29/10/07

O CAMISA 5




Toda segunda-feira no Carandiru era dia de acerto de contas. Quanto mais longe do final de semana melhor para resolver as tretas pendentes na cadeia. É que fim de semana tinha visita e quando ladrão fazia merda na véspera, a entrada dos parentes e amigos era suspensa no ato. Quando a merda acontecia na segunda, dava tempo da direção esquecer até chegar o sábado. Essa era a rotina da maior cadeia que já existiu na América Latina, abrigando em sua lotação máxima 8 mil presos.
Aquela segunda, alem de ser o dia de acerto de contas era dia de clássico no campo do pavilhão 8 e só se falava sobre isso na Detenção. Dois times tradicionais duelavam pela final do campeonato organizado pela FIFA (Federação Interna de Futebol Amador), na época presidida por meu amigo Monarca, um dos presos mais antigos e respeitados do Carandiru. Todos os olhos da cadeia estavam voltados para aqueles 22 jogadores. Na beira do campo, momentos antes de começar o jogo, uma roda de samba animava a bandidagem regada a Maria-louca e muita maconha. Senti falta da câmera de vídeo quando os presos cantaram “Se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão”.
Na condição de visita, logo consegui um lugar no banco, atrás da linha de fundo.
Ao meu lado, sentou o Paraíba, um negro alto, magro e de bigode farto com quem eu sempre conversava bastante. Era um típico “cabra-da-peste”. Dizia que nunca roubou, não gostava e nem tinha talento para isso. “Só de pensar em roubar alguém minha mão começa a tremer. Não acho certo. Meu negócio sempre foi mesmo matar. Acho que nasci pra isso. Odeio ladrão” dizia com uma naturalidade estonteante.
O jogo seguia equilibrado, com muitas faltas e poucos gols. No meio do segundo tempo, Paraíba me cutucou e disse: “Ta vendo aquele cara ali, o camisa 5? Vai morrer hoje a noite”. Levei um susto, engoli seco, controlei os nervos e perguntei despretensiosamente, fazendo de conta que tinha ouvido algo normal, o por que do assassinato? “Treta de cadeia, já tá condenado mas ainda não sabe” disse sem dar mais detalhes.
Não consegui dizer nada. Parei de fotografar e perguntar pra ficar olhando o cidadão com a camisa 5 que corria dentro do campo. Era a primeira vez que via um morto jogar bola. Muitos outros ali já sabiam que aquela noite haveria sangue.
Homicídio no Carandiru era um acontecimento. Havia um julgamento e depois da sentença, o cara que ia morrer era colocado ainda vivo em uma cela e esperava igual a um porco no matadouro a hora da morte. Não adiantava gritar. Diziam que a maioria ficava em silencio. Um preso da faxina chegava com água, sabão, balde e rodo e deixava ao lado da cela. Assim que levava a primeira estocada, o sangue jorrava e começavam a limpeza. Vagabundo não gosta de sujeira na cadeia. Quando parava de se debater, o morto era puxado pelos pés e levado para a porta do pavilhão. O rastro de sangue que ficava era limpo na hora pelos responsáveis pela limpeza. Na hora de descer a escada, o barulho seco da cabeça desfalecida batendo nos degraus era ouvido de longe no silencio cortante do pavilhão.
No dia seguinte, algum preso endividado ou com uma pena centenária assumia o crime. Algumas vezes mais de dez assumiam a morte. Na lei, quando mais de dez matam na cadeia fica caracterizado motim, e ai ninguém é punido.
Sentado ali na beira do campo assistia ao morto vivo jogar bola. Imaginava cada etapa do assassinato. Pensava no que fazer com aquela informação. Gritar, avisar o cara, a direção do presídio, a policia? Meu cérebro entrou em parafuso e não fiz nada. Fui embora como se não soubesse daquilo. Nada do que eu fizesse mudaria o destino que se desenhava para aquele camisa 5. Conheço bem o parágrafo primeiro na lei da favela. Boca fechada sempre. Não sou louco de desrespeitar, mas não dormi direito aquela noite. Toda a seriedade que falta na justiça brasileira sobrava no Carandiru. A lei da cadeia é cruel e implacável, não existe apelação nem Supremo Tribunal Federal. Ao contrário da rua, as sentenças eram invariavelmente cumpridas na cadeia.
No dia seguinte voltei pra Detenção e na portaria me informaram que não poderia entrar pois houvera um homicídio na noite anterior. Sentei na calçada e lembrei daquele camisa 5 correndo atrás da bola. Não o conhecia, não sabia seu nome, porque estava preso nem a quantos anos foi condenado. Não quis saber. Sabia apenas que aprontou alguma e foi punido. Aquele volante raçudo era bom de bola e peça importante no time, tanto que esperaram o campeonato acabar pra manda-lo embora pro inferno.

** para André, Sophia e Maureen

10/10/07

CRACOLANDIA...





Nas favelas do Rio, as facções criminosas proibiram a venda de crack. Nas cadeias, o PCC fez o mesmo. Nas ruas de SP, o Estado deveria seguir o exemplo, mas não foi capaz.
O efeito da pedrinha é devastador e transforma seus usuários mini-monstros que perambulam em bandos feito almas penadas roubando e cachimbando enrolados em cobertores de feltro pelas outrora chiques ruas da Cracolândia, nas beiradas da Estação da Luz.
Faz anos que vejo nos jornais os anúncios de revitalização da Cracolândia. Urbanistas mostram seus desenhos, economistas seus cálculos e jornalistas suas análises enquanto a cada dia mais e mais crianças se acabam na pedra sobre colchonetes sujos e fétidos, a vista de todos, inclusive da policia que passa e os ignora como se nada acontecesse.
Sob efeito do crack os moleques parecem bichos. Os olhos saltam e os músculos enrijecem. Olham para os lados como se estivessem sendo perseguidos o tempo todo. Sentem incontrolável vontade de cagar, o que transforma seus “mocós” em lugares mais nojentos do que já são. O cheiro é podre.
Hoje andei pela Cracolândia. Fotografei de longe alguns meninos fumando. As fotos ficaram ruins e resolvi chegar junto. Deixei carteira, celular e tudo o que pudesse ser roubado no carro. Levei apenas uma câmera na mochila. Escolhi um grupo que estava fumando e me aproximei. Quando se avista a luz do isqueiro há segurança, o perigo esta nos que não tem a droga. Cheguei perto e “na gíria”, perguntei se podiam conversar comigo. Aprendi com meu parceiro Cascão que o segredo de qualquer abordagem é não demonstrar medo. Quem faz isso sempre ganha, dizia ele. Deu certo.
Para meu espanto fui convidado a sentar. Me ofereceram um trago no cachimbo. Agradeci e recusei. Eram três, uma criança de 13, uma menina de 18 e um adulto de 20. Desconfiaram no começo mas aos poucos foram ganhando alguma confiança. Sorrisos surgiram entre um trago e outro e a conversa fluiu.
“Nóis vive pela pedra. Roubamos de manhã no trânsito e trocamos os artigos que conseguimos por mais pedra. Quando acaba voltamos pra pista roubar. Essa é nossa vida, nossa pegada. Vivo na rua desde os 6, to com 18 e fumo pedra desde os 11” disse a menina, que se identificou como Diana. Os cabelos curtos e as roupas largas lhe emprestam a aparência de um menino. Isso serve para protege-la da selvageria da rua.
O menor, disse se chamar Luã, mas, segundo o próprio, todo mundo chama ele de “Neguinho”. Perguntei se ele fumava todo dia e a resposta foi surpreendente. ”Não existe mais esse negócio de dia pra nós. Ficamos acordados uns cinco depois dormimos uns dois direto. Cachimbamos e roubamos o tempo todo”.
Quis saber qual era o barato da pedra, o que eles sentiam e por que faziam isso. “Isso ai vc só vai saber se fumar com nóis” completou o mais velho que não quis dizer o nome. “Existem duas cracolândias. A primeira começa as oito da manhã e termina as seis da tarde, quando fecham as lojas. Quando escurece isso aqui vira terra de ninguém. Os fantasmas saem das tumbas”. emendou.
Saquei a câmera e pedi pra fotografar. Taparam o rosto com medo de serem identificados pelas vitimas de seus assaltos e se deixaram registrar enquanto acendiam seus cachimbos. Estava escuro e a luz do isqueiro banhou de dourado o rosto deles. Fiz as fotos e me despedi. Me pediram dinheiro mas disse que não tinha. Era verdade. O menor insistiu. Achei melhor sair dali. Enquanto estive lá passaram duas viaturas, uma da PM e uma da Civil. Ambas ignoraram os moleques que nem se preocuparam em esconder o cachimbo. O dia de roubos deve ter sido bom, pois tinham muita pedra pra fumar. Me deixaram ir.
Fui embora com a cabeça e a adrenalina a milhão. O que fazer pra acabar com essa merda que destroi a vida de milhares de moleques nas ruas de São Paulo, e motiva todos os dias centenas de assaltos nos faróis?
Eu não sei o que fazer, os governantes não sabem, mas o PCC e o CV, esses sim sabem muito bem. Talvez contrata-los para uma consultoria?