27/09/07

COPERIFA



LADO A LADO SEMPRE

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19/09/07

ENFIM, BUDAPESTE




O vôo 879 da companhia húngara Malev Airlines deixou Zurique sem atraso naquele sábado de junho em que o Brasil venceu a Alemanha por 3x1 na semifinal da Copa das Confederações.
Na segunda fileira da classe executiva, poltrona 2A, um passageiro lia atentamente o jornal húngaro Szép Szó e preenchia com cuidado as palavras cruzadas impressas no caderno cultural. Com dificuldade, consultava a cada instante um livro verde de capa dura sobre a mesinha da aeronave. O passageiro era Chico Buarque de Hollanda - considerado o brasileiro do século pelo jornal francês Le Monde -, prestes a aterrissar pela primeira vez em Budapeste, cidade de dois milhões de habitantes que, apesar de nunca ter sido visitada por ele, inspirou-o e deu nome a seu último romance, publicado em 2003. O livro verde de capa dura ao lado do jornal era um dicionário húngaro-inglês e começava ali a viagem do autor - assim como seu protagonista, o escritor José Costa -, não apenas por Budapeste, mas também pela língua húngara que, segundo seu livro, de tão complexa é a única que o Diabo respeita.
O primeiro contato com o povo húngaro deu-se ainda no avião. A aeromoça da Malev, linda, loura e de nome Érika servia os passageiros. Chico pediu: “Et wiz kera” (“Uma água, por favor”). “Mineral water?” Respondeu a aeromoça em inglês, com sotaque carregado nos “erres”, típico do leste europeu, para a decepção do compositor empenhadíssimo no aprendizado do húngaro. “Acho que ela é estrangeira. Perguntei em húngaro e ela respondeu em inglês”, disse Chico brincando.
Evoluindo lentamente nas palavras cruzadas, Chico demonstrava certa ansiedade que ficava mais clara à medida em que o vôo chegava ao fim. “É estranho. Fiquei muito tempo, dois anos, me imaginando nessa cidade. Quero ver quando pisar lá o que vai acontecer”. Ainda no aeroporto, ao ouvir um comentário de que a cidade mais bonita do leste europeu seria Praga, na República Tcheca, Chico defendeu Budapeste: “Há controvérsias”, afirmou, deixando clara sua predileção pela cidade que surgia naquele momento para seus olhos.
Apesar da arquitetura gótica do Parlamento, do castelo de Buda, das pontes iluminadas sobre o Danúbio e da riqueza cultural de Budapeste, o grande choque ao chegar à cidade é o idioma. Cheio de consoantes e com pausas imperceptíveis ao ouvido desacostumado, o húngaro não tem semelhança com qualquer outra língua do planeta. “O livro é sobre a cidade, mas também é muito sobre o idioma” afirmou Chico ainda no aeroporto. Para se ter uma vaga idéia da complexidade do húngaro, a palavra “tchau” é “Viszontlátásra” e um simples “oi” vira “Jó Napot Kivánók”.
Chico está em Budapeste para as gravações do programa UMA PALAVRA, que tem como tema sua obra literária e faz parte da série CHICO BUARQUE, que vem sendo exibida pela Directv e Band. Em sua chegada à cidade, jantou um prato típico húngaro feito com salsichas e batatas em um restaurante próximo ao Danúbio. Despediu-se e saiu sozinho, caminhando rápido com seu sotaque paulista nos pés pelas ruas de Budapeste. “Andei um pouco pela paisagem do livro”, admitiu no dia seguinte no hotel quando voltava de um banho nas famosas termas húngaras.
Chico Buarque literalmente desbravou Budapeste. Uma de suas descobertas foi a “Estátua do Escritor Anônimo” no Városliget (Parque da Cidade). A estátua representa um historiador que trabalhava como escriba para o rei Bélla III no final do século XII e prestava-lhe anonimamente serviços literários. Foi ele quem escreveu Gesta Hungarorum (História dos Húngaros) um dos mais importantes livros de história da Hungria e sua identidade jamais foi descoberta. No romance Budapeste, José Costa, o personagem principal do livro, assim como o “escritor anônimo”, é um ghost-writer e escreve textos para que outros assinem. No final da viagem, Chico afirmou que ao livro não cabem modificações em edições futuras, mas essa estátua seria talvez a única coisa que ele poderia acrescentar após conhecer a Budapeste real.
Outra descoberta de Chico, com a ajuda do tradutor de seu livro para o húngaro, foi que a rua em que morava a personagem Kriska, inventada pelo autor e batizada de Rua Toth, em homenagem ao atacante da seleção húngara de 1954, realmente existe. Chico foi até lá conferir e ficou surpreso ao perceber que existia uma estação de metrô bem perto dela, exatamente como descreveu no livro. “Quando estou andando pela cidade parece que eu estou dentro do livro” confessou Chico. “Chegando aqui pude confirmar que algumas coisas que eu tinha escrito com base em pesquisas estavam erradas, como, por exemplo, o cigarro da marca Fecske com a andorinha impressa no maço, que não existe a mais de vinte anos, ou o jornal onde meu protagonista publica um anúncio num domingo e que não sai aos domingos. Por outro lado coisas que eu tinha inventado são reais, como a Rua Toth em que Kriska morava. A intuição também funciona muito.” afirmou o escritor. “Um jornalista húngaro que me entrevistou disse que, lendo o livro, teve a impressão de que eu conhecia profundamente a cidade, então ele virava a página e descobria que eu não conhecia nada. Era essa mesmo a idéia.” completou Chico.
Vem do futebol a principal referência da Hungria para Chico: “A seleção de 54 foi o grande momento do futebol húngaro. Naquele tempo falar em Puskas, Kocsis, Hidegkuti, era como falar hoje de Ronaldo e Pelé. Quem gostava de futebol sabia escalar a seleção da Hungria”. Foram os jogadores deste time que deram os nomes aos personagens húngaros, nomes de ruas e outras referências do livro de Chico.
Na periferia de Budapeste houve um pequeno torneio de futebol de campo entre o time da embaixada brasileira, reforçado por Chico Buarque e seu empresário Vinicius França, contra equipes formadas por ex-jogadores profissionais húngaros, alguns deles com passagem pela seleção local. Os brasileiros jogaram duas vezes e venceram ambas com facilidade, por 2x1 e 4x2. Chico não fez gol mas jogou bem e deu boas assistências para os gols de Vinicius.
A cada dia era notável a evolução do húngaro de Chico. Frases inteiras começavam a sair e eram pronunciadas com mais eloqüência pelo compositor. Pequenos diálogos já podiam ser travados no hotel e nos restaurantes. Chico chegou a autografar em húngaro um exemplar de seu livro. O curioso é que a edição húngara de Budapeste em algumas livrarias era colocada na mesma prateleira que guias turísticos e mapas da cidade, todas com o mesmo titulo: Budapest.
“Escrever sobre uma cidade que você não conhece é um pouco como escrever sobre outros tempos. Quanta literatura já não foi escrita em tempos remotos ou futuros, ficção científica e tal. Chegar aqui em Budapeste é como se eu pudesse chegar no Brasil da invasão holandesa, como na peça Calabar, que escrevi com o Ruy Guerra, que se passa em 1631. É claro que qualquer peça ou romance histórico é feito com base em pesquisas, mas deve ter muito desacerto, muita coisa que não pode conferir com a realidade. Chegar a Budapeste é como se eu pudesse viajar no tempo”.
Devido a suas pesquisas, Chico sabia bem o que o esperava em Budapeste. “Eu já conhecia muita coisa por fotos e também li bastante, conhecia a cor da cidade e tudo mais. O que pode ter me surpreendido são os perfumes de Budapeste. Talvez eu não soubesse como explicar isso no livro. Há muitos jasmins e outras flores que não conheço. Eu sabia da existência dos parques, mas não de seus cheiros”.
“Ao lado da estranheza inicial, me senti como se de fato conhecesse Budapeste. Me senti a vontade aqui” disse Chico Buarque, momentos antes de despedir-se e embarcar para Paris, local onde ele afirma que encontra a paz necessária para trabalhar.

12/09/07

SEXPRESS


De volta a São Paulo depois de 30 dias viajando por Jamaica, México e Brasil. Estava trabalhando como cinegrafista do documentário SEXPRESS II, uma parceria entre as MTVs Brasil, Latino e Tempo e apoio da Unicef, dirigido por Mauro Dahmer e com produção de Sonya Wells. Foi uma das viagens mais locas da minha vida e parte delas pode ser conferida nos dois posts abaixo.

08/09/07

PASA-PASA





Já fazia vários quarteirões que eu não via mais nenhum branco nas ruas de Tivoli, periferia de Kingston na Jamaica. Feriado em qualquer quebrada do mundo significa rua cheia, e aqui não poderia ser diferente. Periferia é parecida em qualquer lugar. Pequenos comércios, imagens do imperdor etíope Halie Selassie entre casas construídas com pedaços de outdoors e arame farpado. Poderia ser São Paulo, Soweto, Caracas ou Bogotá, mas é Kingston. Ruas de terra alternadas com as de asfalto esburacado. As cores da bandeira da Etiópia, vermelho, amarelo e verde nas roupas e paredes. “Se você estiver usando essas cores, nada de ruim te acontece” me garantiu um rastaman com dreads na altura do joelho.
Nessa gincana maluca que tem sido a minha vida, a missão do dia era registrar o lendário baile “pasa-pasa” e a dança em que os jamaicanos simulam sexo nas pista. Estou trabalhando como cinegrafista de um documentário pra MTV, carrego nas costas todo equipo de vídeo e áudio, mas deixo a câmera fotográfica sempre por perto.
Ao chegar devemos procurar o patrão local, um cara chamado Justin que estaria nos esperando. É ele quem manda aqui e dizem que ninguém é louco de desobedece-lo.
Não existe branco na Jamaica. Na verdade existem mas não passam de meia-dúzia. A ilha que já pertenceu a espanhóis e ingleses foi as urnas ontem para eleger seus próximos governantes e eleições deixam o clima tenso em qualquer lugar. A vitória apertada do partido JLP quebrou uma hegemonia de 20 anos do seu principal concorrente, o PNP. Os dois partidos são a mesma merda, corruptos até o osso, negociam votos por 3 dólares na favela e cagam para o povo mas são idolatrados nas ruas como os times de futebol. Criminalidade comum se mistura com política. Tivoli é área do JLP, o patrão mandou avisar que todos tem que estar felizes com a vitória. E todos realmente estão.
Estacionamos a poucos metros da festa. De longe lembrava um baile funk carioca. Paredes de caixa de som e DJs numa rua de favela. Mais de perto vi cerca de trezentas pessoas que dançavam entre os carros que continuavam passando. Ao invés de atoladinha, dance hall de prima com pitadas de hip hop e reggae culture. Música boa e roupas apertadas nas mulheres que desfilavam sobre o asfalto seus cabelos exóticos, roupas coloridas, dread locks, tranças e cultura rastafári. O DJ anuncia a musica “Afrikan Queen”. Nada mais apropriado para o momento.
O perfume doce de maconha boa é onipresente e rastamans caminham vendendo verdadeiros buquês de Ganja, seda e isqueiro. Na Jamaica não se divide baseado. Cada um enrola, acende e fuma o seu próprio beque. Apesar de proibido por lei, fumar maconha é cultural aqui, um ritual religioso para os rástafaris e todos fumam livremente nas ruas.
O baile começa às quatro da manhã e vai até o meio-dia. Fui chegando devagar e logo na entrada tomei um enquadro de dois caras estilo gangsta, com roupas largas e correntes de ouro. Conversamos e eu disse que estava autorizado pelo Justin. O nome de um dos caras que me enquadrou era Dylan e era ele quem estava pilotando a quebrada na ausência do Justin. Disse que não ia autorizar gravação nenhuma antes de falar com o próprio, e o feladaputa do Justin tinha sumido com uma mina.
Senti um aperto indescritível no coração por estar naquele lugar sensacional e não poder gravar. O baile acontece todas quarta-feira mas vou embora domingo. Era a única chance. Tentamos tudo, mas o cara estava irredutível: não íamos gravar e pronto.
Num reflexo, atordoando Dylan de tanto insistir, dei a ultima e despretensiosa cartada. “E fotografar, pode?” perguntei. “Fotografar tudo bem” respondeu ele pra minha surpresa me trazendo de volta ao rosto o sorriso. A única condição era fotografar só um dos lados da rua. Pra quem não tinha nada, aquela proposta parecia sensacional.
Finalmente entrei no baile. Dei dois tapas num baseadão que passou pela minha frente comecei a clicar. Parecia uma maquina do tempo. Me senti nos anos 70. Lembrei dos Racionais, dos negros reunidos no viaduto do Chá em São Paulo, da “Chic Show” e “Clube da Cidade”. Era a mesma vibe, vários negros dançando muito, roupas incríveis, calças boca de sino, cabelo black e plataformas misturadas com correntes pulseiras anéis e relógios no melhor estilo “50 cent” que davam um toque de modernidade àquele flashback. Música boa rolando, maconha a vontade, mulheres bonitas e todo mundo feliz numa espécie de Jardim do Éden negro.
O dia amanhece. Quanto mais claro mais gente dança. Parecia que esperavam o primeiro raio de sol para se soltarem. Duas meninas atravessam a rua e finalmente começam a dança erótica que tornou o “pasa-pasa” famoso no mundo. Mulheres enlouquecidas dançavam com a mão na buceta como se estivessem se masturbando. Formavam pares e simulavam posições sexuais. Tudo feito com movimentos rápidos e bem ensaiados. Gritos de tesão são permitidos e estimulados. O DJ grita palavras de ordem em “patuá” dialeto local que se mistura com o inglês o tempo todo. É o ápice da festa.
A dança não tem um nome, tem vários. “Hot Fuck” é um dos mais conhecidos. É literalmente a “dança do acasalamento” jamaicano. Sexo com roupas. Mais precisamente uma orgia devido a quantidade de pessoas envolvidas. Mulheres trocam de parceiro simulando um gang bang. Sorrisos brotam nos rostos negros enquanto dançam. Todos parecem estar se divertindo muito com aquilo.
Apesar da aparente promiscuidade, os jamaicanos encaram isso apenas como uma dança. No final da noite cada um vai pra sua casa. Não vi beijos, amassos nem nada entre os dançarinos depois da festa. Dizem que dentro de cada Jamaicano existem duas pessoas, um pervertido e um puritano. Enquanto eles simulam sexo nas festas, o homossexualismo é proibido pela constituição e quase toda a população é favorável a manutenção dessa lei. Jamaicano fala alto, gosta de armas, buzina no transito até pra ficar parado e quando conversam em patuá/inglês parecem estar sempre brigando.
A Jamaica é um lugar bem louco, uma ilha negra de doidos, vibrante, cheia de cultura e pobreza. Cultura própria que vem sendo engolida pela norte-americana através de seus canais a cabo. Pobreza cada vez maior e mais escondida dos turistas que chegam e vão direto para os resorts e spas cinco estrelas sem se dar conta do tanto que poderiam aprender com uma simples caminhada pelas ruas nervosas de Kingston.