Dois milhões de pessoas, uma corda, a imagem de uma santa e uma cidade mágica como Belém do Pará são os ingredientes necessários para se construir uma das festas religiosas mais inacreditáveis do planeta, o Ciro de Nazaré.
Todo segundo domingo de Outubro uma multidão de devotos se amassa na tentativa de caminhar 3,6 km segurando em uma corda presa a imagem de Nossa Senhora de Nazaré entre a Catedral de belém e a Praça Santuário em busca de uma benção, de pagar uma promessa, ou simplesmente de um pouco mais de sorte na vida que tem.
A corda é esticada ainda na madrugada e desde as duas da manhã já tem gente dormindo em cima dela pra guardar lugar pra procissão.
Enquanto milhares de fiéis madrugam pra celebrar o dia de Nossa Senhora, outros milhares bombam na festa da Chiquita, tradicional encontro gay que acontece na véspera do Círio em frente ao Teatro da Paz, bem no meio do trajeto por onde vai passar a romaria na manhã seguinte.
Como em qualquer comunidade católica do mundo, em Belém o sagrado e o profano andam sempre lado a lado. Travestis, drag-queens, lésbicas, gays e outros tantos simpatizantes bebem, dançam e se divertem ao redor do palco em que um mestre de cerimônias de sunga e com um enorme chifre curvo apresenta as atrações da noite. Montadas até o osso, elas dublam e dançam hits gays como I Will Survive e YMCA num clima liberdade absoluta, na verdadeira Parada Gay paraense.
Quando o dia amanhece os“infiéis” da festa da Chiquita se juntam aos “fieis” do Círio para seguir a santa que chega de barco para o delírio de todos. A fé dos homossexuais ignora a igreja que os despreza. Gloria Gaynor sai de cena e os cânticos do padre Marcelo dominam a trilha sonora.
Por volta das oito, um sinal precedido de fogos de artifício dá início ao Círio. Fafá de Belém canta o hino nacional de vestido e lenço branco na cabeça no palanque da prefeitura. Descalços, os dois milhões de fiéis percorrem o trajeto da maratona religiosa. É muita gente pra pouca corda e a compressão humana é tão grande que muitos desmaiam. O suor escorre do rosto das pessoas que se contorcem de dor, aliviada no caminho por populares que distribuem água e incentivo para aqueles que se dispõe a ir até o final.
O sol forte belenense queima tudo pela frente e deixou em brasa o asfalto pisado pelos fiéis. No meio de tantas agruras, o pé queimando era o que menos doía. Mangueiras e baldes de água pelo caminho molhavam partes do asfalto e esfriavam um pouco a cabeça dos devotos. Alguns até riam enquanto seus órgãos eram amassados. De tênis, pisei no pé descalço de alguns fieis e achei injusto. Me descalcei como eles e segui, levando o mínimo de equipamento possível. Acompanhei de ponta a ponta a procissão e descobri na marra que as esquinas são o nó do Círio. Dois milhões de pessoas andando numa linha reta vão bem até a hora de dobrar a esquina. Cada curva me amassava de tal forma que o coração ameaçava sair pela boca. Em muitos momentos, não havia rota de fuga e a única coisa a fazer era relaxar e deixar a maré humana te arrastar pra onde fosse.
É desconfortável perder o controle, ser levado por uma multidão, mas estranhamente aquilo parecia confortável. Aquelas pessoas espremidas pareciam felizes com isso. Era uma coisa maior, um momento de lavar a alma, um êxtase, uma catarse coletiva que se repete todos os anos em que todos sabem muito bem o que fazer, como uma gigantesca companhia de dança exaustivamente ensaiada.
Nunca gostei da igreja católica, sempre repudiei seus métodos, das fogueiras da inquisição até a proibição da camisinha, mas confesso que no final da procissão, respeitei a força que faz com que aquilo aconteça. Vi a felicidade, orgulho e alivio no rosto dos que completaram a romaria e reconheci entre os extasiados devotos uma das drags que ontem fazia show na Festa da Chiquita, já sem vestígios da maquiagem apagada pelo suor do rosto. Tentei entender o que leva um homossexual a passar por tudo aquilo em nome de uma igreja retrógrada que condena o homossexualismo. Olhando pra ele, no silencio daquele momento, aprendi que a fé não tem mesmo nada a ver com a igreja.