29/06/07

NASCEU O DIABO EM SP



No dia 10 maio de 1975, a redação do Notícias Populares estava calma demais. Faltavam notícias para encher as páginas com os tradicionais absurdos que o saudoso diário publicava pra deixar o povo um pouco mais feliz. Fuçaram nas matérias rejeitadas da semana e acharam uma de Marco Antonio Montadon, sobre uma criança que havia nascido com estranhas deformidades no ABC paulista.
No local, o jornalista apurou que a criança nascera com um prolongamento no cóccix e duas saliências na testa, problemas simples que foram resolvidos com uma pequena cirurgia feita na própria maternidade. A matéria, de tão fraca nem foi publicada. Na falta de assunto daquele dia, o repórter requentou a pauta e resolveu fazer uma crônica de horror baseada na história. Como ninguém no hospital quis dar entrevistas, ele não pensou duas vezes antes de inventar a história que ficou conhecida como a mais bizarra do jornalismo brasileiro, que marcou uma época e alavancou a venda do jornal por quase 30 dias seguidos.
Reproduzo abaixo a sensacional seqüência de manchetes até o desfecho da maior e mais divertida cascata do Notícias Populares. Em seguida, emendo a matéria original que deu origem a saga. (Destaque para a manchete de 24.05: O BEBE DIABO PAROU TAXI NA AVENIDA em que, segundo o jornal, o capetinha entrou no carro e ao ser questionado pelo taxista sobre qual seria o destino da corrida teria emendado: "Toca para o inferno")


11/5 - NASCEU O DIABO EM SÃO PAULO
12/5 - BEBÊ-DIABO DESAPARECE
13/5 - FEITICEIRO IRÁ AO ABC EXPULSAR O BEBÊ-DIABO
14/5 - BEBÊ-DIABO DO ABC PESA 5 QUILOS
15/5 - BEBÊ-DIABO INFERNIZA O PADRE DO ABC
16/5 - NÓS VIMOS O BEBÊ-DIABO
17/5 - POVO VAI VER O BEBÊ-DIABO
18/5 - PROCISSÃO EXPULSARÁ BEBÊ-DIABO
19/5 - VIU BEBÊ-DIABO E FICOU LOUCA
20/5 - SANTO PREVIU O BEBÊ-DIABO
21/5 - BEBÊ-DIABO NOS TELHADOS DAS CASAS DO ABC
22/5 - MÉDICO AFIRMA: O BEBÊ-DIABO NASCEU NO ABC
23/5 - DIABO EXPLODE MUNDO EM 1981
24/5 - BEBÊ-DIABO PAROU TÁXI NA AVENIDA
25/5 - FAZENDEIRO É O PAI DO BEBÊ-DIABO
26/5 - BEBÊ-DIABO VIAJA PARA VER O PAI
27/5 - BEBÊ-DIABO APARECE NO LUGAR DO ECLIPSE
28/5 - MAIS 7 VIRAM O BEBÊ-DIABO
29/5 - BISPO MORRE DE MEDO DO BEBÊ-DIABO
30/5 - BEBÊ-DIABO ARRASA COM RITUAL DE UMBANDISTA
31/5 - FANÁTICOS AMEAÇAM BEBÊ-DIABO DO ABC
01/6 - SEQÜESTRADO BEBÊ-DIABO
02/6 - BEBÊ-DIABO À MORTE
03/6 - BEBÊ-DIABO FOGE PARA O NORDESTE
04/6 - PADRE DE MARÍLIA: ‘EU ACREDITO NO BEBÊ-DIABO DO ABC’
05/6 - ZÉ DO CAIXÃO VAI CAÇAR BEBÊ-DIABO NO NORDESTE
08/6 - POVO VÊ DE NOVO BEBÊ-DIABO DO ABC


NASCEU O DIABO EM SAO PAULO

Durante um parto incrivelmente fantástico e cheio de mistérios, correria e pânico por parte de enfermeiros e médicos, uma senhora deu a luz num hospital de São Bernardo do Campo, a uma estranha criatura, com aparência sobrenaturais, que tem todas as características do Diabo, em carne e osso. O bebêzinho, que já nasceu falando e ameaçou sua mãe de morte, tem o corpo totalmente cheio de pelos, dois chifres pontiagudos na cabeça e um rabo de aproximadamente cinco centimetros, além do olhar feroz, que causa medo e arrepios. Parece que tudo começou na Semana Santa, quando o marido da mulher, que é muito religioso, convidou-a para ir à igreja, ver a procissão. A mulher grávida, bateu com as mãos na barriga e respondeu indignada:
– Não vou, enquanto este diabo aqui não nascer.
E foi o que realmente aconteceu. A mulher acabou tendo como filho um monstrinho horripilante, peludo, que ao falar, mais parece que está mugindo.
Inicialmente, há quinze dias, quando os boatos começaram a surgir, poucos acreditavam na história absurda do nascimento do capeta em São Paulo, mas pouco a pouco, os comentários aumentaram e agora, principalmente em São Bernardo do Campo e cidades do ABC, ninguém mais duvida da existência do monstrinho diabólico.
Entretanto, segundo as autoridades médicas, não foi registrado nas últimas semanas nenhum nascimento de alguma criança com problemas congênitos ou anomalias pavorosas. Mesmo assim, até telefonemas de Brasília e outras cidades, estão chegando em São Bernardo, de pessoas que perguntam como o Diabo é, o que que ele come e como é sua aparência,
tudo logicamente, desmentido pelos funcionários.
O Hospital São Bernardo, onde se acredita que o Diabo esteja escondido, encontra-se em fase de construção, sendo que a maioria de seus pacientes, é do INPS.
O médico Fausto Figueira Mello Júnior, que ao lado de 12 colegas o dirige, afirmou que dos 15 partos diários, todos são praticamente normais: – Aqui não nasceu nenhum diabinho.
Por outro lado, o diretor administrativo, Roberto Saad, é de opinião que tudo isto não passa de uma piada de mal gosto contra o hospital. Parece porém que, o crescimento do boato e a credulidade de algumas pessoas chegaram a preocupar o secretário da Promoção Social, Enzo Ferrari. Ele, após percorrer todos os hospitais daquela cidade, distribuiu uma nota oficial, desmentindo o boato, dizendo que em São Bernardo do Campo não existe nenhum bebê-monstro.
Entretanto, a própria preocupação do secretário aumentou em algumas pessoas a crença de que o Diabo existe e está disposto a fazer cumprir as profecias satânicas, aumentando o mal na Terra.
– E os primeiros a serem atingidos serão os moradores de São Bernardo do Campo, disse uma senhora, fazendo o Padre-Nosso, defronte o Hospital São Bernardo, onde se encontrava com os olhos demonstrando
muito medo.
Assim, aquela que de início era uma estranha e absurda história, agora tomou corpo e chega a preocupar as autoridades daquele município.
Os telefonemas continuam, nas esquinas e nos bares o assunto é só sobre o capetinha e muitos insistem que os responsáveis pelo hospital onde ele nasceu, deveriam colocá-lo em exposição, para que todos vissem o bebê que fala, tem chifres e um bonito rabo de cinco centímetros.

27/06/07

OS PORCOS COM CARA DE GENTE

O ano era 1986 e o lendário José Luis da Conceição um dos principais fotógrafos do extinto jornal Notícias Populares.
Numa tarde calma na redação, chegou por telefone a notícia de que em Itaquera, três porquinhos haviam nascido com feições humanas. Isso era um prato cheio para o jornal, que vendia feito água quando publicava esse tipo de bizarrice.
Zé Miguel, um dos motoristas mais antigos da empresa foi designado para leva-lo até lá. Estava eufórico pois estreava seu carro novo, um Passat 86, último tipo, ainda com os bancos forrados de plástico, que segundo ele de tão possante chegaria até no inferno, caso fosse preciso.
Em Itaquera, uma íngreme rua esburacada de terra levou-os até a casa, onde uma multidão se acotovelava na porta tentando ver os suínos com cara de gente. Zé Miguel gabou-se ao perceber a facilidade com que o carrão subiu aquela ladeira.
Conceição desembarcou e entrou na casa perguntando pelos porcos. Foi recebido pelo dono, um homem alto, sujo de terra, sem camisa, vestindo um bermuda apertada e com uma enorme barriga flácida saltando para fora, que contou que os porquinhos haviam sido mortos pela mãe.
Alegando que o mundo precisava conhecer aquela história triste, Conceição gentilmente convenceu o dono do chiqueiro a segurar os porcos mortos na mão para que ele os fotografasse. O dono orgulhoso, obedeceu e levantou-os, dois na mão esquerda e um na mão direita deixando seu rosto entre os três porquinhos mortos.
Enquanto fotografava, Conceição ouviu um grito vindo do corredor:”Esse filho-da-puta vai por no jornal que meu tio é o pai dos porcos” disse o sobrinho do dono do chiqueiro enquanto corria para cima do fotógrafo com um facão enferrujado na mão.
Antes de fugir, só deu tempo do Conceição perceber que realmente o dono era muito parecido com os porquinhos e que aquilo daria uma manchete incrível para o Notícias Populares do dia seguinte.
A correria foi geral. A multidão na porta da casa gritava de “lincha!” e “vai morrer!” enquanto dava tapas e chutes no fotografo.
Quando finalmente chegou perto do carro, Conceição viu o Zé Miguel desesperado, vendo a multidão tentar virar de cabeça para baixo seu Passat 0km, que havia saído naquela manhã da concessionária. O fotógrafo entrou no carro clicando enquanto choviam pedras e pedaços de pau no capô e nos vidros do carro deixando-o completamente destruído.
No dia seguinte, a capa do NP pendurada em todas as bancas contando a saga dos porquinhos com cara de gente arrancava sorrisos dos que passavam pela rua, mas o Zé Miguel, que não tinha seguro do Passat, nunca mais perdoou o Conceição.

22/06/07

PINTARAM TUDO DE CINZA





Depois de passar um mês na Escócia grafitando um castelo medieval construído no ano de 1200, os irmãos Gustavo e Otávio Pandolfo, 33, conhecidos como Osgemeos e Karina Arcênio, Pandolfo, 30, a Nina, desembarcaram em São Paulo no sábado a tarde e sofreram um choque de realidade. A prefeitura da cidade que durante toda a vida foi para eles uma enorme tela em branco, onde desenvolveram o estilo que os levou para as principais galerias de arte de cidades como Nova York, Tóquio, Atenas, Paris, Milão, Berlin e Londres, hoje pinta de cinza sistematicamente os muros públicos grafitados pela dupla.
No domingo passado, ainda sob efeito do fuso-horário, Osgemeos e Nina juntaram-se a Ise e Coyo para grafitar muros da cidade como fazem desde 1987 quando deram seus primeiros passos na pintura de rua.
Nas pilastras do viaduto Antártica, na zona oeste, Osgemeos, desenharam uma série de cinco bonecos, Nina fez duas meninas com os cabelos ao vento enquanto Ise e Coyo escreveram seus nomes em letras estilizadas.
Os desenhos duraram menos de 16 horas na parede. Nem bem a tinta secou e na manhã seguinte funcionários da prefeitura pintaram as pilastras com tinta branca como fazem toda vez que um novo grafite aparece por lá. Este foi o sétimo grafite dos irmãos apagado pela prefeitura no mesmo local em quatro meses.
O secretário da coordenação das Subprefeituras de São Paulo Andréa Matarazzo, nega a perseguição aos grafites. "Não existe nenhuma política ou iniciativa nossa para cobertura de grafites, o que há é uma rotina de limpeza da cidade. Os muros e viadutos são pintados apenas quando estão muito sujos ou quando a população reclama”.
O grafiteiro Ise, porém, discorda “A gente sabe que grafite é uma coisa efêmera, mas uma coisa é ser apagado naturalmente e outra é uma campanha pública anti-grafite como vem claramente acontecendo” reclama.
Outros grafiteiros engrossam o coro dos descontentes. Finok, 21, teve tantas obras apagadas que pensou em parar de pintar na rua. “A prefeitura deveria gastar esse dinheiro com coisas mais importantes como saúde e educação” ataca.
Em reação aos muros apagados, alguns grafiteiros escreveram junto a seus desenhos frases de protesto contra o prefeito. Em uma parede da Vila Mariana, Iaco escreveu: “Prefeito Vagabundo”, enquanto perto dali um outro desenho simbolizava uma manifestação com faixas onde lia-se “Kassa ao Kassab”.
Um dos sócios da galeria Choque Cultural, Baixo Rodrigues, 41, considera “censura artística” a ação da prefeitura e acredita que o governo municipal não tem noção do valor artístico e nem monetário das obras que apagam. “ O valor dos artistas é dado pelo mercado, pelos museus, e os grafiteiros brasileiros são considerados no mercado internacional como alguns dos melhores do mundo. Esses grafites que estão sendo apagados são uma doação do artista para a cidade e tem que ser tratados como patrimônio artístico”. O secretário Andréa Matarazzo confirma a desinformação: "Não sabemos o valor do grafite, nem imagino que ninguém na prefeitura saiba”.
O prefeito Gilberto Kassab deve sancionar em breve o projeto de lei aprovado pela câmara municipal que institui o programa anti-pichação, que coloca no mesmo patamar e permite que a prefeitura apague, mesmo em imóveis particulares, grafites e pichações. “Não existe definição mesmo entre o que é grafite e o que é pichação no projeto de lei. Eu acredito que pichação são aqueles rabiscos ou hieróglifos. O grafite tem uma forma, um desenho e não degradam tanto o ambiente" completa o secretário.
Enquanto a prefeitura apaga, outros contratam os mesmos artistas a peso de ouro. A escocesa Alice Boyle, filha do Lord de Glasgow Patrick Boyle, que convidou Osgemeos, Nunca e Nina para grafitarem o castelo medieval de sua família em Kelburn (checar), na Escócia, diz que qualquer cidade da Europa adoraria ter em suas paredes desenhos de artistas como eles. “É um privilégio você poder andar na rua e ver trabalhos com tanta qualidade. O povo não precisa ir as galerias para poder apreciar desenhos tão bonitos. Sempre ouvi falar dos grafites de São Paulo e acho que pintando-os de cinza o prefeito está impedindo uma ótima oportunidade de turismo para a cidade”.
No ano passado, os grafiteiros brasileiros Kaboco, Speto, Titi Freak, Onesto, Boleta, Zezão, Highgraff e Fefe Talavera, ligados a galeria Choque Cultural expuseram na Jonathan Levine Gallery em Nova York o projeto “Ruas de São Paulo: A Survey of Brazilian Street Art”. Na galeria Fortes Vilaça em São Paulo, todas as obras foram vendidas na exposicão de Os gêmeos, que foi visitada por mais de 30 mil pessoas e formou filas que dobraram a esquina, batendo o recorde de visitação da galeria de arte.
As palavras do secretario Andréa Matarazzo, porém, vão na contra-mão do mercado. "Grafite que degrada o ambiente são dos da 23 de maio, por exemplo. Não combinam porque os viadutos tem uma cor, um jardim e isso interfere na paisagem. Os que não degradam tanto são os que estão nos pilares da Amaral Gurgel, por exemplo no Minhocão” diz ele sem especificar os critérios utilizados para essa diferenciação. "Agora, eles precisam saber que nem todo mundo precisa gostar desse tipo de arte e um cidadão pode não querer ter seu muro grafitado. É como alguém que não gosta de quadros em casa" completa o seretário.
Apesar das dificuldades, os grafiteiros seguem pintando nas ruas. “Desde que começamos a pintar, a prefeitura de São Paulo sempre apoiou o grafite. Graças a essa liberdade, conseguimos desenvolver nosso estilo, e pudemos viajar o mundo mostrando essa arte que foi criada nas paredes de paulistanas. Por mais que nossos trabalhos estejam nas galerias, nunca vamos desistir de pintar na rua. Essa é a verdadeira essência do grafite, e por mais que o novo prefeito apague, não vamos parar de mostrar para o povo de São Paulo nossa arte” dizem em coro irmãos Osgemeos.

14/06/07

PANORAMA





Em poucos lugares dessa cidade desigual, o contraste entre riqueza e pobreza é tão visível quanto no Jardim Panorama. Essa pequena favela está encravada na beira do rio Pinheiros desde 1960 quando os engenheiros que construíram a Marginal ainda estavam no ginásio e tudo o que se via em volta era mato, bicho e lama.
Dona Maria Gomes, 65, uma das moradoras mais antigas da área, conta que pescava lambari para o almoço no hoje podre Rio Pinheiros e que seus filhos nadavam e brincavam entre capivaras e preás. "Toda essa rua ai era uma horta que eu tinha. As pessoas chegavam do norte passando dificuldade e eu fui dando um pedacinho da horta pra cada um até acabar. Hoje só sobraram os barracos" conta.
O tempo passou, o progresso chegou e grandes empresas cercaram o lugarejo. Prédios gigantes e modernos subiram rapidamente. Marcas famosas como Microsoft, Sul América, Nestle, Hilton, Mapfre, Terra e tantas outras pipocaram no alto dos arranha-céus enquanto a favela continuava ali, do mesmo jeito que sempre esteve.
Quarenta anos depois, o lugar que dona Maria escolheu para morar com o marido vai desaparecer.
Por volta das seis da manhã desta quarta-feira outra Maria, conhecida como das Neves, acordou com o barulho de marretadas na parede do seu barraco. O Shopping Cidade Jardim, mais novo empreendimento milionário vizinho à favela, está pagando quarenta mil reais para que os moradores deixem suas casas para que sejam demolidas.
Rico não gosta nem confia em pobre. O caminhão de mudança encosta de manhã em frente ao barraco, todos os móveis são colocados dentro dele e um grupo com marretas começa derrubar a casa em que moravam. Só então eles recebem o cheque com o dinheiro da indenização para que saiam andando sem olhar pra trás.
Grande parte dos moradores parece feliz com a mudança. Trocam um terreno invadido e sem documentos por um cheque que dá pra comprar uma casinha na quebrada, bem mais longe, mas com escritura no nome. Outros não gostaram tanto das mudanças, como o rapper Pablo, 19, que preferia ver o local urbanizado, as ruas asfaltadas, melhorias no sistema de esgoto, uma quadra e uma escola municipal na quebrada. “São tantos anos morando aqui que já temos o direito ao uso-capião“ afirma.
Mas ninguém pode contra o dinheiro. Muito menos quem não tem nenhum. O Shopping Cidade Jardim comprou o terreno onde a favela está instalada e, segundo sua assessoria de imprensa, eles estão sendo muito generosos ao indenizar os favelados, já que por serem donos da terra poderiam simplesmente pedir a reintegração de posse e expulsá-los dali embaixo de porrada, bala de borracha e bomba de gás. Me comoveu a bondade deles. Será que essas empresas gostariam de ver seu nome nos jornais associado a um massacre da policia pra cima de moradores que viviam ali desde a década de 60? Rico pensa com a calculadora e não com o cérebro. Ficou mais barato indenizar.
O lugar que ninguém queria quando a favela chegou virou área nobre, com vista para a Berrini, a Daslu e o Morumbi. O Jardim Panorama é a última favela que restou na região e agora vai desaparecer do mapa. Os ricos que vivem e trabalham por ali ficarão felizes, porque não vão mais ver da janela de seus escritórios aquela favela que tanto incomodava. Os milionários jogarão os favelados para onde seus olhos não alcançam, mas isso não impede que um dia qualquer no futuro, eles voltem encontra-los, com um uniforme de faxineiro e uma vassoura na mão ou uma pistola semi-automática engatilhada e apontada para sua testa.

10/06/07

CLANDESTINO




Nas quebradas mais nervosas de São Paulo ninguém tem internet. As rádios piratas se transformaram no blog dos pobres. O som rachado do bom e velho radinho de pilha é onipresente nos bares, barracos, mercados, cadeias, puteiros e igrejas espalhadas por vielas e ruas de terra da perifa.
Numa casa simples com um boteco em baixo e vários quartos em cima, moram filho, mãe, pai, avó e uma pá de crianças. Tem também uns cachorros, uns passarinhos na gaiola, um retrato de Jesus na parede e um São Jorge no corredor.
No quarto do fundo, uma porta com a pintura descascada dá acesso a um pequeno estúdio de som. Ao atravessar aquela porta, entramos em um universo paralelo, onde sentado a frente de um microfone, uma mesa de som, um computador, um transmissor e um microfone enjoado, Thomas* inicia todos os dias as transmissões da sua rádio pirata mandando para os quatro cantos da cidade, seu recado, suas musicas favoritas e disparando feito metralhadora giratória suas idéias contra tudo e todos que lhe incomodam.
A chapa anda quente no morro. Nos últimos dias a Policia Federal e a Anatel vieram babando pra cima das rádios piratas depois que o aeroporto de São Paulo teve que ser fechado por causa de interferência na freqüência dos aviões. Fecharam mais de 100 desde o começo do ano e todo mundo que tem rádio, comunitária, clandestina, ilegal, ou pirata mesmo, suspendeu provisoriamente as transmissões com medo de ser rastreado e preso.
Thomas* não se preocupa. Manteve a rádio no ar e ainda me deu uma puta entrevista (sai na Revista da Folha deste domingo 10.06.07).
“Comunitário é o caralho, sou revolucionário” afirmou o clandestino-mor do dial, me dando de bandeja o titulo da matéria.
Ele não pleiteia a legalização, e parece confortável com a clandestinidade. Diz que pra conseguir uma concessão oficial, só mesmo ganhando duas vezes seguidas na Mega-Sena ou então se elegendo deputado federal. A maioria das concessões de freqüências de rádios pertencem a políticos. Muitos deles acumulam sozinhos dezenas delas. A troca de favores entre politicos é a moeda corrente em Brasília e essas concessões valem muito nessa hora.
Thomas* foi DJ por muitos anos e alia a seu conhecimento musical à experiência de quem cresceu em um dos bairros mais violentos da cidade pra tocar e falar exatamente o que a molecada gosta de ouvir. A audiência é alta. Todo mundo conhece a emissora e pira na programação. É a única que fala a língua deles e toca só o que gostam, sem enlatados ou jabá. Na rádio dele só toca Black Music de primeira. Enquanto estive lá, ouvi de Tim Maia a Marvin Gaye, passando por Lauryn Hill, Tupac, Racionais e Cassiano.
“Minha rádio é melhor que qualquer rádio grande, bato de frente eles. Os caras ficam putos porque tiro uma pá de ouvintes deles. Mas é isso o que eu quero. As oficiais pagam propina pra policia vir me tirar do ar, só que ninguém me encontra. Faço o bagulho bem feito” diz com a experiência de quem surfa os limites da pirataria desde muito tempo.
Seus transmissores são potentes. Ele os esconde no mato, bem longe de onde mora. “Se me rastrearem e chegarem no transmissor vão prender quem? Só se forem algemar os macacos” espeta.
Thomas sabe que transmissores vagabundos, feitos em fundo de quintal podem interferir em outras freqüências, mas duvida que essa tenha sido a causa do fechamento do aeroporto. “Os caras tem umas duzentas freqüências. Deu interferência em uma passa pra outra. É óbvio” dispara.
O técnico em comunicações Manoel Martins, 77, com seus quarenta anos de experiência no assunto diz que não é possível ter certeza de que as piratas foram responsáveis por fechar Congonhas. “Se não monitoraram as freqüência que causaram a interferência, como podem afirmar que foram as piratas? Sem provas isso não passa de uma suposição. Eles querem um bode expiatório para justificar o caos aéreo”.
Thomas* concorda e completa: “Se fosse assim o Bin Laden ia comprar transmissores de rádio ao invés de lança-foguetes pra derrubar avião”.
O fato é que os piratas viraram os inimigos numero um do ministro Hélio Costa, das Comunicações, que estuda maneiras de aumentar a pena dos clandestinos. Quer bota-los na cadeia e sufocar as radios que continuam em atividade com operações policiais rigorosas.
“Esse ramo é muito sujo. Tem um monte de rádio grande que opera no interior e paga propina pra Anatel deixar a freqüência deles livres em São Paulo, pra eles poderem pegar aqui também. Só tem pilantragem ali, e depois nós é que somos criminosos” denuncia Thomas*.
Infelizmente, a maioria das piratas está hoje na mão dos evangélicos, e muitas delas copiam o esquema mercenário das rádios oficiais, cobrando jabás e tudo mais.
Porém, no meio desse universo, várias rádios comunitárias e livres prestam um serviço inestimável a população. A periferia precisa se comunicar de qualquer maneira, e a Globo nunca dará o espaço que ela precisa.
As emissoras grandes hoje em dia tocam apenas as músicas de quem paga jabá. Subestimam o povo tratando-os como idiotas e deixando longe de seus programas qualquer sinal de inteligência. Enquanto isso as piratas falam com a população de igual pra igual, tocam o que eles querem ouvir e abrem seus microfones para quem quiser falar.
“A favela precisa se comunicar, não vamos parar nunca. A policia sabe que fechar rádio pirata não adianta, é igual a enxugar gelo. Você fecha uma e abrem outras dez.” decreta o pirata Thomas enquanto põe pra tocar aquela clássica do Sabotage, pra delírio dos ouvintes.

* nome fictício