28/05/07

NADA MAIS QUE A VERDADE






O saudosismo bateu forte hoje cedo. É domingo, li os jornais “sérios” e senti uma saudade fudida do Notícias Populares, onde trabalhei por um curto e delicioso período.
Seria impensável hoje em dia imaginar um editor-chefe submetendo a manchete do dia à aprovação dos contínuos, uma reunião de pauta em que jornalistas resolvem inventar a cascata do nascimento de um bebê com chifres e rabo ou que decidam fotografar uma mulher nua num frigorífico para falar sobre o aumento do preço da carne.
As manchetes do NP eram geniais. Pérolas como “Bicha põe rosquinha no seguro”, “Aumento de merda na poupança”, “Broxa torra o pênis na tomada” e “A morte não usa calcinha” semeavam diariamente o imaginário popular.
Pequenas aglomerações se formavam ao redor das primeiras páginas penduradas nas bancas do centro e sorrisos eram naturalmente arrancados de quem as lia. Ninguém passava batido a uma capa do NP.
O clima na redação era da mais pura diversão e na reunião de pauta as idéias mais absurdas eram sugeridas com a naturalidade de quem toma um copo de água. Quanto mais surreal melhor.
Num dos cantos a TV estava sempre ligada e todo mundo parava o que fosse quando começava o programa do Chaves. As gargalhadas eram ouvidas de longe enquanto putas e travestis que eram fotografadas nuas numa salinha anexa circulavam com suas micro-saias entre as mesas dos repórteres.
O fechamento era às 23:00h e a partir de então a redação começava a se esvaziar. O ultimo que saia desligava a TV e o barulho diminuía até atingir o silêncio total. Depois da meia-noite, quando tudo se acalmava, o velho repórter Hélio Santos abria a porta com a pele clara de quem não conhece o dia e seus cabelos brancos encrespados. Chegava para fazer o que fazia há trinta anos: mergulhar na madrugada violenta de São Paulo em busca de homicídios, chacinas, latrocínios ou qualquer outra história bizarra dessas que acontecem naturalmente por aqui.
Seus companheiros de ronda eram o fotógrafo José Maria da Silva e o motorista Zé Carlos. Juntos formavam um trio que via coisas tão absurdas que achavam melhor nem comentar. Ninguém acreditaria mesmo.
Encontrei num caderno velho anotações que fiz em uma das noites que saí com o Hélio para a ronda, cobrindo férias do Zé Maria. Reproduzo aqui alguns trechos:
“Saímos da redação à meia-noite já com a informação de que havia um morto no Jardim Santa Lúcia, zona sul da cidade, corpo no local. Uma pequena viagem nos leva até uma viela sem movimento onde avista-se apenas um bar, uma luz e um corpo no chão. Mais de perto uma viatura da PM guarda o cadáver enquanto o IML não chega. Helio se identifica ao policial com a frieza de quem faz isso a anos e entrega uma edição recém impressa do jornal do dia seguinte como um passaporte para começar a trabalhar.
Pedi autorização para fotografar, tirei o pano que cobria o corpo e comecei a clicar.
A cena é assustadora. O sangue escorria pela boca, e por trás da cabeça. O rosto estava levemente desfigurado em decorrência dos tiros na cara.
O nome da vítima é Laércio Dias da Silva, tem 28 anos e é caminhoneiro. A dona do bar diz que não viu nada. Havia se agachado para pegar uma cerveja no freezer e quando se levantou o rapaz já estava morto. Olho para o Hélio e fingimos acreditar. Ninguém nunca vê nada. É o parágrafo primeiro da lei da favela.
Um freguês do bar chegou já bêbado e ignorou o morto. Saltou sobre o cadáver, encostou no balcão e pediu uma dose de pinga exatamente como fazia todos os dias. O PM fez de conta que não viu e a dona do bar o serviu. O show tem que continuar.
O celular do Hélio tocou mais uma vez. Do outro lado da linha um policial informa nova ocorrência. Dois homens baleados, um deles ainda está vivo. Foi socorrido e levado ao PS em estado grave. O outro morreu na hora, corpo no local. A região, para variar é a zona sul, o bairro é o Jardim Santa Cruz e a página do guia de ruas que usamos para nos localizar é a mesma do primeiro homicídio da noite. Rotina macabra.
Chegamos em minutos. O procedimento é o mesmo, as perguntas também. A vítima era um guarda noturno. Na gíria policial eles são conhecidos como “pirriú” por causa do apito que assopram a noite inteira. O nome dele é Pedro Lourenço dos Santos, 48 anos e foi assassinado quando voltava do velório de um colega que havia morrido na terça-feira anterior.
O IML não costuma chegar muito cedo. Dez ou doze horas de atraso são consideradas normais na periferia. O morto está caído em frente a uma escola municipal e provavelmente amanhã, quando as crianças chegarem para estudar o cadáver ainda estará lá. O pior é que elas não se assustarão. É apenas mais um morto, elas já viram vários, não será o último, a vida segue.
Trabalho feito, vamos embora direto para o bar Estadão, tomar café e comer sanduíche de pernil antes de voltar pra casa.
Essa foi uma noite comum para o experiente repórter Helio Santos. Não aconteceu nada além do previsto, nada fora do normal”.
Naquele dia pessoas morreram na periferia de São Paulo exatamente como morrem todos os dias.
Na manhã seguinte, além das cascatas, bizarrices e matérias bem humoradas, o NP estava nas bancas noticiando as mortes de Laércio e Pedro.
Na periferia de São Paulo, até hoje as pessoas continuam morrendo da mesma maneira. O jornal acusado de banalizar a violência deixou de existir em 2001 e a violência hoje é tão banal, que nem sai mais no jornal.

24/05/07

MESTRE DOS MARES







Saindo diariamente do cais de Itajaí, em Santa Catarina, centenas de maquinas de matar peixe ganham as águas de Iemanjá em busca dos cardumes que enchem a barriga do povo e o bolso gordo dos empresários da pesca.
Pescaria hoje em dia não é mais como antigamente. Canoas e traineiras artesanais foram substituídas por enormes barcos de aço, o faro do pescador deu lugar a modernos radares e sonares, remos e velas deram lugar a turbinados motores e o braço caiçara foi trocado por guindastes e guinchos elétricos. A tecnologia chegou para ficar e, como de costume, atropelou sem se dar conta uma cultura tradicional milenar.
O inverno chegou forte naquela semana de maio. Estacionei na empresa pesqueira depois de sete horas de estrada e desci do carro com as costas doendo. Estou indo conhecer o cara que, de acordo com nove entre dez pescadores, é o maior matador de peixes do pais. Um caiçara de Imbituba que fez fortuna aprendendo a combinar técnicas da pesca moderna com a sabedoria dos antigos, uma lenda viva que atende pelo estranho apelido de “Pão de Milho”.
Entrei no galpão e vi uma esteira mecânica que levava peixe do porão de um grande barco direto para o freezer. Um sujeito magro, ruivo e baixo vestindo camisa social, botas de borracha sobre a calça de linho e uma malha de lã azul marinho observava tudo de perto. No barco lia-se o nome “Vô Chico VI” e bordado na malha do sujeito estava escrito “Pão de Milho”.
O mestre de nome estranho me recebeu e conduziu até o barco. Mostrou a embarcação como quem apresenta sua casa. A temporada de pesca já começou e não há tempo a perder. Eles haviam chegado naquele dia de manhã para descarregar o peixe da viagem anterior e precisavam voltar para o mar o mais rápido possível.
Um beliche estreito onde só se cabe deitado será minha cama nos próximos quinze dias. Joguei o saco de dormir sobre o colchonete e encaixei minha mochila no canto estreito da cama enquanto o contra-mestre já aquecia os motores. Nosso alvo nessa viagem é um peixe saboroso e valioso, que carrega dentro de sua barriga um verdadeiro tesouro escondido. A tainha.
No oriente, a ova de tainha é considerada uma iguaria raríssima e os japoneses pagam fortunas por cada quilo que compram. Isso faz com que centenas de barcos se digladiem diariamente entre abril e julho, caçando como piratas modernos os verdadeiros tesouros vivos que se movem pelo fundo do mar.
Netuno parecia nervoso naquela quarta a noite. O barco saiu de Itajaí em meio a uma tempestade forte. Ondas grandes balançavam o “Vô Chico VI” que subia e descia como montanha russa. Os 18 tripulantes trabalhavam forte desde a partida. Nem bem partimos e na cabine de comando o mestre já estava de olho no sonar. “Nunca se sabe onde está o cardume, quando estou no mar não relaxo nem um minuto”, dizia ele.
E era verdade. Menos de quatro horas depois da partida “Pão de Milho” deu um pulo da cadeira. Viu uma mancha rosa na tela do sonar e imediatamente o barco foi atrás dela. “É tainha” disse ele com a certeza de quem faz isso desde sempre.
Como num balé, cada marinheiro sabia exatamente o que fazer. Cada um vestiu a roupa de borracha, a bota e em poucos segundos tomaram seus postos. Estava escuro, chovia forte e o barulho do motor não deixava que se escutasse muita coisa. Nem precisava. Aquela equipe, considerada a melhor do pais, tem tanta experiência que as palavras se tornaram desnecessárias.
Estava tudo preparado. A enorme rede pronta pra ir ao mar pela primeira vez naquela viagem. O barco se aproximou do cardume. Dava pra ver a adrenalina nos olhos de “Pão de Milho”. Haviam outras quatro traineiras perseguindo o mesmo cardume e só uma delas iria dar o lance certeiro. É nessa hora que vale a experiência do comandante. Navegando devagar, o contra-mestre Vavá pilotava sob as ordens firmes do mestre “Pão de Milho”. Em alguns momentos os barcos quase se chocavam. Silêncio no ar. O cardume chegou perto e finalmente veio o grito esperado: “Olha a rede!”.
Essa é a senha que a tripulação esperava. A dança dos pescadores atingiu seu auge enquanto o suor e a chuva pingavam do rosto tenso dos trabalhadores. Centenas de metros de rede presas ao barco são lançados ao mar enquanto o piloto faz um movimento de 360 graus em volta do cardume. Quando o circulo se fecha e as duas pontas da rede se encontram, significa que a casa caiu para os cardume, que agora está cercado e sem saída. O destino daqueles animais agora está traçado. Sua carne vai para a mesa dos brasileiros e a ova das fêmeas vai virar comida de japonês. Não há mais nada a ser feito.
“Tem umas 10 toneladas de peixe ai” afirmou o mestre coçando a cabeça enquanto um enorme sarico puxado por um guincho mergulha no mar e sai cheio de tainha, que são despejadas ainda vivas no porão gelado da embarcação. É mais peixe do que eu já tinha visto em toda a minha vida. O barulho das tainhas se debatendo é ensurdecedor e lembra aplausos de uma platéia ao final de um show empolgante. Mal havíamos saído do porto e já haviam 20 mil quilos de peixe no porão. As outras traineiras sairam de cena. Já estão acostumadas a perder para o “Pão de Milho”. A eles só resta ir embora e tentar achar outro cardume, de preferência bem longe do mestre dos mares.
Na madrugada, depois do trabalho, os tripulantes finalmente relaxaram. Alguns jogavam cartas, outros assistiam ao corujão em uma pequena TV pegando mal instalada na cabine. Um cheiro forte de comida boa vinha da cozinha. Zinho, o cozinheiro tem papel fundamental na tripulação. Alimentar dezoito homens por quinze dias no mar é tarefa dura. Se a comida for ruim, ninguém trabalha direito, e ainda por cima rapidinho eles organizam um motim.
Fui deitar com aquelas imagens na cabeça. O barulho do motor atrapalhava, mas o balanço das ondas ajudava o sono a vir. Quando finalmente adormeci, o grito de “Olha a rede!” me trouxe de volta para a realidade. Nem havia clareado e o mestre que não relaxa já havia encontrado outro cardume. Começou tudo de novo, exatamente igual a outra vez.
Foi assim por vários dias. Uns mais calmos, outros mais agitados na pegada que acabou virando rotina. Os gritos de “Olha a rede!” me pegavam cada vez menos de surpresa e a cada novo cerco eu arrumava um angulo novo para fotografar.
Pão de Milho me surpreendia diariamente com seu faro pesqueiro. Na cabine de comando, ouvimos uma conversa entre dois mestres de outros barcos. Um dizia para o outro que havia visto algumas tainhas pularem perto da Ilha do Mel no Paraná. “Mas é coisa pouca, não vale a pena nem lançar a rede” disse um deles fazendo pouco caso daquele peixe. “Coisa pouca nada”, retrucou o Pão de Milho. “Esse cardume está no fundo mas quando a frente fria passar e o mar acalmar esse peixe vai boiar umas cinqüenta milhas pra frente. Pela direção da maré e velocidade do cardume, se tocarmos pro norte vamos achar-los no meio do caminho bem na hora que a frente fria passar” profetizou o mestre.
Navegamos doze horas, o tempo acalmou e a mancha rosa apareceu no sonar no lugar previsto. Aquele cardume que foi desdenhado pelos outros mestres era o maior que apareceu naquela viagem. Não haviam outros barcos em volta e ficou fácil cerca-los. A rede foi lançada. O sorriso no rosto do mestre indicava que a experiência e o instinto tinham funcionado mais uma vez. Numa tacada só, foram oitenta toneladas de tainha para dentro do porão. Não era a toa que o nome “Pão de Milho”, apelido de infância do mestre gracas ao cabelo arruivado e as sardas, é conhecido em qualquer cais da costa brasileira.
A tripulação eufórica trabalhava arduamente, pois sabia que o percentual do lucro de cada um seria alto naquela viagem.
O barco entupido de peixe seguiu viagem de volta para Santa Catarina. Depois daquele lance não havia espaço para mais nada no fundo do “Vô Chico II” e era hora de voltar. Era tanto peso que o casco vinha afundado na água.
O clima de alegria naquele barco contrastava com o de tristeza que encontrei dois meses depois, quando fui fotografar a pesca artesanal em Ubatuba, cerca de mil quilômetros longe dali.
A tainha que antigamente era farta na região hoje não existe mais. Seu Dico, pescador antigo reclama enquanto arrasta a canoa na beira da praia do Almada. “O peixe vem do Uruguai, e as traineiras do sul não deixam mais que elas cheguem até aqui. A pesca pra nós esta acabando. Cresci comendo tainha e agora ela não chega mais. Eu tenho neto que nunca viu uma”. Diz o pescador resignado indo para o mar. “Hj se eu voltar com o almoço já estou feliz” completa.
Seu Dico pesca do mesmo modo que seu pai, que pescava como seu avô, que aprendeu com seu bisavô, que deve ter aprendido com os índios tupinambás. Fora a luz elétrica, o turismo e alguns confortos da vida pouca coisa mudou naquela vila. Em compensação no resto do mundo, a vitória do capitalismo justificou o pensamento egoísta de que cada um é responsável só pelo seu. A tecnologia ajuda quem pode pagar por ela e atropela os mais fracos sem dó nem piedade.
Vivenciar as duas realidades da pesca em tão pouco tempo deu um nó na minha cabeça. O que podemos fazer? Não sei. Essa porra de mundo sempre foi injusto mesmo.

10/05/07

EU PODERIA TER MATADO O PAPA, O PRESIDENTE E O GOVERNADOR.






Acordei muito cedo de uma noite mal dormida naquela quinta feira. Eram cinco e meia da manhã e meu corpo ainda sofria da ressaca de cinco viagens consecutivas em quinze dias. O Papa Bento XVI está na cidade e para o jornal que trabalho essa é a pauta mais importante do ano. Estou credenciado para fotografar o encontro do alemão com o presidente Lula e o governador José Serra no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista nesta manhã.
O esquema de segurança é exagerado. São mais de dez mil homens pra garantir a segurança de um só. Policia Civil, Policia Militar, Policia Federal, Guarda Civil Metropolitana, Policia do Exército, ABIN e mais um monte de caras de terno preto e fone de ouvido circulando pela casa entre Q.A.Ps e Q.R.Us.
Se o Papa, que é teoricamente o cara mais próximo de Deus na terra precisa de tanta segurança, isso significa que os pecadores como nós estão mesmo fudidos por aqui.
Pensei em todos os crimes absurdos que a policia brasileira cometeu desde sua fundação, e tentei em vão calcular entre os dez mil, o numero de policiais bandidos que hoje fazem a “segurança” papal. Os mesmos que sábado espancavam e jogavam bombas sobre famílias inteiras no show dos Racionais na Sé hoje sorriem e até assustam de tão educados. Em seguida lembrei de todos os crimes que a igreja católica também cometeu desde a sua fundação, da inquisição, suas fogueiras e guerras santas. Relaxei e percebi que estava tudo em família.
Mas essa segurança espalhafatosa não tem nada de perfeita. Peguei minha credencial no Anhembi, onde fica o Media Center Papal as seis da manhã, que era o horário combinado, e fui para a fila do ônibus que levaria todos os repórteres, fotógrafos e cinegrafistas para o local do encontro. Todas as bolsas e equipamentos passaram por uma máquina de Raio-X móvel instalada em um furgão, mas nenhum dos cerca de cento e cinqüenta jornalistas que entrou naqueles ônibus foi revistado ou passou por detector de metais. Estava frio e eu vestia um casaco preto bem largo. Embaixo dele eu poderia estar carregando pistolas, granadas, explosivos, facas, espadas, zarabatanas, estilingues ou qualquer outro tipo de arma que se pode levar junto ao corpo num dia frio.
Fomos posicionados em um palanque a cerca de dois metros e meio de um tapete vermelho onde o Papa passaria. Havia gente do mundo inteiro, fotógrafos e cinegrafistas de veículos grandes, mas também de jornais ou agencias desconhecidas. Qualquer um daqueles cento e cinqüenta poderia estar armado. Qualquer um deles poderia matar o Papa, o presidente ou o governador. Eu também.
Peguei um lugar bom, bem na frente, o mais perto possível do tapete vermelho. Estava tão perto de onde o alemão passaria, que troquei a tele-objetiva (aquela lente comprida que vai buscar o assunto lá longe) por uma grande angular (lente bem aberta). Sentei no chão, câmera na mão, e esperei com calma a chegada do pontífice.
Três helicópteros do exército voando baixo avisavam que Bento estava na área. “The Pope is in the house” diria o MC se houvesse um conduzindo a festa.
Parecia um filme. Ao lado do presidente e do governador, o Papa desceu do mercedes-benz cinza blindado e passou de peito aberto a cerca de dois metros e meio de um monte de caras que não foram revistados. Parou e posou para fotos acenando a mão. Passou tão perto de mim que pude até sentir o cheiro de enxofre que ele exalava.
Se eu quisesse e soubesse atirar, daria tempo de mirar com calma e dar um pipoco preciso bem na testa do pontífice. Se eu tivesse uma granada então, não precisava nem saber atirar. Matava numa tacada só o Papa, o Lula e de brinde ainda mandava pro céu o Serra e um monte de caras de terno preto que estavam perto. Com tanto meganha em volta, confesso que se eu matasse os caras não escaparia nem fudendo, mas entrava pra história direto, sem escalas.
O Papa Bento XVI foi embora bem vivo, apesar daquela cara de morto, e eu fiquei ali parado, impressionado com a imprudência da policia paulista. No dia seguinte a cobertura continuou e a máquina de Raio X que a Policia Civil de São Paulo mantinha no Anhembi parou de funcionar. A partir de então nem as mochilas das equipes de TV e jornais eram mais revistadas.
Fiquei pensando em como seria fácil matar o Papa se eu quisesse. A sorte de Bento XVI é que eu nunca quis entrar pra história.

08/05/07

COTIDIANO






Depois de dez anos fazendo jornalismo diário na Folha de S.Paulo, aprendi a discordar do Morpheus, do filme Matrix, quando ele diz que deja-vu é só uma falha no sistema. Todo ano é igual. Vai vendo:
Sempre começa com uma grande tragédia nos primeiros dias. Pode ser um tsunami que varre do mapa países ásiaticos, um Bateau Mouche que afunda, um ator de novela que mata a atriz, boate que pega fogo ou um avião que cai.
O importante é que seja merda suficiente pra encher jornal até chegarem as as enchentes, dois meses depois, provocando caos na cidade, deixando bairros embaixo d’agua, carros boiando e transito insuportável enquanto a cara gorda do Datena desfila toda a sua indignação de butique na TV.
A água ainda nem secou e começa o carnaval, com as mesmas bundas, os mesmos comentários, enredos e cores do ano passado. No outro canal as quase mesmas musicas baianas de sempre se infiltram feito um espião britânico no interior até do mais resguardado de todos os cérebros.
Finda o carnaval e Brasília volta a pauta porque a folia dos políticos só começa quando a do povo acaba. Aos poucos os absurdos que nos acostumamos a ouvir de nossos engravatados governantes lentamente vão tomando conta dos nossos anestesiados ouvidos.
Abril tem que pagar imposto de renda. Hora do governo encher o cofrinho e juntar dinheiro pra esbórnia federal.
Logo em seguida, as quaresmeiras do bairro da Liberdade ficam tomadas por flores roxas que, ao lado das cores dos grafites de Osgemeos, Nina e Nunca, te fazem respirar um pouco e deixam menos triste o cinza chumbo da 23 de maio.
O ano tá no meio, tem neve e geada em São Joaquim e agora é a vez do esporte. Copa do Mundo, Pan-Americano, Olimpíada ou o que seja. Cento e oitenta milhões em ação param tudo porque o verde e amarelo tá em campo. É a voz do Galvão novamente reverberando em nossa já desgastada caixa craniana.
Ressaca do esporte e ninguém tem tempo de respirar. Agora só se fala em eleição. As faixas e cartazes com a cara de bunda dos candidatos a qualquer coisa estão por todos os lados. A cidade vive sua primavera às avessas e passa pelo período mais feio do ano. Papel no chão, muro pintado, palanques oportunistas, troca de acusações, debates ensaiados. É a vez do horário eleitoral gratuito espalhar a mentira pelos quatro cantos do pais.
Político eleito, Big Brother decidido, é sinal que o ano quase acabou. O cansaço se vê na expressão das pessoas que andam rápido pela avenida Paulista. Ainda dá tempo pra ouvir o William Bonner dizer no JN que o lucro dos bancos triplicou e que o Bradesco e o Itaú bateram recordes de faturamento igualzinho ao ano passado.
O povo tá abrindo o bico, mas a perspectiva do Natal feliz faz com que resistam. Desta vez são os comerciais natalinos da TV que animam com sininhos tocando, gargalhadas falsas e gente ganhando dinheiro pra parecer alegre.
O espírito de Papai Noel penetra em todo mundo, menos na policia, que todo dia desce a porrada nos camelôs da 25 de março. Tropa de Choque, muita bomba de gás, borrachada e mercadoria apreendida. Camelô é pobre e não tem dinheiro para pagar propina como os coreanos do Promocenter.
A medida em que o calor começa a ficar insuportável, o clima fica mais tenso. Perto das “festas” o número de homicídios aumenta. Dia sim dia não tem nova chacina na quebrada.
As cadeias começam a ferver e está aberta a temporada das rebeliões. Ladrão faz castelo e sonha em passar o ano novo fumando um em Praia Grande. Já que não dá, só resta quebrar tudo mesmo.
Depois do Natal, todo mundo que não tá preso vai pra praia ao mesmo tempo. O trânsito entope as 15 pistas da Imigrantes enquanto os helicópteros das TVs quase batem um no outro procurando os melhores ângulos pra mostrar como paulista é burro.
As praias ficam tão lotadas que o calor que queima vem do suor do vizinho e não do sol. Toneladas de celulite com latinhas de cerveja na mão desfilam sua felicidade sobre a areia e seguem a risca o script do cidadão mediano.
As redações dão folga pra meia equipe e as matérias de gaveta inundam o noticiário.
O reveillon chegou e é hora de encher a cara. No DNA humano deve estar escrito pra beber dia 31.
Milhões vão pras ruas e ficam alegres. Dão abraços falsos uns nos outros, molhados pela chuva que sempre cai na noite da virada, borrando a maquiagem das mulheres em Copacabana e deixando transparentes as roupas brancas que deveriam trazer sorte.
Nos apartamentos, os solitários assistem a contagem regressiva gravada um mês antes pelo Faustão. Provavelmente a Ivete Sangalo ou o Zezé di Camargo vão cantar enquanto os fogos pipocam na tela.
O bar Estadão, continua aberto e servindo sanduíche de pernil igual a todos os outros dias do ano. Na Major Sertório, travecos e putas disputam os poucos clientes que sobraram na cidade. Tiozinhos solitários em última instância.
Dia 1 de janeiro, pela manhã não tem ninguém na rua. São Paulo parece uma cidade fantasma. Na avenida São João passa um ônibus vazio a cada meia hora. "Nóias" e cães dormem tranquilos na rua deserta. Na redação da Folha, quatro gatos pingados fazem o plantão de ano novo enquanto seus chefes viajam com as famílias. Logo mais vai acontecer alguma tragédia, afinal de contas o ano já começou e todo ano é igual.

04/05/07

QUITO


Quito/Ecuador - Março de 2007

FAVELA DA GROTA




Sexta-feira as energias se intensificam e todo mundo vai pra rua. Quando faz calor então... Naquela sexta tinha baile funk na favela da Grota, Complexo do Alemão. Esse baile ficou famoso quando o repórter da Globo Tim Lopes tentou entrar com uma câmera escondida e acabou esquartejado e queimado num buraco ali perto que os traficantes chamam de microondas. Não pretendo acabar assim. Estou sendo conduzido por gente de confiança e procuro imagens para um videoclipe de rap.
Uma rua estreita, uma parede de caixas de som e um palco formam o salão. Na entrada, dois meninos magros, de bermuda e sem camisa, armados com pistolas e fuzis AK-47 conduzem o movimento. “Tem de dez, de cinco, de três e de um” gritava um deles, equilibrando o baseado na boca quase infantil enquanto espalha alguns papelotes de cocaína sobre o capô de um Santana cinza.
A clientela chega, compra e muitas vezes cheira ali mesmo. Taxistas, moleques, tiozinhos, todo mundo procura a "caspa do capeta" embrulhada em papelotes. Moradores passam normalmente com suas crianças. Outros traficantes chegam de moto fazendo barulho. Os Fuzis estão pendurados nas costas e as pistolas encaixadas na bermuda. “Um fuzil não é ninguém, sem uma pistola, e a pistola não é ninguém sem um fuzil” diz o mano com a sabedoria precoce de quem aos dezesseis anos já participou de mais combates do que qualquer general do exército brasileiro.
O som rachado que sai das caixas levanta o público. “Se lembra dos momentos juntos que passamos e todos os carros da policia que a gente fuzilamos, eu de AR-15, você de tresoitão, vendendo cocaína lá no morro do igrejão” diz a letra do “proibidão” exaltando os donos do morro e seus soldados.
Latas de cerveja e batidas com cores estranhas são consumidas sem parar. Garotos exibem orgulhosos suas armas no meio da multidão. Parece que hoje tem mais fuzil do que normalmente.
Num boteco vejo três mesas de plástico juntas e cinco homens em volta delas. Com seus fuzis encostados ao lado, olham atentamente para mapas sobre as mesas e discutem algo que parecia muito sério. Um deles se levanta. Somos apresentados e ele olha fundo nos meus olhos, me cumprimenta com mão firme e se apresenta como o dono daquele morro.
Quero fotografar, e ele gentilmente diz não. Explica que esta noite eles estarão muito ocupados planejando uma invasão a Parada de Lucas, morro controlado por rivais do Terceiro Comando, e que será impossível termos a atenção devida da parte deles. Porém, faz questão que fiquemos para o baile como seus convidados pessoais.
Agora entendi porque tanto fuzil naquele dia. Bondes de outros morros vieram para o Alemão reforçar o exército para a invasão. Cada um dos homens naquela mesa era dono de um morro do Comando Vermelho e estavam traçando a estratégia de ataque. O dono volta pra reunião de cúpula e eu sigo para o baile. Guardei o equipamento no carro, peguei uma cerveja e fui pra festa.
O cheiro de maconha era onipresente e a cocaína consumida abertamente. Traficantes cheiravam pó sobre o cano das armas enquanto abraçavam e beijavam meninas de shortinho e cabelo molhado. Se divertiam antes da guerra. Aquela poderia ser a ultima cerveja, o último beijo e eles sabiam disso.
O dia estava perto de clarear e o álcool já fazia em mim algum efeito. Na entrada da favela, a boca ainda funcionava a plenos pulmões. A diferença se via apenas na fisionomia dos clientes, que mordiam os lábios e esbugalhavam os olhos de tão bicudos. Passei por eles e me despedi acenando a cabeça. Pelo jeito aquele baile ainda ia longe.
Fui pra casa e dormi quase a tarde inteira. Quando acordei dei um mergulho no Leblon. A água estava gelada mas o resto de sol compensava o frio. Só de noite, depois de jantar que liguei a TV. Vi o William Waack indignado no Jornal da Globo diziendo que Parada de Lucas tinha sido atacada e que foram mais de cinco horas de tiroteio. Era tanta bala que a policia se escondeu e deixou o pau comer. Doze pessoas morreram durante o confronto.
Apesar da artilharia pesada, o Comando Vermelho não conseguiu dominar Parada de Lucas. Trocaram tiros a manhã inteira e depois voltaram para casa.
Os jornais do dia seguinte venderam feito água, o governador deu entrevistas, sociólogos foram consultados, o presidente lamentou o fato, os mortos foram enterrados e na noite seguinte, todas as bocas de favela continuaram a funcionar normalmente.

03/05/07

MORCEGÓVIA III


Morcegóvios são seres deliciosamente estranhos. Voam sempre em círculos sobre o asfalto. Livres, pousam de cabeça pra baixo onde e quando lhes convém. São morcegos, mas se comportam como gatos. Ariscos, se aproximam devagar. Podem ser carinhosos como Pixinguinha ou agressivos como Mano Brown. Fortes até nas recaídas, gostam de colo, cafuné, leveza e muita liberdade. Prendeu, perdeu. São seres simples, feitos da mais estranha e complexa simplicidade. Devoram informação como comida quente. Pensam mais do que gostariam. A cabeça vai, mas sempre volta. Reservados, deixam pistas no ar que poucos decifram. Morcegóvia só abre a noite. Seus habitantes não dormem nunca. Invadem sonhos alheios na madrugada e deixam rastros de inteligência.

01/05/07

PUTA É O CARALHO





O nome verdadeiro é Maria Aparecida da Silva, mas na Central do Brasil é conhecida por Márcia. Aos 42, trabalha como faxineira de manhã em uma firma e prostituta a tarde, em frente a estação de trem mais movimentada do Rio de Janeiro.
Era gostosa, mas depois de tantos anos trabalhando como puta já não é mais. Assim mesmo ainda tem seus clientes fiéis, que não dispensam uma foda “completa” por R$35,00 depois de um dia de trabalho pesado. Como não é mais jovem, quem chegar com R$ 15,00 leva. São pedreiros, pintores, taxistas, eletricistas, porteiros. Usam o corpo de Márcia pra aliviar as tensões do cotidiano embaçado que gente pobre tem.
Cida mora em Itaguaí, zona norte do Rio, a 70 km do seu local de trabalho. De busão são quase duas horas.
A casa é simples, quarto e sala sem acabamento, tijolo baiano a vista, chão de terra e cimento, móveis improvisados, cortinas ao invés de portas e um retrato de Jesus na parede.
Um pedaço de bombril na antena ajuda a diminuir o chiado do capitulo de Malhação que as crianças assistem na televisão pequena sobre o armário. Como toda casa pobre, falta tudo mas sobra dignidade. Café, bolacha de maizena e Dolly sobre a mesa pra receber os convidados.
Mora ali com seus filhos, André, 18, Camila, 22, seus netos Wesley,5, Ketheleen,3, a mãe alcoólatra Idalina e a filha adotiva deficiente mental Verinha.
Cida sustenta a casa sozinha. Não fosse o dinheiro dos programas, provavelmente o filho estaria no crime, a filha na prostituição, a mãe alcoólatra pela rua gritando absurdos abraçada a uma garrafa de pinga e só Deus sabe onde estariam os netos e a filha adotiva deficiente mental.
Puta é o caralho, Cida é uma guerreira. Foi para o sacrifício e manteve na unha vermelha a família unida. Foi capaz de perder sua dignidade pra preservar a dos seus. Quem seria capaz disso? Você seria?
Ao conhecer essa mulher, tive a certeza absoluta de que as mulheres são superiores aos homens.
Pensei nos defensores da moral e bons costumes dos programas vespertinos de TV, nos hipócritas que bradam absurdos nos palanques, no horário eleitoral gratuito, no Datena, no Faustão, nas rádios populares. Sinto o gosto de vômito na garganta. Quem é mais puta? Quem é mais desonesto? Quem é o verdadeiro filho da puta?
Com olhar forte e digno, Cida tem a cabeça erguida e a hombridade de quem sabe que cumpre o seu dever com rara honestidade. Quem hoje em dia pode dormir tranqüilo assim?