




Toda fronteira é casca-grossa, não importa qual. Conheci algumas e ouvi histórias pesadas em todas. Estou em Ciudad Juarez, fronteira seca do México com os EUA e essa é a pior.
É uma cidade grande, 1,5 milhão de habitantes com um objetivo comum - atravessar a fronteira. Ninguém está ali por que quer, apenas porque ainda não conseguiu passar para o outro lado. Uma cerca de arame vigiada por viaturas e helicópteros americanos divide os dois países. No melhor estilo Tom & Jerry, escondidos atrás de arbustos, mexicanos esperam o melhor momento para dar o bote enquanto do outro lado, policiais tipo Charles Bronson se preparam para derrubar o próximo mexicano.
Juarez é uma cidade com semblante infeliz embaixo dos chapéus de cowboy "a la Brockback Mountain". Uma cidade de derrotados que a todo instante enxerga do outro lado da cerca os edifícios enormes dos vitoriosos de El Paso, no Texas.
Nesse cenário confuso, uma nova mania tomou conta da cidade: feminicídio, ou seja, matança de mulheres.
Foram mais de trezentas assassinadas num período de um ano. Eram atacadas nas madrugadas, quando saiam de bares, boates ou quando iam para o trabalho antes do sol nascer. Logo eram encontradas mortas e estupradas em matagais.
As autoridades ao invés de tentar conter a matança, estimularam os criminosos, encobrindo pistas e prendendo inocentes. O prefeito afirmou que as mulheres que foram assassinadas mereceram morrer, porque se vestiam de forma provocante. Lançou uma campanha que dizia “Seja homem, cuide da sua mulher” e decretou toque de recolher na cidade, impedindo que os cidadãos circulem nas ruas depois das 23:00h. Lembrei da série de reportagens que fiz na fronteira do Brasil com o Paraguai ao lado de Rubens Valente sobre assassinatos em série. Assim como aqui, nenhum crime jamais foi sequer investigado, e se depender dos barões da fronteira, nunca será. Brasil e México são iguais em algumas coisas.
Encontramos Juanita numa casa na periferia de Juarez. Seu, olhar deixava claro que a história que ela iria contar não seria boa. Ela teve uma filha assassinada na cidade. “Pedi pra minha filha ir comprar pão e nunca mais a vi. Rezei muito para encontra-la viva mas já estava morta. Fui a policia dar queixa e eles disseram que eu e meu marido tínhamos matado a menina a pauladas e meu marido ficou preso. Parei de acreditar na Virgem de Guadalupe e não saio de casa desde então” disse com lágrimas de dor nos olhos.
Machismo vale mais que lei em Ciudad Juarez. Aqui pode tudo, desde que seja contra sua mulher. O que dizem pelas ruas, é que houveram assassinatos em série, mas que a maioria são crimes comuns inspirados pela impunidade e pela possibilidade de atribuir a autoria aos serial killers. Alguns afiirmam que muitas foram assassinadas e estupradas para se tornarem estrelas de filmes bizarros com assassinatos e estupros reais na internet.
Virou moda matar mulher. Tá infeliz, mata ela e põe na conta dos caras, diriam nos botecos os machos bigodudos entre goles de tequila, tortillas apimentadas e guacamole. Um psicólogo ajudaria a explicar porque na cidade dos derrotados gostam tanto de maltratar as mulheres.
Ninguém aqui tem esperança de que isso se resolva. O caso já fez muito barulho na mídia. Fizeram um filme em Hollywood sobre as mulheres de Juarez com a Jennifer Lopez e a Penélope Cruz e nem assim as autoridades se mexeram.
Juarez é um caso perdido, um fim de mundo onde uma cerca de arame farpado separa os vencedores dos perdedores.
Fronteiras são assim em todo lugar, alguém mata e basta atravessar uma rua para estar livre. Por elas passam drogas, contrabando, armas e tudo de podre que a corrupção pode comprar. Compõe o cenário perfeito para um mecanismo viciado que tem como base uma equação explosiva como dinamite. E pelas ruas empoeiradas das fronteiras, não faltam candidatos dispostos a acender o pavio.
8 comentários:
grande texto, joão. você não sabe como eu gosto de ler os seus relatos, por mais triste que seja o assunto. espero que corra tudo bem com você aí. bj
Eh Tranca!!!
triste. muito triste.
Uau...
Não conhecia essa maravilha..
MAravilha das mais loucas..
Texto muito bom, apesar de estupidamente triste.
beijo pra vc.
=]
Isso que eu chamo de buraco dos infernos.
Sensacional. Um salve
Tem coisas que não mudam, e ainda bem que isso acontece, como os textos do João, continuam ótimos e instigantes...
Ao lê-lo, muitas coisas me incomodam, uma em especial me chama atenção: o binarismo, vencedor X perdedor. Juarez, uma cidade cruel e infeliz porque vivi a sombra do vencedor? Talvez seja esse o problema, ao invés de criar o seu mundo,Juarez tentando reproduzir o mundo alheio.A frustação inevitável é transformada em horror.
Se me permitem uma especulação,ao se olharem e se defrontarem como sombras, os homens deixam sua marca de identidade,de poder, expressas pela violência na mulheres, aí qto mais horror melhor mais "homens" são.
Oi,Boa noite!
Acabei de ver o filme a cidade do silêncio.Isso me chocou muito,
achei seu blog,quando estava fazendo uma pesquisa sobre a cidade.
Acho que se as autoridades não tomam uma providencia as mulheres de juárez deveriam se juntar para pelo menos se protegerem,se uma cuidar da outra talvez diminua esse horror.
Boa sorte em sua jornada
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