14/12/07

TREMEU O CHAO





A comunidade de Caraíbas, 35 km de Itacarambi, no norte de Minas Gerais vai se transformar em uma cidade-fantasma. Todos os moradores foram removidos após o terremoto de 4,9 graus na escala Ritcher que abalou o vilarejo no domingo passado. Dos 380 habitantes, apenas seis passaram a noite de quarta para quinta-feira no local, armados com dois rifles e um revólver calibre 38, para proteger de saques e roubos os poucos bens que ainda lhes restaram.
Exatamente à meia noite e onze minutos da quinta-feira houve um novo abalo sísmico bem debaixo dos meus pés. Um ruído parecido com o de um trovão de baixa intensidade ecoou, causando uma sutil vibração semelhante a da passagem de um metrô pelo subsolo. Após o ruído, cães, galinhas e porcos se assustaram quebrando o silêncio do local mas os moradores ao redor da fogueira nem se abalaram. “Isso acontece todo dia. Esse foi dos mais fracos” disse Raimundo Campos Pinheiro, 49, demonstrando tranqüilidade assustadora.
“Como a gente pode morar num lugar assim?” lamentava o lavrador Donato Moreira, 54, enquanto Minervaldo da Mota Silva, 48, já embriagado, procurava explicações sobrenaturais para o fenômeno sismológico: “Os antigos falavam que esse barulho vinha do ronco de uma sucuri que morava lá embaixo do lençol d’agua, no fundo da terra. Outros diziam que era assombração e coisa de outro mundo. Quando a terra começou a tremer, muitos pensaram que era o mundo acabando, principalmente os mais velhos e os crentes”.
Entre um gole e outro de pinga, Juarez da Silva Mota, 40, contou que já viu muita coisa estranha acontecer em Caraíbas. “A gente ouvia barulho de coisa caindo a noite, panela batendo, copo quebrando, e quando acendíamos o candeeiro não tinha nada fora do lugar, tava tudo lá certinho”. Os moradores estão assustados. “O primeiro terremoto, em maio, foi meio-dia, mas depois desse, quase sempre perto da meia-noite a gente ouve esse estrondo, uns mais fortes e outros mais fracos. Parece mesmo coisa do além” emendou Juarez.
Apesar das histórias, todos os moradores que montavam guarda no local concordam que o maior medo ali não era do terremoto e nem das assombrações. O que eles realmente temem é uma invasão dos índios Xakriabá, que moram em uma cidade vizinha e possuem uma rivalidade antiga com Caraíbas. “Ninguém lá é índio mesmo, eles só tem carteira de índio mas são iguais a nós. Nós sabíamos que eles estavam se armando pra invadir aqui, e estávamos preparados pra lutar com eles. Agora depois do terremoto não sei como vai ficar essa briga, mas temos que estar com os olhos abertos” disse Mauricio dos Santos, 19.
Já o caminhoneiro Pedrão, morador de Itacarambi, enxerga a tragédia de outra maneira: ”Deus faz mesmo tudo certo. Ele mandou esse terremoto pra evitar um derramamento de sangue maior acontecesse nessa guerra entre Caraíbas e os Xakriabá. Ia morrer muita gente” afirmou para a concordância de todos ao redor da fogueira sob a noite estrelada.

3 comentários:

Mill disse...

Coisas que a grande mídia esconde....

Volumetria disse...

joão, parabéns de novo. a reportagem sobre o tremor mais sensível até aqui, valeu.

sombra e luz disse...

e foi um ótimo desfecho...