


O saudosismo bateu forte hoje cedo. É domingo, li os jornais “sérios” e senti uma saudade fudida do Notícias Populares, onde trabalhei por um curto e delicioso período.
Seria impensável hoje em dia imaginar um editor-chefe submetendo a manchete do dia à aprovação dos contínuos, uma reunião de pauta em que jornalistas resolvem inventar a cascata do nascimento de um bebê com chifres e rabo ou que decidam fotografar uma mulher nua num frigorífico para falar sobre o aumento do preço da carne.
As manchetes do NP eram geniais. Pérolas como “Bicha põe rosquinha no seguro”, “Aumento de merda na poupança”, “Broxa torra o pênis na tomada” e “A morte não usa calcinha” semeavam diariamente o imaginário popular.
Pequenas aglomerações se formavam ao redor das primeiras páginas penduradas nas bancas do centro e sorrisos eram naturalmente arrancados de quem as lia. Ninguém passava batido a uma capa do NP.
O clima na redação era da mais pura diversão e na reunião de pauta as idéias mais absurdas eram sugeridas com a naturalidade de quem toma um copo de água. Quanto mais surreal melhor.
Num dos cantos a TV estava sempre ligada e todo mundo parava o que fosse quando começava o programa do Chaves. As gargalhadas eram ouvidas de longe enquanto putas e travestis que eram fotografadas nuas numa salinha anexa circulavam com suas micro-saias entre as mesas dos repórteres.
O fechamento era às 23:00h e a partir de então a redação começava a se esvaziar. O ultimo que saia desligava a TV e o barulho diminuía até atingir o silêncio total. Depois da meia-noite, quando tudo se acalmava, o velho repórter Hélio Santos abria a porta com a pele clara de quem não conhece o dia e seus cabelos brancos encrespados. Chegava para fazer o que fazia há trinta anos: mergulhar na madrugada violenta de São Paulo em busca de homicídios, chacinas, latrocínios ou qualquer outra história bizarra dessas que acontecem naturalmente por aqui.
Seus companheiros de ronda eram o fotógrafo José Maria da Silva e o motorista Zé Carlos. Juntos formavam um trio que via coisas tão absurdas que achavam melhor nem comentar. Ninguém acreditaria mesmo.
Encontrei num caderno velho anotações que fiz em uma das noites que saí com o Hélio para a ronda, cobrindo férias do Zé Maria. Reproduzo aqui alguns trechos:
“Saímos da redação à meia-noite já com a informação de que havia um morto no Jardim Santa Lúcia, zona sul da cidade, corpo no local. Uma pequena viagem nos leva até uma viela sem movimento onde avista-se apenas um bar, uma luz e um corpo no chão. Mais de perto uma viatura da PM guarda o cadáver enquanto o IML não chega. Helio se identifica ao policial com a frieza de quem faz isso a anos e entrega uma edição recém impressa do jornal do dia seguinte como um passaporte para começar a trabalhar.
Pedi autorização para fotografar, tirei o pano que cobria o corpo e comecei a clicar.
A cena é assustadora. O sangue escorria pela boca, e por trás da cabeça. O rosto estava levemente desfigurado em decorrência dos tiros na cara.
O nome da vítima é Laércio Dias da Silva, tem 28 anos e é caminhoneiro. A dona do bar diz que não viu nada. Havia se agachado para pegar uma cerveja no freezer e quando se levantou o rapaz já estava morto. Olho para o Hélio e fingimos acreditar. Ninguém nunca vê nada. É o parágrafo primeiro da lei da favela.
Um freguês do bar chegou já bêbado e ignorou o morto. Saltou sobre o cadáver, encostou no balcão e pediu uma dose de pinga exatamente como fazia todos os dias. O PM fez de conta que não viu e a dona do bar o serviu. O show tem que continuar.
O celular do Hélio tocou mais uma vez. Do outro lado da linha um policial informa nova ocorrência. Dois homens baleados, um deles ainda está vivo. Foi socorrido e levado ao PS em estado grave. O outro morreu na hora, corpo no local. A região, para variar é a zona sul, o bairro é o Jardim Santa Cruz e a página do guia de ruas que usamos para nos localizar é a mesma do primeiro homicídio da noite. Rotina macabra.
Chegamos em minutos. O procedimento é o mesmo, as perguntas também. A vítima era um guarda noturno. Na gíria policial eles são conhecidos como “pirriú” por causa do apito que assopram a noite inteira. O nome dele é Pedro Lourenço dos Santos, 48 anos e foi assassinado quando voltava do velório de um colega que havia morrido na terça-feira anterior.
O IML não costuma chegar muito cedo. Dez ou doze horas de atraso são consideradas normais na periferia. O morto está caído em frente a uma escola municipal e provavelmente amanhã, quando as crianças chegarem para estudar o cadáver ainda estará lá. O pior é que elas não se assustarão. É apenas mais um morto, elas já viram vários, não será o último, a vida segue.
Trabalho feito, vamos embora direto para o bar Estadão, tomar café e comer sanduíche de pernil antes de voltar pra casa.
Essa foi uma noite comum para o experiente repórter Helio Santos. Não aconteceu nada além do previsto, nada fora do normal”.
Naquele dia pessoas morreram na periferia de São Paulo exatamente como morrem todos os dias.
Na manhã seguinte, além das cascatas, bizarrices e matérias bem humoradas, o NP estava nas bancas noticiando as mortes de Laércio e Pedro.
Na periferia de São Paulo, até hoje as pessoas continuam morrendo da mesma maneira. O jornal acusado de banalizar a violência deixou de existir em 2001 e a violência hoje é tão banal, que nem sai mais no jornal.














