como vai ser o dia em que São Paulo parar. Vai ser zica e quero estar lá pra fotografar.
Vai ser uma sexta-feira a tarde, vai estar calor e uma tempestade daquelas de janeiro vai precipitar o desastre. Carros e motos vão entupir todos os buracos possíveis travando de vez a maior cidade da América Latina.
O trânsito é o sangue que circula nas veias da metrópole. Sem sua circulação, as entregas, encontros e correrias não alcançam o destino. A cidade vai sendo asfixiada. É a morte via sistema circulatório, a crônica da tragédia paulistana anunciada.
A indústria faz a parte dela e aumenta a produção de veículos novos mesmo sabendo que eles são nocivos. Quando a cidade morrer de vez elas se mudam para a outra; são multinacionais.
Políticos só pensam em si e já deixaram isso claro. Liberam a indústria para fazer o que quiser. Tentam estar sempre próximo do dinheiro que elas pagam de imposto e dos financiamentos de campanha.
Enquanto isso, os carros que o governo libera e indústria automobilística constrói seguem entupindo as ruas como a gordura da picanha entope as artérias do coração.

21/12/07

FORRÓ






Era o largo da Batata, mas poderia ser qualquer cidade da Bahia pra cima. Bar lotado, luzes de Natal penduradas misturadas com a lâmpada verde sobre o palco improvisado. Teclado eletrônico e dupla de cantores desafinados turbinando o forró nas caixas de som rachado. “Você não vale nada mas eu gosto de você” dizia a letra pra delírio dos que dançavam de rosto colado.
Uma briga na mesa em frente ao palco foi rapidamente apartada pelo garçom. Ninguém se assustou. Um anão bêbado fingia que tocava piano sobre uma mesa de plástico enquanto um cara suado de tanto dançar tentava exaustivamente beijar a moça que se esquivava como um boxeador acuado. Ninguém se importava com a câmera fotográfica. Essa é a São Paulo que eu tanto amo...

14/12/07

TREMEU O CHAO





A comunidade de Caraíbas, 35 km de Itacarambi, no norte de Minas Gerais vai se transformar em uma cidade-fantasma. Todos os moradores foram removidos após o terremoto de 4,9 graus na escala Ritcher que abalou o vilarejo no domingo passado. Dos 380 habitantes, apenas seis passaram a noite de quarta para quinta-feira no local, armados com dois rifles e um revólver calibre 38, para proteger de saques e roubos os poucos bens que ainda lhes restaram.
Exatamente à meia noite e onze minutos da quinta-feira houve um novo abalo sísmico bem debaixo dos meus pés. Um ruído parecido com o de um trovão de baixa intensidade ecoou, causando uma sutil vibração semelhante a da passagem de um metrô pelo subsolo. Após o ruído, cães, galinhas e porcos se assustaram quebrando o silêncio do local mas os moradores ao redor da fogueira nem se abalaram. “Isso acontece todo dia. Esse foi dos mais fracos” disse Raimundo Campos Pinheiro, 49, demonstrando tranqüilidade assustadora.
“Como a gente pode morar num lugar assim?” lamentava o lavrador Donato Moreira, 54, enquanto Minervaldo da Mota Silva, 48, já embriagado, procurava explicações sobrenaturais para o fenômeno sismológico: “Os antigos falavam que esse barulho vinha do ronco de uma sucuri que morava lá embaixo do lençol d’agua, no fundo da terra. Outros diziam que era assombração e coisa de outro mundo. Quando a terra começou a tremer, muitos pensaram que era o mundo acabando, principalmente os mais velhos e os crentes”.
Entre um gole e outro de pinga, Juarez da Silva Mota, 40, contou que já viu muita coisa estranha acontecer em Caraíbas. “A gente ouvia barulho de coisa caindo a noite, panela batendo, copo quebrando, e quando acendíamos o candeeiro não tinha nada fora do lugar, tava tudo lá certinho”. Os moradores estão assustados. “O primeiro terremoto, em maio, foi meio-dia, mas depois desse, quase sempre perto da meia-noite a gente ouve esse estrondo, uns mais fortes e outros mais fracos. Parece mesmo coisa do além” emendou Juarez.
Apesar das histórias, todos os moradores que montavam guarda no local concordam que o maior medo ali não era do terremoto e nem das assombrações. O que eles realmente temem é uma invasão dos índios Xakriabá, que moram em uma cidade vizinha e possuem uma rivalidade antiga com Caraíbas. “Ninguém lá é índio mesmo, eles só tem carteira de índio mas são iguais a nós. Nós sabíamos que eles estavam se armando pra invadir aqui, e estávamos preparados pra lutar com eles. Agora depois do terremoto não sei como vai ficar essa briga, mas temos que estar com os olhos abertos” disse Mauricio dos Santos, 19.
Já o caminhoneiro Pedrão, morador de Itacarambi, enxerga a tragédia de outra maneira: ”Deus faz mesmo tudo certo. Ele mandou esse terremoto pra evitar um derramamento de sangue maior acontecesse nessa guerra entre Caraíbas e os Xakriabá. Ia morrer muita gente” afirmou para a concordância de todos ao redor da fogueira sob a noite estrelada.

05/12/07

SAMBA DA VELA





O grande barato de uma cidade como São Paulo, é que por mais que você circule, por mais que você rode, por mais que você conheça, sempre aparece uma coisa nova capaz de fazer teu queixo cair e te emocionar.
Ontem foi assim, quando cheguei de mansinho na Casa de Cultura de Santo Amaro, na zona sul, pra assistir ao Samba da Vela, uma roda de samba tradicional que acontece toda segunda feira desde 2000 numa travessa da avenida João Dias.
O funcionamento é simples: Pontualmente às 21:00h um dos membros pendura o estandarte na parede e o presidente acende uma vela no centro de uma mesa cercada por músicos e ouvintes. Junto com o fogo, o samba começa pra só acabar na hora em que chama da vela se apaga.
Uma folha de papel traz a lista de compositores presentes e um a um eles são chamados ao centro da roda numa espécie de Cooperifa do Samba. Eles chegam dos quatro cantos da cidade: Capão, Mogi, Itaim Paulista, Jd. Ângela e outras tantas quebradas pra apresentar sua composição. Cada um que chega traz consigo varias cópias da letra da música inédita que vai mostrar e as distribuí de mão em mão para os presentes. Ainda timidamente, acompanhado por um cavaquinho, o compositor canta e ensina seu samba a todos. A música ali tocada pela primeira vez é, na seqüência, acompanhada pelos músicos como se eles já a conhecessem de outros carnavais. Ajudados pelo papel com a letra, os ouvintes cantam junto com os compositores. Cavaquinho, tan-tan, violão, pandeiro, tamborim e o tradicional sorriso de felicidade que os sambistas exibem quando tocam seus instrumentos são a marca da festa.
A democracia e o respeito dão o tom da roda. Qualquer um pode chegar e cantar. “Aqui o silêncio é uma prece” diz o enorme cartaz preso a parede e respeitado por todos. Não são vendidas bebidas alcoólicas e não há clima de balada. Quem esta ali quer apenas ouvir boa musica, objetivo facilmente atingido pelas cerca de cem pessoas presentes.
Num país em que as gravadoras só pensam em lucro fácil com musicas ruins contaminando a cultura de um pais tão rico musicalmente, o Samba da Vela é um alento.
A vela apagou, o samba cessou e entendi que quem diz por ai que São Paulo é o tumulo do samba está mesmo de chapéu atolado...