22/07/07

"OBITUARIO CON HURRAS"








“Los canallas viven mucho, pero algún dia se mueren"

O ex-dono da Bahia Antonio Carlos Magalhães morreu nesta sexta-feira pela manhã. Em Salvador, o clima é de luto como se houvesse morrido um santo. O ditador velado que dominou a Bahia durante toda a vida morreu em São Paulo e seu corpo foi trazido em um avião da FAB para seu estado natal.
No Palácio da Aclamação, milhares de pessoas fizeram fila para entrar e dar adeus a um dos políticos mais nocivos que o pais já produziu. Pelo lado direito do caixão, passavam os pobres e pelo esquerdo os ricos. De um lado o cheiro de perfume das madames, os ternos Armani, as bolsas Prada e as lágrimas falsas. Do outro, o cheiro de suor, sinceridade e lágrimas do povo humilde, que chorava pelo homem que os enganou e usou para aumentar seu próprio poder durante toda carreira política.
Em Brasília, era um pitboy sem músculos. Folgado como todo baixinho, andava com o peito estufado, nariz empinado e, sempre cercado por seguranças, não pensava duas vezes antes de meter na cara de quem o enfrentasse a mesma mão que metia sem dó no dinheiro.
“Hay gobierno, soy a favor”, deveria ser o lema do cara que apoiou ferozmente a ditadura e quando viu que o barco estava afundando saltou para o lado da democracia. Esteve ao lado de todo mundo que teve poder: Sarney, Collor, Itamar, FHC e como vinha com as costas cheias dos votos de cabresto que o transformaram em rei da Bahia, era aceito por todos, até mesmo por Lula que para a vergonha geral da nação andou de braços dados com ele durante seus dois mandatos.
ACM foi responsável por grandes realizações na Bahia, como seria a obrigação natural de qualquer político. Construiu para fortalecer seu feudo, seus interesses pessoais, aumentar seus votos e consequentemente seu poder político em Brasília.
Enquanto viveu, ACM coordenou um regime na Bahia onde quem o contrariava era enfrentado com ira e sempre perdia. Porém em 2006 pela primeira vez seu candidato foi derrotado na eleição para o governo da Bahia sinalizando o começo do fim de uma era em um dos estados mais importantes do pais.
No sábado de manhã ambos os lados do caixão continuavam cheios. Políticos chegavam de Brasília e o povão do interior. Muitos tiravam fotos do morto com o celular e guardavam como um souvenir macabro enquanto outros faziam performances em frente ao caixão. Fazendo jus ao ditado de que baiano não nasce, estréia, um homem cantou, uma mulher desmaiou, baianas de acarajé se debruçaram sobre o caixão, trouxeram fotos, cartazes, cartas, lembranças e depositaram flores sobre o caixão entre gritos de dor e urros teatrais.
Do lado esquerdo, Renan Calheiros, José Sarney, Aécio Neves, Sérgio Cabral, Marcelo Déda, Edison Lobão e outros tantos prestavam condolências a família cercados por dezenas de políticos de menor expressão que lutavam para aparecer na foto como papagaios de pirata. Do lado direito, crianças, pessoas descalças, idosos, deficientes físicos hippies, rastafaris e anões disputavam a atenção das câmeras com os políticos transformando o velório num grande espetáculo poliítco/midiático.
Em frente ao caixão, os candidatos naturais a sucessão ACM Junior e ACM Neto choravam copiosamente em frente ao corpo de ACM.
O presidente Lula teve o bom senso de não aparecer e foi representado pelo vice José Alencar, que causou tumulto ao entrar cercado por militares usando fardas com tantas medalhas e penduricalhos que pareciam saídas de um baile de carnaval ou de um filme sobre ditadores latino-americanos. Não entendo onde arrumam tantas condecorações por bravura num pais que nunca entrou em guerra.
Uma missa foi rezada, o caixão foi fechado e o corpo levado em carro dos bombeiros para o cemitério Campo Santo onde uma pequena multidão já o aguardava.
Sob aplausos e ao som do hino nacional, às 17:30 Antonio Carlos Magalhães foi enterrado, sua tumba foi lacrada com cimento e coberta por flores pondo fim ao símbolo maior do vergonhoso coronelismo no nordeste do Brasil.
Como finais felizes só acontecem em novelas, vários ACMs continuam por ai, em menor intensidade, com métodos diferentes e com menos destaque na política nacional mas mandando, desmandando e arrebanhando votos de cabresto em lugares esquecidos pela mídia e pelo governo.
A poesia de Mario Benedetti “Los canallas viven mucho, pero algún dia se mueren – Obiuário con Hurras” seria mais apropriada ao enterro do que o hino nacional.



Los canallas viven mucho, pero algún día se mueren

Obituario con hurras (*)

Vamos a festejarlo
vengan todos
los inocentes
los damnificados
los que gritan de noche
los que sueñan de dia
los que sufren el cuerpo
los que alojan fantasmas
los que pisan descalzos
los que blasfeman y arden
los pobres congelados
los que quieren a alguien
los que nunca se olvidan

vamos a festejarlo
vengan todos
el crápula se ha muerto
se acabó el alma negra
el ladrón
el cochino
se acabó para siempre

hurra
que vengan todos
vamos a festejarlo
a no decir
la muerte siempre lo borra todo
todo lo purifica
cualquier día
la muerte no borra nada
quedan siempre las cicatrices
hurra murió el cretino

vamos a festejarlo
a no llorar de vicio
que lloren sus iguales
y se traguen sus lágrimas
se acabó el monstruo prócer
se acabó para siempre

vamos a festejarlo
a no ponernos tibios
a no creer que éste
es un muerto cualquiera

vamos a festejarlo
a no volvernos flojos
a no olvidar que éste
es un muerto de mierda.

11 comentários:

Joana disse...

esta/estava aqui e nem avisou? deu mole. POOOOOOOXAAAA.

beijos, joana

Joana disse...

voce postou um poema sensacional, bem melhor que o hino mesmo

Lívia Condurú disse...

muito bom, textos e fotos, como sempre...
belo poema!

Sil Costanti disse...

aqui está! no Tranca Rua, a melhor cobertura do evento. Parabéns João!

maysa disse...

Parabéns pelas fotos e pelo texto. Publiquei uma delas no meu blog, com os devidos créditos claro! ;)

brunot disse...

foi tarde

Volumetria disse...

toda franqueza que o véio não tinha, esse obituário tem

Elisael disse...

João, passei a conhecê-lo um pouco depois que li uma entrevista sua na revista AREDE (julho/2007) e achei super interessante. Estou cursando o 3º Período do Curso Superior de Tecnologia em Design Gráfico, no CEFET CAMPOS DOS GOYTACAZES-RJ. Acabei me interessando muito pela disciplina Fotografia. Além das fotografias, gostei muito dos seus textos - imagens aliadas à uma aguçada consciência crítica. Parabéns! Elisael

Joana disse...

cadê tu, joao? to com saudade de seus textos. e fotos. beijo

Ricardo Rayol disse...

Sei lá, mas acho que o diabo deve estar muito do puto.

douglas disse...

Simplesmente fantastico!!!

Parabens pelo texto!!

Aplaudido de pé!