Nas favelas do Rio, as facções criminosas proibiram a venda de crack. Nas cadeias, o PCC fez o mesmo. Nas ruas de SP, o Estado deveria seguir o exemplo, mas não foi capaz.
O efeito da pedrinha é devastador e transforma seus usuários mini-monstros que perambulam em bandos feito almas penadas roubando e cachimbando enrolados em cobertores de feltro pelas outrora chiques ruas da Cracolândia, nas beiradas da Estação da Luz.
Faz anos que vejo nos jornais os anúncios de revitalização da Cracolândia. Urbanistas mostram seus desenhos, economistas seus cálculos e jornalistas suas análises enquanto a cada dia mais e mais crianças se acabam na pedra sobre colchonetes sujos e fétidos, a vista de todos, inclusive da policia que passa e os ignora como se nada acontecesse.
Sob efeito do crack os moleques parecem bichos. Os olhos saltam e os músculos enrijecem. Olham para os lados como se estivessem sendo perseguidos o tempo todo. Sentem incontrolável vontade de cagar, o que transforma seus “mocós” em lugares mais nojentos do que já são. O cheiro é podre.
Hoje andei pela Cracolândia. Fotografei de longe alguns meninos fumando. As fotos ficaram ruins e resolvi chegar junto. Deixei carteira, celular e tudo o que pudesse ser roubado no carro. Levei apenas uma câmera na mochila. Escolhi um grupo que estava fumando e me aproximei. Quando se avista a luz do isqueiro há segurança, o perigo esta nos que não tem a droga. Cheguei perto e “na gíria”, perguntei se podiam conversar comigo. Aprendi com meu parceiro Cascão que o segredo de qualquer abordagem é não demonstrar medo. Quem faz isso sempre ganha, dizia ele. Deu certo.
Para meu espanto fui convidado a sentar. Me ofereceram um trago no cachimbo. Agradeci e recusei. Eram três, uma criança de 13, uma menina de 18 e um adulto de 20. Desconfiaram no começo mas aos poucos foram ganhando alguma confiança. Sorrisos surgiram entre um trago e outro e a conversa fluiu.
“Nóis vive pela pedra. Roubamos de manhã no trânsito e trocamos os artigos que conseguimos por mais pedra. Quando acaba voltamos pra pista roubar. Essa é nossa vida, nossa pegada. Vivo na rua desde os 6, to com 18 e fumo pedra desde os 11” disse a menina, que se identificou como Diana. Os cabelos curtos e as roupas largas lhe emprestam a aparência de um menino. Isso serve para protege-la da selvageria da rua.
O menor, disse se chamar Luã, mas, segundo o próprio, todo mundo chama ele de “Neguinho”. Perguntei se ele fumava todo dia e a resposta foi surpreendente. ”Não existe mais esse negócio de dia pra nós. Ficamos acordados uns cinco depois dormimos uns dois direto. Cachimbamos e roubamos o tempo todo”.
Quis saber qual era o barato da pedra, o que eles sentiam e por que faziam isso. “Isso ai vc só vai saber se fumar com nóis” completou o mais velho que não quis dizer o nome. “Existem duas cracolândias. A primeira começa as oito da manhã e termina as seis da tarde, quando fecham as lojas. Quando escurece isso aqui vira terra de ninguém. Os fantasmas saem das tumbas”. emendou.
Saquei a câmera e pedi pra fotografar. Taparam o rosto com medo de serem identificados pelas vitimas de seus assaltos e se deixaram registrar enquanto acendiam seus cachimbos. Estava escuro e a luz do isqueiro banhou de dourado o rosto deles. Fiz as fotos e me despedi. Me pediram dinheiro mas disse que não tinha. Era verdade. O menor insistiu. Achei melhor sair dali. Enquanto estive lá passaram duas viaturas, uma da PM e uma da Civil. Ambas ignoraram os moleques que nem se preocuparam em esconder o cachimbo. O dia de roubos deve ter sido bom, pois tinham muita pedra pra fumar. Me deixaram ir.
Fui embora com a cabeça e a adrenalina a milhão. O que fazer pra acabar com essa merda que destroi a vida de milhares de moleques nas ruas de São Paulo, e motiva todos os dias centenas de assaltos nos faróis?
Eu não sei o que fazer, os governantes não sabem, mas o PCC e o CV, esses sim sabem muito bem. Talvez contrata-los para uma consultoria?
16 comentários:
Do pcc e do Cv eu n�o sei muito. Do governo n�o d� pr� esperar nada. Mas duvido muito que a prefeitura ou o governo do estado de sp conseguisse impedir qualquer coisa, ou pelo menos, tentar nos moldes que as duas fac�es fizeram.
E tb acho que cada vez menos gente se incomoda com isso, j� que o gueto � conhecido e evit�vel.
Até com o dinheiro que eles roubam poderiam fazer melhor uso! Gostam dessa vida, se alienam e passam seu tempo sem pretenção de um futuro ... não reconhecem mais o dia como dia, como eles mesmos dizem! Tudo isso me deixa muito triste, muito assustada. Sempre me questiono o que posso fazer pela sociedade, e como posso com meu suor fazer da vida uma vida melhor, mas a respota realmente ninguém tem ... e assim vivemos na espernaça de ajudar a agônia do mundo!
salve, joão. ouvi dizer que a juventude de florianópolis tá caindo na pedra também. acho que as grandes cidades vão todas pelo mesmo caminho. aqui em porto alegre também tá assim. muito foda isso.
curto muito teu jeito de fotografar. tu é mesmo fotógrafo-ninja, meu chapa!
abraço,
raul krebs
(almoçamos juntos no mercado público pra combinar a tua oficina aqui - a fotoperiferia - não sei se tu vai lembrar)
caralho joão, muito foda.
trabalhei com essa molecada na rua por sete meses, quando fui educador social no travessia. não existem soluções mágicas. mas o mais foda é saber da onde essa molecada saiu. preciso dizer?
enquanto isso as pessoas não fazem associação nenhuma entre miséria, má distribuição de renda, tráfico e violência. é foda. nas "notícias de nossa guerra particular" estamos perdendo. todos. uns mais do que os outros, é verdade. e feio.
Salve joão, porra mano boto fé essa porra de pedra ja fez eu perde varios manos da minha quebrada, passo pelas ruas do centro de São Paulo e vejo a mulecada os mais velhos na mesma ou na pior, saiu da cohab cedo pra ir trampa e vejo parceiros disiludidos sem fé no futuro só na fissura e adrenalina e quando volto anoite pra descansar estão na mesma,alguns ja chegaram a chorar pra mim porque não consiguiam larga a pedra e outros ja vieram tentar vender cd,s roupas tudo pela pedra,os caras mais velho que nas antigas fumavam a casquinha (pedra que eles faziam a base de cocaina)e já tinham parado voltaram a fumar a pedra só que sem ter o trabalho de fazer a casquinha, as vezesnão sei nem oque fala para um mano que cresceu comigo e hoje ta nessas, o pior que alastrou essa porra de pedra a um mês atrás estava na Bahia e em pleno pelorinho a mulecada estourava a pedrinha maldita,fui também numa cidade do interior de são paulo e os caras fumavam pedra com pinga mano inacreditavel,colo nas quebradas de são paulo e vejo que ta alastrado e sem controle a galera que fuma um baseado ta fumando mesclado e a quebrada ficando sem clima ou com clima obscuro e familias sendo destruidas e as comunidades perdendo guerreiros e guerreiras,sem controle mano,acho que só a pessoa mesmo pra sair dessa, depender do governo ou das facções é osso,e só quem provou a danada da pedra sabe que o bagulho é louco.sou o gilberto que tinha falado com vc a respeito do mano bronw no roda vida.Fimerza total guerreiro, paz.
O Governo de SP não controla porque isso é veneno de matar rato. Para se livrar dos miseráveis. (Tropa de) Elite fascista.
Wainer, como sempre, só elogios. As fotos tem a plasticidade que devem ter, me irrita muito a crítica de que foto de "coisa feia" tem que ser feia. As tuas provam que "o feio" pode ganhar até mais força se disfarçando de bonito, dourado. Quanto ao estado, cv e pcc, todos querem o mesmo, o ouro e se por ele for preciso ter o dourado da pedra no rosto de quem quer que seja, assim será. Mais rádios "piratas" são fechadas com a desculpa do tráfego aéreo, a comunidade é largada às moscas, sem nada que possa reverberar dentro dela, sobram R.R.Soares dizendo que falam a língua do povo e outros como ele surgem em véspera de eleição falando o que for pra ganhar voto.
Não gosto da minha teoria, mas quanto mais violento ficar o povo largado na rua e quanto mais caos levar a cada semáforo fechado, mais perto a sociedade estará de ser acordada a força, saindo da inércia de suas casas hermeticamente fechadas.
João.
Sei muito bem o que você passou.
Outro dia fui até lá com alguns amigos fazer um trabalho e passamos 3 horas de um sábado na cracolândia, que fica próximo à minha casa.
A porta do inferno realmente existe e causa calafrios. No meio do caos conheci uma menina doce e gentil que se chamava Jennifer. Conversamos muito e era incrível ver uma menina (anjo) no meio do inferno, será uma esperança? Foi uma experiência incrível poder trocar um pouco com essas pessoas, e perceber que aquele, do lado, vive. Como podemos deixar isso acontecer? Ao menos deixamos um pouco de arte (suspiro) lá... te envio as fotos. beijos ale.
saudade dos seus textos.
bj
Salve, salve parceiro!
Gostei muito da sua matéria, acho que é de extrema importancia mostrarmos a realidade das ruas pra sociedade.
Durante dez anos convivi diretamente com toda essa destruição, fui envolvido diretamente com o crime por todos esse anos, tirei uns dias e acompanhei na rua e na cadeia o dia a dia vivido por quem é envolvido com o crime, o tráfico e as drogas, é muito sofrimento irmão.Só quem vive pra saber.
Sabe que tem muita gente que deseja abandonar tudo isso mas não consegue encontrar forças pra achar um caminho novo.
Acho maravilhoso o trabalho de pessoas como vc, que se dispoe a gastar seu tempo conhecendo essas pessoas que estão a margem da sociedade, as vezes esquecidas por todos, jogados como lixo, vivendo sem perspectiva alguma de vida.
Parabens pelo seu trabalho!
Graças a Deus, e a pessoas como vc consegui achar forças pra abandonar o crime e começar um novo caminho.
Parabens parceiro!
PARABÉNS... estou usando parte disso em meu trabalho escolar...
MUITO BOM!!
parabéns... fantástico!
LUCIANI;*
velho,
nem lembro mais como cheguei ao seu site. Eu moro nessa região há dez anos, e sinceramente isso não vai acabar nunca. Vão morrer todos, todos vão apodrecer até o fim nas ruas. Revitalização do Centro faz-me rir...essa é a triste realidade do Centro de SP...
muito boa essa materia
o problema da cracolândia é o dono
da boca ,q a policia nunca prende.
ou não quer prende .eu não acredito
q a policia não sabe quem é ...
a boca com serteza é abastecida as
drogas não vão voando alguem leva.
o crak é a droga do demonio +não é
ele q leva lá e nem é o dono.
são vendida + de 1000 mil pedra
por dia então tem q chegar dois
paralelepipado por semana.
quem tras ,como e quem é o dono ?
se um reporte conseguir faser uma
materia dessas vai ser uma materia
fenomenal....
Excelente!!!!Nao fazendo apologia ao pcc ou ao cm,mais os doistem mais poder do que os governantes,o pcc manda em sao paulo,manda fechar o comercio e todos fecham,se alguem eh pego vendendo crack onde eh proibido punição na certa.
Fizeram faculdade no crime.
E hj exercem suas funções.
ainda bem qui eu só uso maconha :D
Pedra é instrumento do capeta
te transforma !
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