Já fazia vários quarteirões que eu não via mais nenhum branco nas ruas de Tivoli, periferia de Kingston na Jamaica. Feriado em qualquer quebrada do mundo significa rua cheia, e aqui não poderia ser diferente. Periferia é parecida em qualquer lugar. Pequenos comércios, imagens do imperdor etíope Halie Selassie entre casas construídas com pedaços de outdoors e arame farpado. Poderia ser São Paulo, Soweto, Caracas ou Bogotá, mas é Kingston. Ruas de terra alternadas com as de asfalto esburacado. As cores da bandeira da Etiópia, vermelho, amarelo e verde nas roupas e paredes. “Se você estiver usando essas cores, nada de ruim te acontece” me garantiu um rastaman com dreads na altura do joelho.
Nessa gincana maluca que tem sido a minha vida, a missão do dia era registrar o lendário baile “pasa-pasa” e a dança em que os jamaicanos simulam sexo nas pista. Estou trabalhando como cinegrafista de um documentário pra MTV, carrego nas costas todo equipo de vídeo e áudio, mas deixo a câmera fotográfica sempre por perto.
Ao chegar devemos procurar o patrão local, um cara chamado Justin que estaria nos esperando. É ele quem manda aqui e dizem que ninguém é louco de desobedece-lo.
Não existe branco na Jamaica. Na verdade existem mas não passam de meia-dúzia. A ilha que já pertenceu a espanhóis e ingleses foi as urnas ontem para eleger seus próximos governantes e eleições deixam o clima tenso em qualquer lugar. A vitória apertada do partido JLP quebrou uma hegemonia de 20 anos do seu principal concorrente, o PNP. Os dois partidos são a mesma merda, corruptos até o osso, negociam votos por 3 dólares na favela e cagam para o povo mas são idolatrados nas ruas como os times de futebol. Criminalidade comum se mistura com política. Tivoli é área do JLP, o patrão mandou avisar que todos tem que estar felizes com a vitória. E todos realmente estão.
Estacionamos a poucos metros da festa. De longe lembrava um baile funk carioca. Paredes de caixa de som e DJs numa rua de favela. Mais de perto vi cerca de trezentas pessoas que dançavam entre os carros que continuavam passando. Ao invés de atoladinha, dance hall de prima com pitadas de hip hop e reggae culture. Música boa e roupas apertadas nas mulheres que desfilavam sobre o asfalto seus cabelos exóticos, roupas coloridas, dread locks, tranças e cultura rastafári. O DJ anuncia a musica “Afrikan Queen”. Nada mais apropriado para o momento.
O perfume doce de maconha boa é onipresente e rastamans caminham vendendo verdadeiros buquês de Ganja, seda e isqueiro. Na Jamaica não se divide baseado. Cada um enrola, acende e fuma o seu próprio beque. Apesar de proibido por lei, fumar maconha é cultural aqui, um ritual religioso para os rástafaris e todos fumam livremente nas ruas.
O baile começa às quatro da manhã e vai até o meio-dia. Fui chegando devagar e logo na entrada tomei um enquadro de dois caras estilo gangsta, com roupas largas e correntes de ouro. Conversamos e eu disse que estava autorizado pelo Justin. O nome de um dos caras que me enquadrou era Dylan e era ele quem estava pilotando a quebrada na ausência do Justin. Disse que não ia autorizar gravação nenhuma antes de falar com o próprio, e o feladaputa do Justin tinha sumido com uma mina.
Senti um aperto indescritível no coração por estar naquele lugar sensacional e não poder gravar. O baile acontece todas quarta-feira mas vou embora domingo. Era a única chance. Tentamos tudo, mas o cara estava irredutível: não íamos gravar e pronto.
Num reflexo, atordoando Dylan de tanto insistir, dei a ultima e despretensiosa cartada. “E fotografar, pode?” perguntei. “Fotografar tudo bem” respondeu ele pra minha surpresa me trazendo de volta ao rosto o sorriso. A única condição era fotografar só um dos lados da rua. Pra quem não tinha nada, aquela proposta parecia sensacional.
Finalmente entrei no baile. Dei dois tapas num baseadão que passou pela minha frente comecei a clicar. Parecia uma maquina do tempo. Me senti nos anos 70. Lembrei dos Racionais, dos negros reunidos no viaduto do Chá em São Paulo, da “Chic Show” e “Clube da Cidade”. Era a mesma vibe, vários negros dançando muito, roupas incríveis, calças boca de sino, cabelo black e plataformas misturadas com correntes pulseiras anéis e relógios no melhor estilo “50 cent” que davam um toque de modernidade àquele flashback. Música boa rolando, maconha a vontade, mulheres bonitas e todo mundo feliz numa espécie de Jardim do Éden negro.
O dia amanhece. Quanto mais claro mais gente dança. Parecia que esperavam o primeiro raio de sol para se soltarem. Duas meninas atravessam a rua e finalmente começam a dança erótica que tornou o “pasa-pasa” famoso no mundo. Mulheres enlouquecidas dançavam com a mão na buceta como se estivessem se masturbando. Formavam pares e simulavam posições sexuais. Tudo feito com movimentos rápidos e bem ensaiados. Gritos de tesão são permitidos e estimulados. O DJ grita palavras de ordem em “patuá” dialeto local que se mistura com o inglês o tempo todo. É o ápice da festa.
A dança não tem um nome, tem vários. “Hot Fuck” é um dos mais conhecidos. É literalmente a “dança do acasalamento” jamaicano. Sexo com roupas. Mais precisamente uma orgia devido a quantidade de pessoas envolvidas. Mulheres trocam de parceiro simulando um gang bang. Sorrisos brotam nos rostos negros enquanto dançam. Todos parecem estar se divertindo muito com aquilo.
Apesar da aparente promiscuidade, os jamaicanos encaram isso apenas como uma dança. No final da noite cada um vai pra sua casa. Não vi beijos, amassos nem nada entre os dançarinos depois da festa. Dizem que dentro de cada Jamaicano existem duas pessoas, um pervertido e um puritano. Enquanto eles simulam sexo nas festas, o homossexualismo é proibido pela constituição e quase toda a população é favorável a manutenção dessa lei. Jamaicano fala alto, gosta de armas, buzina no transito até pra ficar parado e quando conversam em patuá/inglês parecem estar sempre brigando.
A Jamaica é um lugar bem louco, uma ilha negra de doidos, vibrante, cheia de cultura e pobreza. Cultura própria que vem sendo engolida pela norte-americana através de seus canais a cabo. Pobreza cada vez maior e mais escondida dos turistas que chegam e vão direto para os resorts e spas cinco estrelas sem se dar conta do tanto que poderiam aprender com uma simples caminhada pelas ruas nervosas de Kingston.
6 comentários:
Parabéns! Vc escreve, descreve e inspira muito bem!
Opa, não conhecia o blogue. Bacana pra caramba.
abração
bom demais, joão! texto e fotos!
abraço!
excelente, excelente...
Sou teu fã, rapaz!!! Parabésn pelo excelente trabalho e pelos pontos de vista sempre coerentes!
Grande abraço!
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sem palavras...
"tudo, tudo, tudo igual, kingston, bronks ou baixada"
realidade crua, a flor da pele
Muito bom...
Um abraço e parabens meu velho
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