26/04/07

BLADE RUNNER CABOCLO








É periferia de Belém, mas poderia ser de qualquer lugar do país. Toda periferia é parecida mesmo.
Choveu a tarde, como chove todo dia no Pará e a lama se espalhou pelo chão do clube Ipanema, em Ananindeua. Domingo a noite é dia de baile Tecnobrega, febre popular paraense em que milhares de pessoas se juntam para dançar música brega/eletrônica em volta das “aparelhagens”, que são toneladas de equipamento de som, luz e imagem que urram em volume ensurdecedor frases mixadas como: “Quem vai querer a minha periquita?”, “Hoje é dia de adultério”, “Quem ta solteira levante a mãozinha”, “Cadê o corno? Tá em casa” e daí pra baixo.
Os Djs são as estrelas da noite. Do alto de cabines “high tech”, cheias de botões, luzes e fumaça, comandam a festa soltando gritos de guerra e recados entre músicas brega com batida tecno que levam ao êxtase as milhares de pessoas que se acotovelam sobre poças de água e latas de cerveja jogadas no chão.
Atrás do Dj, um enorme painel de LED, oito TVs de plasma e cinco telões projetam imagens psicodélicas trazendo para aquele fundão do Pará um clima de Blade Runner caboclo.
As letras de duplo sentido atiçam a sexualidade dos presentes. O cheiro de perfume de rosas das meninas se mistura com o de suor dos homens sem camisa que dançam em ritmo alucinante uma mistura de carimbó com lambada.
A cerveja é servida em baldes. Ambulantes circulam pela multidão equilibrando sobre a cabeça baldes com gelo e latinhas vendidas a preços honestos.
Todas as letras, por mais absurdas, são cantadas sem erros por quase todo o público que enquanto dança faz com as mãos o sinal do “S”, símbolo do Popsom, que é o nome da equipe que comanda a festa de hoje.
Existem várias “aparelhagens” em Belém. As principais são Popsom e Tupinambá, que disputam palmo a palmo o titulo de “a mais popular” tentando levar cada vez mais gente às festas.
A guerra entre eles é acirrada. Para atrair mais público, DJs trazem músicas exclusivas e se esforçam para tocar tudo cada vez mais alto. Para o público tecnobrega muitas vezes vale mais a potência do que a música em si.
Nos fundos do baile, há uma enorme parede de caixas de som com seis metros de altura. Alguns segundos em frente a esse muro falante são suficientes para fazer tremer todos os seus órgãos internos. A sensação é de que vc será arremessado para longe a qualquer novo acorde ou batida mais grave. Alguns casais gostam de dançar só ali, e rodopiam enquanto seu corpo treme com a musica. Experimentam algo parecido com o que sentem pilotos de caça que quebram a barreira do som e desafiam a força G. É o ponto alto de adrenalina para aquelas pessoas, que esperam a semana toda para isso. A felicidade está estampada nos sorrisos que dançam.
O DJ anuncia o vôo da águia. A musica muda e a cabine de onde ele comanda o som é erguida por braços hidráulicos enquanto solta fogo, fumaça e bolas de sabão por todos os lados. As luzes piscam freneticamente e o DJ se levanta para receber os aplausos do publico que vibra com aquele show pirotécnico. Me lembrei do Show da Xuxa, quando ela descia de um disco voador no meio do cenário. É quase um orgásmo cósmico para os presentes.
Depois do êxtase, o suspiro. A musica se acalma e as pessoas começam a voltar para casa. Amanhã é dia útil. De alma mais leve, quem tem emprego vai correr atrás do seu, e quem não tem só vai pensar na próxima refeição. Eu mesmo vou embora feliz, pensando em como é rica e bonita a cultura periférica desse pais que a maioria faz questão de não ver.

24/04/07

PIXO É ARTE








Trabalho na rua e passo o dia rodando pelas quebradas dessa cidade monstra. O banco da frente do carro de reportagem é meu escritório, o barulho do motor e das buzinas dos motoboys é meu ipod e o cheiro da fumaça dos congestionamentos meu perfume. Foi olhando pelas janelas que aprendi a admirar as pixações que dominam os muros de São Paulo.
Passei a reparar nas letras, tentar decifrar cada palavra como a um quebra-cabeça. Era como se eu morasse na China e não soubesse ler chinês.
Aos poucos os códigos dos pixadores começaram a fazer sentido. Percebi que não era tão feio como alardeavam. A pixação combina com a paisagem acinzentada da metrópole. Vi São Paulo com outros olhos e achei bonita a feiúra da cidade.
Aquelas letras góticas esfumaçadas são esteticamente mais bonitas que qualquer outdoor criado por publicitários babacas com gravatas estampadas que montados num saco de dinheiro poluem muito mais a cidade.
O cidadão que nasce pobre na favela é programado pelo sistema para ficar quieto, e quando ele deixa de lado o lugar que lhe foi destinado e se expressa através de um rap cheio de raiva ou de uma pixação de 20 metros num viaduto ele esta fazendo exatamente o que grandes artistas contemporâneos fizeram através de suas obras: Estão incomodando, e a sensação de incomodo é o princípio ativo de toda arte que se preze.
A arte nasce na rua e não nas salas de aula. Arte se sente, não se aprende nem se explica. Arte aparece e incomoda como o pixo incomoda. Pixação é uma cultura. Tiozinho fica louco quando ouve isso.
O ato de pichar é mais um efeito colateral do sistema. É a devolução, com ódio, de tudo de ruim que foi imposto ao jovem da periferia. É o jeito que ele encontrou de mostrar ao mundo que existe. Me odeiem, mas saibam que eu existo, pedem desesperados.
Ao lado dos motoboys, os pichadores são o que existe de mais representativo e genuinamente paulistano.
A pixação é o pano de fundo da cidade, um detalhe do cenário, aplicado por um diretor de arte genial, que combinou-a com a cor do asfalto, o cinza dos prédios, a fumaça do escapamento, a sirene da policia, a buzina dos motoboys...



PS: A pixação é tão transgressora, que subverte até a língua portuguesa, já que ao invés de ser escrita com “ch” como é correto, ela é usada por eles sempre com “x”.

20/04/07

POESIA NO AR






Enquanto muitos bares da zona sul de São Paulo convivem com cadáveres esticados em suas portas, o bar do Zé Batidão convive com poesia e cultura.
É que aqui, toda quarta-feira tem sarau poético e nunca faltou gente pra ver, ouvir e se emocionar com o que os poetas marginais tem a dizer.
Sérgio Vaz é quem comanda, e aos gritos de “Povo lindo, povo inteligente!” bota ordem nos poetas que enfileiram seus nomes num caderninho e esperam a vez de recitar seus versos no microfone da entrada do bar.
Motoboys, rappers, donas de casa, crianças, auxiliares de escritório, desempregados. Todo mundo chega na humildade, papelzinho dobrado no bolso e olhar envergonhado. Quando pegam o microfone se transformam em verdadeiros guerreiros da periferia, rebatendo com versos as porradas que levam do dia-a-dia sofrido da quebrada.
São 21:30h. A novela das oito ainda entope o cérebro da maioria enquanto aqui, coperiféricos lutam contra a estupidez declamando versos próprios ou emprestados de grandes poetas, trazendo luz pra noite cinza da periferia.
Hoje é um dia especial na Coperifa. Cada verso recitado aqui foi escrito em um pedaço de papel e amarrado em um balão branco de gás. Todos foram para a porta do bar e de uma só vez soltaram os balões ao vento levando fragmentos do sarau para todos os cantos da comunidade. Versos de Clarice Lispector, Drummond, Pessoa, Leminski e Neruda voaram lado a lado com versos de Cidinha, Rose, Alessandro, Hélber, Robson, José...
O mais bonito da noite, foi descobrir que voando pelos céus do Capão, um verso da Dona Maria pesa exatamente a mesma coisa que um verso de Vinícius de Moraes.

17/04/07

CIPó DOS MORTOS



Um sitio em Cotia era o cenário. Fui contratado pela revista Rolling Stone para fotografar um ritual urbano do Santo Daime. Nunca tinha pensado em tomar o chá, mas quando puseram aquele líquido marrom num copo de plástico na minha frente virei tudo em um gole só. O gosto horrível rasgou a garganta feito remédio caseiro de vó.
Sentei na cadeira de plástico numa roda em que violões, tambores e flauta criavam um clima de peça do Osvaldo Montenegro. As letras falavam de coisas bonitas, azuis, transparentes, reluzentes, e faziam com que a mente se acalmasse.
A medida em que o chá ia fazendo efeito, o atabaque se intensificava e destacava-se entre os instrumentos, dando cara de umbanda para o ritual. A essa altura meu cérebro dava loopings de montanha-russa pelo sistema solar e eu não entendia mais absolutamente nada do que acontecia.
Um jovem de barba e sem bigode, chapéu e túnica, incorporou uma entidade que gritava de forma agressiva palavras em árabe. Pessoas dançavam curvadas em ritmo alucinante enquanto eu enfiava cada vez mais meus pés descalços na areia e me segurava na cadeira como se estivesse em uma poltrona de avião em queda livre. Minha sanidade ia e voltava. As vezes eu me sentia bem.
Guardiões entraram na roda para retirar o árabe. Ele relutou, mas de saída parou na minha frente e olhou fixo em meus olhos. Encarei. Pedi outro gole de Ayuasca. Desta vez um pouco menos, num copinho de café. Bastaram cinco minutos e fiquei louco de novo.
Quando fechava os olhos, via formas geométricas que voavam no céu e quando abria, via um cara cabeludo com um cajado, costas totalmente curvadas, andando de um lado para outro soltando palavras em esperanto ou qualquer outra língua morta.
A musica parou por alguns instantes e algumas pessoas correram para fora. Estou tranqüilo mas vejo o Tognolli correr junto. Escuto barulho de vômitos sincronizados como uma sinfonia bizarra. Olho pra trás e tudo que vejo é uma enorme quantidade de material orgânico amarelado saindo em linha reta da boca dele com cerca de um metro na horizontal. Fiz de conta que nada acontecia, fechei os olhos e me concentrei de volta na canção.
Estava me sentindo bem e a cada minuto me sentia mais forte. Percebi que nada mais aconteceria comigo. Fechei os olhos e deixei a sanidade ir embora outra vez. Tive certeza de que ela voltaria. Hoje, alguns meses depois, já não tenho tanta.

14/04/07

O PUDIM


Foi preso por um crime passional. Matou a mulher e o amante quando flagrou-os trepando em sua própria cama. Condenado a 15 anos de cadeia, foi direto para o Carandiru, sem escalas.
Sempre teve bom comportamento, não dava trabalho para os funcionários e todos os presos do pavilhão 7, onde morava, gostavam dele. Tinha nome, mas ninguém nunca soube qual era. Todo mundo o conhecia mesmo por Pudim, devido a sua maior especialidade na cozinha.
Realmente, o pudim que ele fazia era diferente. Derretia na boca, tinha um gosto adocicado que despertava em todos lembranças da infância. Ninguém passava batido àquele pudim. Dentro de uma cadeia horrível, aquilo era um manjar dos deuses. Todos os dias, depois das refeições aquele doce maravilhoso era disputado a tapa por ladrões, traficantes, homicidas e estelionatários.
Não demorou muito tempo para que os diretores da cadeia descobrissem aquela maravilha da culinária que era feita no terceiro andar do pavilhão 7. Em pouco tempo, Pudim foi trabalhar no setor administrativo da cadeia. Fazia pudim para funcionários, policiais, diretores e visitantes. Rapidamente seu prato ganhou fama e virou lenda no sistema penitenciário.
Graças a seu bom comportamento, Pudim tinha trânsito livre na cadeia, e isso foi muito importante quando se envolveu num plano de fuga com outros detentos. Ele conhecia os horários, os caminhos, e foi aprendendo aos poucos os pontos fracos da Detenção. Ele e mais 24 detentos escaparam por um túnel cavado perto do muro do pavilhão 2 e nunca mais foram vistos.
Os diretores, funcionários e policiais ficaram putos com aquela fuga, mas o que realmente lamentaram foi perder o já tradicional pudim de depois do almoço. Aquilo foi como um tiro no estomago de cada um deles.
Nessa época, o diretor da cadeia era o Luizão, um policial implacável que tinha o hábito de desafiar os bandidos mais perigosos para lutar boxe no “mano a mano”. Exímio boxeador, ele conhecia seu potencial e vencia a todos os seus oponentes, que desmoralizados por apanhar do diretor na frente de toda a bandidagem, nunca mais davam trabalho na cadeia.
Luizão não gostava de fazer só trabalhos administrativos e as vezes participava de operações na rua.
Certa vez, foi comandar um grupo de policiais numa operação para prender traficantes de drogas na fronteira do Brasil com o Paraguai. Era um trabalho difícil, e foram vários dias de campana na selva esperando que os bandidos aparecessem.
Depois de muita espera, cansados, sujos e com fome, desistiram e foram até a cidade mais próxima em busca de um lugar para comer. Chegaram em Fátima do Sul, cidade de três mil habitantes, que tem apenas uma rua asfaltada. Procuraram a única churrascaria do local e comeram como reis após tanto tempo no mato.
Depois da fome saciada, chamaram o garçom e pediram a conta. O garçom, muito simpático, disse que antes de sair eles não poderiam deixar de experimentar a sobremesa que era a maior especialidade da casa. Foi até a cozinha, voltou com um enorme prato de pudim e serviu a todos os policiais da mesa.
Quando sentiu aquele cheiro, Luizão começou a desconfiar. Deu a primeira colherada pra ter certeza. Aquela massa doce desceu tão macia em sua garganta que não haviam mais dúvidas. Pós a mão no coldre da pistola e chamou o garçom: “Isso está uma delícia, traga aqui o cozinheiro porque eu gostaria muito de cumprimentá-lo por essa maravilha de pudim”.
O cozinheiro saiu da cozinha, preparado para receber os elogios aos quais estava tão acostumado e não esboçou reação ao ver aqueles quinze policiais liderados por Luizão apontando armas em sua direção. Era ele mesmo, o Pudim do Carandiru, que estava foragido a dois anos, escondido em Fátima do Sul com a certeza de que jamais seria encontrado.
Desolado por tanto azar, Pudim voltou para cadeia graças ao que fazia de melhor. Dizem que depois disso, o pudim que ele fazia nunca mais foi o mesmo.

11/04/07

MATADOR




É a Febem, mas poderia ser qualquer cadeia. Começo a caminhada. Para cada portão fechado, outro se abre pela frente. São as chamadas ratoeiras, hoje comuns em qualquer condomínio de luxo. Cuidando de cada porta um sujeito de cara amarrada como requer a profissão. Olhar atento e desconfiado. Atrás da ultima delas está Marcelo, 17, vestindo calça jeans e o moletom verde claro da instituição. Sua fama é grande na zona sul. Já ouvi muita história de terror em que ele é o personagem principal. Muita gente o odeia na quebrada, muitos querem matá-lo, mas a verdade é que todo mundo tem medo dele.
Franzino, pequeno, calmo e de fala mansa, Belo, como é conhecido no Jardim Ângela, diz que já matou muita gente.
"Aos quinze anos roubei uma moto com um revólver de plástico. Vendi e com o dinheiro comprei um treisoitão. Desde então não parei mais." conta orgulhoso. Na última vez em que foi preso, tinha uma pistola 9 mm, uma espingarda calibre 12 e uma 7.65 em seu poder.
Marcelo sempre foi uma criança curiosa. Conta que quando matavam alguém perto de sua casa (quase todo dia) ele corria e era o primeiro a chegar para brincar com o cadáver. As vezes retirava as balas sujas de sangue do corpo do morto pra guardar de recordação. "Eu nunca tive medo", revela.
Belo sorri quando conta histórias de tiroteios. Diz que todas as pessoas que matou fizeram algo para merecer. Garoto valente e atrevido com uma arma na mão, é ele quem vai na frente quando sai com o resto dos parceiros, todos mais velhos, para matar. "É sempre a mesma história quando nóis chega. Não me mata pelo amor de Deus, tenho família, não tenho nada a ver com a fita. Mas não tem jeito, quando eu saio para matar eu vou na certeza de que o figura tem que morrer."
"Já tentei sair desta vida, passei uns meses na Paraíba com minha avó, mas não sei, parece que tem alguma coisa aqui no Ângela que me traz de volta. Eu quero mudar de vida mas não consigo me concentrar, penso uma coisa e logo em seguida vem outra na minha cabeça e aí eu esqueço o que eu estava pensando antes. As vezes eu acho que eu não sou normal” desabafa.
Latrocínio, homicídio, roubo e tráfico. Belo já é um ladrão experiente antes mesmo de completar dezoito anos.
Está na Febem e sabe que no momento está mais seguro lá do que na rua. No dia em que completar dezoito anos sai pela porta da frente "zerado", sem dever nada para a justiça.
Nascido num lugar violento, aprendeu a lei das ruas antes mesmo de entrar na escola. Percebeu que só seria respeitado pelo sistema com uma arma na mão. Excluído, marginalizado e sem perspectivas, é o Diabo quem agora guia o seu destino.

BELEZAS


Durante a semana as ruas de terra ficam cheias de gente. Todo dia parece domingo aqui. Não tem emprego mesmo, pra que procurar?
Na Vila das Belezas, desempregado existe de verdade, não é só estatística. Os botecos estão cheios deles. O importante é anestesiar-se. Concordo.
Ninguém mais sabe pra onde correr. O pastor evangélico não resolve mas pelo menos te escuta. Aqui é tão podre que nem bandido tem. O cara começa a roubar e já se manda do bairro. Arruma um barraco numa favela melhor.
Esgoto é a céu aberto mesmo. O cheiro é podre, mas acostuma. Pensar que existe gente em situação pior conforta a alma, mas não enche a barriga, que as vezes dói de fome.
Hoje liguei o rádio e ouvi que os deputados decidiram que não vão trabalhar mais às segundas e nem às sextas. Em plena era da comunicação a distância, eles alegam que precisam estar perto de suas bases eleitorais. Também resolveram que vão subir seus próprios salários para R$ 17.000,00 na semana que vem.
Políticos sempre pensaram só em seus próprios interesses, mas antigamente eles disfarçavam. Agora não é mais assim. O clientelismo é escancarado, o nepotismo defendido abertamente, processos são arquivados depois de acordos políticos e criminosos são julgados e absolvidos por seus pares. Esse ano não tem eleição. É hora dos deputados mostrarem seu pior. O que for feito agora será esquecido até o próximo pleito.
Enquanto em Brasília eles se deitam acompanhados de putas de luxo e dormem com a cabeça em travesseiros de pena de ganso, na Vila das Belezas crianças sonham com o dia em que revolucionários os enfileirarão em praça pública de joelhos, com os olhos vendados, anunciarão seus crimes em um megafone, e darão a famosa ordem: Fogo!

10/04/07

LAROYE


“Ocê pensa que caminho e estrada é tudo a mesma coisa, mas tá errado, minha fia. A estrada é uma coisa, o caminho é outra. A estrada é uma via, uma picada no mato, um cortado no chão e é muita. O caminho é quando ocê escolhe uma estrada pra seguir e chegar no seu lugar”

Exu Tranca Rua

08/04/07

O MALOTE






O trânsito de São Paulo é uma selva. Tem motoboy arrancando retrovisor, ladrão roubando bolsa, moleque fazendo malabarismo, sirene tocando, alarme de carro, fumaça, caminhão e ônibus. No meio desse caos, circulam pequenas fortalezas blindadas sobre rodas. Com quatro caras dentro, armados de escopeta e revólver, esses bunkers móveis carregam para cima e para baixo dentro de malotes, uma boa parte da riqueza nacional.
O carro por dentro é simples. Paredes grossas, portas pesadas, quatro cadeiras, um cofre e um monte de buracos espalhados pra meter bala nos bandidos que tentarem pará-los. Nas paredes, instruções afixadas indicam o que fazer em caso de assalto enquanto uma imagem de Nossa Senhora presa com um imã em uma das colunas tenta evitar que isso aconteça.
Naquela manhã, ao entrar no carro o motorista fez o sinal da cruz e, conscientemente ou não, pisou na cabine primeiro com o pé direito. Os outros três ocupantes tomaram seus assentos e o carro partiu para a batalha.
Num país cheio de desigualde social, eles vão atravessar uma cidade violenta em um carro cheio de dinheiro.
Cada parada é um momento de tensão. É hora de almoço no centro e a rua está cheia. São velhos, mulheres, homens e crianças. Na banca do camelô, um rádio velho toca “Homem na Estrada” dos Racionais. Cada um é um suspeito em potencial. Aquele mendigo pode ter uma Uzi embaixo do cobertor, a mulher com a criança pode ter uma granada na bolsa, o gari um fuzil na lixeira. Como saber? A tensão e o medo predominam na cena.
Eles pegam o malote na agência bancária e rapidamente voltam pra dentro do carro, que arranca para fazer a próxima coleta.
Depois de passar por vários lugares recolhendo os malotes, o blindado segue para o bunker: a central da empresa de segurança, onde o dinheiro vai ser contado e catalogado. Parece a caixa-forte do tio Patinhas. Vejo mais concreto, grade, aço, camera e tensão do que qualquer cadeia do país.
Não é pra menos. Em uma das salas centrais, os malotes são abertos e maços e mais maços de dinheiro são jogados sobre uma mesa de fórmica branca. Uma funcionária vestindo um macacão de operário e um 38 na cintura amontoa e organiza todo aquele dinheiro que é contado, recontado e depois empacotado em novos maços com mil notas cada um.
Por um instante, quis ser John Malkovich e entrar no cerébro daquela funcionária, só pra saber o que pensa alguém que passa o dia inteiro manuseando milhões de reais e no fim do dia pega um ônibus lotado pra ir embora pra casa.
Na entrada da empresa, estão penduradas fotos de criminosos foragidos e balanços dos assaltos ocorridos no ano corrente em todo o Brasil. Além da contagem, os relatórios também trazem detalhes de cada assalto, para que os funcionários fiquem atentos e nunca esqueçam o perigo real que correm.
A tensão é justificavel.
Na guerra urbana de São Paulo, todo mundo quer dinheiro e os carros-forte transportam o dinheiro que todo mundo quer.
Alguns morreram tentando roubar o malote, muitos conseguiram. Outros morreram tentando defender o malote.
Essa é só mais uma das tantas guerras pelo dinheiro que são travadas todos os dias sobre o asfalto quente da cidade de São Paulo.

06/04/07

OITO MIL DRAMAS





No numero 2630 da avenida Cruzeiro do Sul em São Paulo havia um presídio chamado Carandiru, que foi o maior que já existiu na América Latina. Cerca de 150 mil criminosos passaram por ali desde sua inauguração em 1956 até sua demolição em 2002. A lotação máxima era de oito mil homens.
Eram oito mil processos, oito mil dramas, oito mil universos em crise vivendo lado a lado entre grades, regras rígidas e blocos de concreto e aço reforçado.
Durante 46 anos, detentos entraram e saíram daqueles prédios. Muitos foram libertos, alguns fugiram e outros tantos morreram. As mesmas celas, os mesmos corredores, as mesmas janelas os mesmos banheiros serviram de cenário para a convivência da escória da sociedade e foram palco do massacre de 1992 onde 111 presos foram covardemente assassinados.
Se aquelas paredes falassem ninguém acreditaria no que elas teriam para contar. Se aquelas celas pensassem, já teriam enlouquecido a muito tempo. Se o Carandiru fosse alguém, seria o diabo.

04/04/07

MORCEGOVIA II


Já passou de uma da manhã. É madrugada e morcegos voam baixo pelas ruas quase vazias de Morcegóvia. Agora não tem mais trânsito, não tem mais pressa e a nóia do dia se transformou na loucura dos que preferem a contra-mão da cidade.
Nas cavernas alguns aproveitam o silencio pra pensar, criar e botar ordem no cérebro enquanto as ruas são tomadas pelos exus que se divertem surfando limites entre o bem e o mal.
Morcegovia não é Hollywood e é agora que ratos e baratas saem dos ralos pra andar de mãos dadas sem o risco de serem pisoteados pelos que correm cegos durante o dia.
No boteco mais clássico, sanduíches de pernil são servidos sem pausa pra todo tipo de trabalhador noturno. Putas, traficantes, policiais, travestis, taxistas e toda a fauna se encontram no balcão mais democrático da cidade.
Nas cadeias, depois da tranca, ladrões e homicidas deitam a cabeça no colchonete fino e úmido do barraco e constroem seus castelos de liberdade.
Carros e motos aceleram forte e sirenes ecoam lá longe a trilha sonora da madrugada. Em algum lugar alguém precisa de ajuda.
Enquanto energias se concentram e se dissipam, conexões são feitas por torpedos de celular. A inteligência seduz mais que um par de tetas e a cidade entra na ebulição gelada da noite morcega. Morcegóvios clareiam quando escurece. Um maço de cigarro e uma coca-cola te empurram pra rua as três da manhã e te deixam levemente mais feliz.
Nas favelas o dia começa antes da noite acabar. Ônibus cheios já sobem e descem a Estrada das Lágrimas enquanto boates ainda fervem sob efeito de balas na lingua.
Na “Casa de Todas as Casas” meninas continuam chegando a procura de um programa que lhes pague o táxi da volta pra casa. Viciados dão cavalo-de-pau com a boca e ainda procuram mais um papelote de farinha na vã tentativa de prorrogar o improrrogável.
O relógio da avenida central parece andar em câmera lenta. O negro do céu dá lugar ao azul escuro que precede a manhã. O movimento aumenta devagar. O dia vem.
Morcegos voltam aos poucos pra caverna. Durante o dia se disfarçam de pessoas normais e trabalham.

02/04/07

NAVIO NEGREIRO





Tô na rua. Escuto as sirenes dos carros de policia e o barulho do helicóptero do Datena que voa rasante sobre o centro de São Paulo. Viro a esquerda na rua do Triunfo e vejo entre as viaturas uma fileira de homens sentados, virados para a parede e com as mãos algemadas na cabeça. São todos negros.
Policiais civis do GOE, do GATE e de outros grupos especiais que usam roupas pretas e armas grandes fazem o cerco. São todos brancos.
Os negros são levados em fila indiana para dentro de um ônibus. Um ônibus cheio de negros sendo levados algemados por policiais fortes, brancos e armados até os dentes. A cena é a do navio negreiro.
Chego mais perto. São todos africanos. Nigerianos moradores do centro de SP. Ninguém pede documento, nem pergunta, nem nada. É preto, é africano, vai pro ônibus.
Alguns negros reclamam. Um se exalta. Um policial branco e gordo, armado com uma pistola, entra no ônibus e dispara continuamente um spray de gás pimenta. Fecha a porta e deixa os negros gritarem com os olhos em brasa e a garganta fechada. Alguns policiais brancos dão risada do lado de fora. Um negro desesperado por não poder respirar chuta a porta do ônibus e consegue escapar. É espancado por cinco ou seis policiais brancos que de tão entretidos com a agressão não percebem o fotógrafo que registra tudo de perto.
São muitos policiais mas não há espaço para todos baterem. Um dos que não conseguiram agredir o negro percebe a câmera e agride o fotografo. Mas o fotografo é branco e trabalha no maior jornal do pais. Leva só um tapa nas costas, alguns empurrões e é impedido de fotografar o negro, que já algemado continua sendo chutado.
Arregaçado de tanta porrada, o negro é posto de volta no ônibus, que segue viagem até o 3DP, na rua Aurora. Foram todos averiguados e soltos no mesmo dia. Era apenas mais uma operação padrão da policia de São Paulo.


A Carne
(Seu Jorge, Marcelo Yuca, Wilson Capellette)

A carne mais barata do mercado é a carne negra
Que vai de graça pro presídio
E para debaixo de plástico
Que vai de graça pro subemprego
E pros hospitais psiquiátricos
A carne mais barata do mercado é a carne negra
Que fez e faz história
Segurando esse país no braço
O cabra aqui não se sente revoltado
Porque o revólver já está engatilhado
E o vingador é lento
Mas muito bem intencionado
E esse país
Vai deixando todo mundo preto
E o cabelo esticado
Mas mesmo assim
Ainda guardo o direito
De algum antepassado da cor
Brigar sutilmente por respeito
Brigar bravamente por respeito
Brigar por justiça e por respeito
De algum antepassado da cor
Brigar, brigar, brigar
A carne mais barata do mercado é a carne negra

01/04/07

CEMITERIO SAO LUIZ





Estacionei na avenida Fim de Semana, no Capão Redondo. Dava pra ver um muro branco do outro lado da rua e um portão enferrujado. Sobre o muro, crianças brincavam empinando pipa. Faltam áreas de lazer na zona sul então a solução é brincar aqui mesmo no cemitério São Luiz. Só que hoje não é um dia comum, é dois de novembro, dia de finados e o cemitério está lotado de gente. Famílias inteiras carregando velas e flores disputam espaço com a criançada que se diverte sobre as covas de terra batida.
Entre os visitantes a maioria é formada por senhoras de meia idade e crianças. Andando pelos caminhos do cemitério, fica claro que a maioria dos poucos túmulos que possuem lápides são de jovens. Dá pra sentir algo errado no ar.
Contrariando a lei da natureza, ao invés dos filhos enterrarem os pais, aquelas mulheres são mães visitando os filhos mortos na guerra civil velada que acontece todo dia na periferia de São Paulo e as crianças são os filhos dos mortos que vão com as avós conhecer os pais que não tiveram. Pai é artigo raro na quebrada. Ou foge, ou é preso ou morre.
Sentei em uma das calçadas observei. A letra de “Fórmula Mágica da Paz” do Brown batia feito o badalo de sino na minha mente.

“Dois de novembro era finados
Eu parei em frente ao São Luiz do outro lado
E durante uma meia hora olhei um por um
O que todas as senhoras tinham em comum
A roupa humilde, a pele escura
O rosto abatido pela vida dura
Colocando flores sobre a sepultura
Podia ser a minha mãe, que loucura”

Aquilo me abalou. Por que filho pode morrer antes de pai? Acho que nada pode ser mais cruel que isso. É a única dor insuperável.
O Julio, amigo que me acompanhava e morador da área diz que já perdeu a conta de quantos parceiros estão enterrados ali. Ele tenta forçar a memória, mas depois do décimo nome desiste. Sua mãe e seu pai também estão ali. É muita dor concentrada em poucos alqueires de terra.
Passamos perto do local onde os corpos são velados e Julio se lembra do dia em que foi ao velório de um amigo assassinado numa treta entre grupos rivais. Estavam todos reunidos perto do caixão, quando os assassinos do amigo voltaram armados metendo bala em todo mundo. Eles voltaram pra terminar o serviço e mataram mais um do grupo. Barato loco, tipo filme mesmo.
O São Luiz fica numa ladeira enorme. Nas laterais, junto ao muro que circula toda a área estão as gavetas com restos mortais. Nas áreas nobres ainda sobra um pouco de grama e os túmulos tem lápides com nome, mas no ladeirão ficam as covas de terra batida identificadas apenas por números. As covas são rasas, e na época das chuvas é comum que ossos sejam levados pela enxurrada que desce pelo valão. Pobre se fode até depois de morto.
O cemitério São Luiz é um símbolo da periferia de São Paulo. É pra lá que vão as vitimas de uma guerra suja, causada pelo descaso e incompetência dos políticos. Enquanto em Brasília eles brigam por seus próprios interesses, no São Luiz mais e mais jovens são enterrados com tiros na cara em covas rasas dentro de caixões lacrados. As crianças pequenas continuam brincando de pipa sobre a terra batida dos túmulos e os mais velhos aproveitam o dia de finados pra faturar um troco vendendo velas, flores, e pintando lápides desgastadas pelo tempo com pincel e cal por apenas um mísero real.

jw

VIDA LOKA




O palhaço não tem cara ele só tem finalidade. Por isso que o símbolo dos Vida Loka é o palhaço. Ele não tem rosto. Não quer ibope, não quer nada. Qual é a finalidade do palhaço? Fazer rir, alegrar.
Então já é. Por isso o palhaço.
(Cascão)

CASCAO


Vida Loka não vira, nasce. Cascão nasceu Vida Loka e é a personificação do estilo criado por ele e Mano Brown que tomou conta das ruas de São Paulo.
Ex-assaltante de banco, tirou sete anos de cadeia e sofreu na pele todo o veneno do sistema carcerário. Viu de perto a fundação do PCC e participou de inúmeras rebeliões.
Carregando nas costas uma capivara (ficha criminal) que mede 4,5 metros, Cascão voltou pra rua. Saiu pela porta da frente da cadeia, largou o crime, entrou pra faculdade de direito e montou o grupo de rap Trilha $onora do Gueto. “Entrei pra faculdade de direito pra ser mais folgado do que eu já sou” diz orgulhoso depois de pagar todas as as dívidas que tinha com a justiça.
Considerado na quebrada como o Vida Loka original, o único e autentico gangsta brasileiro rejeita o rótulo. “Falar é mó boi, todo mundo quer ser gangsta mas pergunta se os cara quer dar tiro na ROTA pra ser gangsta? Pergunta se quer perder a liberdade? Quer nada. Papel e caneta aceita qualquer coisa, escrever uma letra falando que é gangsta é mó boi. Eu não quero ser, pergunta pra mim aqui, ó, eu já fiquei preso um monte de ano. Pergunta se eu quero ser gangsta. Não quero nada, quero ser bem sucedido”
Aos 14 anos Cascão fez seu primeiro assalto a banco. Foi piloto de fuga pra uns parceiros da quebrada. “Eu acho que atirar nos outros é babaquice. Matar os outros é babaquice. Agora, a sensação mais gostosa é você saber que vai entrar na agência e sair com um malote. Tem noção? Imagina a viagem, mano. Você entrar dentro do banco, driblar o guarda, passar por todo mundo sem ninguém te olhar, sentar na mesa da gerente, perguntar: “Você é a gerente?”. “É”. Sacar a quadrada, pegar ela pelo cabelo, levar dentro do cofre e voltar com o malote”.
Em 91, durante um assalto a banco, Cascão foi preso. Com um refém sob a mira de uma sub-metralhadora exigiu a presença de equipes de TV pra se entregar. Começava ali a carreira artística de um dos mais controversos e polêmicos rappers de sua geração. Na cadeia descobriu seu verdadeiro dom, o de poeta da realidade. Foi durante um castigo na cela isolada, onde passou 58 dias sem ver o sol, que compôs a letra da musica Terceira Opção, contando com detalhes o dia em que foi preso. Ai vai um trecho da letra:


“... Eu peguei minha quadrada e fui pra guerra com o sistema, só que pá é o seguinte sempre existe um dilema.
A vida traiçoeira me pregou uma lição eu só tinha dois minutos pra viver 3 opção. Se eu saísse pelos fundos eu morria assassinado, se eu vazasse pela frente pelos bico era linchado e a 3º opção era eu engatilhar a quadrada na cabeça e eu mesmo me matar, só que Deus tava presente acredite eu não me engano, em fração de 2 segundos eu bolei aquele plano. Ai xará é o seguinte eu só vou me entregar quando aquele sem futuro do Datena me filmar, to ligado que pru ceis eu não valho um real só que se ceis invadir o refém vai passar mal. Ele tá todo borrado ta mijado ta com medo ta pagando até com juros o racismo e o preconceito. De repente, pá pá, caraio que tiroteio, fiquei com a cabeça a mil
me bateu um desespero. Parece que foi ontem, quando eu da cena lembro,
minha roupa cheia de sangue eu algemado mó veneno. Linchado pelos bico com ajuda dos gambé, desacerto no crime eu to ligado qual que é. Um dia é da caça outro do caçador, ditado que meu pai já herdara do meu vô...”

(+ claudio tognolli)