22/06/07

PINTARAM TUDO DE CINZA





Depois de passar um mês na Escócia grafitando um castelo medieval construído no ano de 1200, os irmãos Gustavo e Otávio Pandolfo, 33, conhecidos como Osgemeos e Karina Arcênio, Pandolfo, 30, a Nina, desembarcaram em São Paulo no sábado a tarde e sofreram um choque de realidade. A prefeitura da cidade que durante toda a vida foi para eles uma enorme tela em branco, onde desenvolveram o estilo que os levou para as principais galerias de arte de cidades como Nova York, Tóquio, Atenas, Paris, Milão, Berlin e Londres, hoje pinta de cinza sistematicamente os muros públicos grafitados pela dupla.
No domingo passado, ainda sob efeito do fuso-horário, Osgemeos e Nina juntaram-se a Ise e Coyo para grafitar muros da cidade como fazem desde 1987 quando deram seus primeiros passos na pintura de rua.
Nas pilastras do viaduto Antártica, na zona oeste, Osgemeos, desenharam uma série de cinco bonecos, Nina fez duas meninas com os cabelos ao vento enquanto Ise e Coyo escreveram seus nomes em letras estilizadas.
Os desenhos duraram menos de 16 horas na parede. Nem bem a tinta secou e na manhã seguinte funcionários da prefeitura pintaram as pilastras com tinta branca como fazem toda vez que um novo grafite aparece por lá. Este foi o sétimo grafite dos irmãos apagado pela prefeitura no mesmo local em quatro meses.
O secretário da coordenação das Subprefeituras de São Paulo Andréa Matarazzo, nega a perseguição aos grafites. "Não existe nenhuma política ou iniciativa nossa para cobertura de grafites, o que há é uma rotina de limpeza da cidade. Os muros e viadutos são pintados apenas quando estão muito sujos ou quando a população reclama”.
O grafiteiro Ise, porém, discorda “A gente sabe que grafite é uma coisa efêmera, mas uma coisa é ser apagado naturalmente e outra é uma campanha pública anti-grafite como vem claramente acontecendo” reclama.
Outros grafiteiros engrossam o coro dos descontentes. Finok, 21, teve tantas obras apagadas que pensou em parar de pintar na rua. “A prefeitura deveria gastar esse dinheiro com coisas mais importantes como saúde e educação” ataca.
Em reação aos muros apagados, alguns grafiteiros escreveram junto a seus desenhos frases de protesto contra o prefeito. Em uma parede da Vila Mariana, Iaco escreveu: “Prefeito Vagabundo”, enquanto perto dali um outro desenho simbolizava uma manifestação com faixas onde lia-se “Kassa ao Kassab”.
Um dos sócios da galeria Choque Cultural, Baixo Rodrigues, 41, considera “censura artística” a ação da prefeitura e acredita que o governo municipal não tem noção do valor artístico e nem monetário das obras que apagam. “ O valor dos artistas é dado pelo mercado, pelos museus, e os grafiteiros brasileiros são considerados no mercado internacional como alguns dos melhores do mundo. Esses grafites que estão sendo apagados são uma doação do artista para a cidade e tem que ser tratados como patrimônio artístico”. O secretário Andréa Matarazzo confirma a desinformação: "Não sabemos o valor do grafite, nem imagino que ninguém na prefeitura saiba”.
O prefeito Gilberto Kassab deve sancionar em breve o projeto de lei aprovado pela câmara municipal que institui o programa anti-pichação, que coloca no mesmo patamar e permite que a prefeitura apague, mesmo em imóveis particulares, grafites e pichações. “Não existe definição mesmo entre o que é grafite e o que é pichação no projeto de lei. Eu acredito que pichação são aqueles rabiscos ou hieróglifos. O grafite tem uma forma, um desenho e não degradam tanto o ambiente" completa o secretário.
Enquanto a prefeitura apaga, outros contratam os mesmos artistas a peso de ouro. A escocesa Alice Boyle, filha do Lord de Glasgow Patrick Boyle, que convidou Osgemeos, Nunca e Nina para grafitarem o castelo medieval de sua família em Kelburn (checar), na Escócia, diz que qualquer cidade da Europa adoraria ter em suas paredes desenhos de artistas como eles. “É um privilégio você poder andar na rua e ver trabalhos com tanta qualidade. O povo não precisa ir as galerias para poder apreciar desenhos tão bonitos. Sempre ouvi falar dos grafites de São Paulo e acho que pintando-os de cinza o prefeito está impedindo uma ótima oportunidade de turismo para a cidade”.
No ano passado, os grafiteiros brasileiros Kaboco, Speto, Titi Freak, Onesto, Boleta, Zezão, Highgraff e Fefe Talavera, ligados a galeria Choque Cultural expuseram na Jonathan Levine Gallery em Nova York o projeto “Ruas de São Paulo: A Survey of Brazilian Street Art”. Na galeria Fortes Vilaça em São Paulo, todas as obras foram vendidas na exposicão de Os gêmeos, que foi visitada por mais de 30 mil pessoas e formou filas que dobraram a esquina, batendo o recorde de visitação da galeria de arte.
As palavras do secretario Andréa Matarazzo, porém, vão na contra-mão do mercado. "Grafite que degrada o ambiente são dos da 23 de maio, por exemplo. Não combinam porque os viadutos tem uma cor, um jardim e isso interfere na paisagem. Os que não degradam tanto são os que estão nos pilares da Amaral Gurgel, por exemplo no Minhocão” diz ele sem especificar os critérios utilizados para essa diferenciação. "Agora, eles precisam saber que nem todo mundo precisa gostar desse tipo de arte e um cidadão pode não querer ter seu muro grafitado. É como alguém que não gosta de quadros em casa" completa o seretário.
Apesar das dificuldades, os grafiteiros seguem pintando nas ruas. “Desde que começamos a pintar, a prefeitura de São Paulo sempre apoiou o grafite. Graças a essa liberdade, conseguimos desenvolver nosso estilo, e pudemos viajar o mundo mostrando essa arte que foi criada nas paredes de paulistanas. Por mais que nossos trabalhos estejam nas galerias, nunca vamos desistir de pintar na rua. Essa é a verdadeira essência do grafite, e por mais que o novo prefeito apague, não vamos parar de mostrar para o povo de São Paulo nossa arte” dizem em coro irmãos Osgemeos.

11 comentários:

Joana disse...

já comecei um modesto catálogo do grafite em salvador; onde vejo um, fotografo. tem coisas que você precisa ver, joão. doeu no coração um dia desses, quando percebi ter adiado demais o registro de um dos melhores desenhos. hoje tambem tá encascado de tinta cinza.

Joana disse...

meus parabens pela FS#18

Júlio disse...

Parabens!! Esse blog me foi passado por um amigo e gostei muito das fotos e dos textos.

Leo Caobelli disse...
Esta postagem foi removida pelo autor.
brunot disse...

a capital mundial do pixo. ponto.
acho que necessitamos de revoluções. essas brigas pixo versus prefeitura valoriza ainda mais a arte de rua; não que eu seja a favor da repressão, mas quando a água bate na bunda acaba cutucando o criativo. uma questão de interpretação: pixadores e grafiteiros deveriam entender isso como uma guerra criativa, e acho que sempre entenderam. que continuem pixando!
ótimo texto, e as fotos nem comento. grande abraço!

Gabriela Quinália disse...

Acho que na realidade há uma ignorância visual crescente na maioria da massa, ninguém mais sabe olhar para as coisas corriqueiras, isso inclue as ruas! O povo anda olhando p/ baixo, fecham os vidros dos carros e esquecem de olhar para fora ou pro lado, ignorando até a si mesmo. A rua é marginal! Arte de rua é registro de vidas, de idéias! Não podemos viver sem olhar pros lados, mas outros cumprem apenas suas funções sem saber o que fazem, triste!

Leonardo disse...

Boa, Wainer!

Leonardo disse...

opa, é o Leo Wen aí acima...

Marcia disse...

acho q precisa alguem tentar explicar pro matarazzo e kassab a importancia dessa arte...de verdade, montar um grupo, tentar uma reuniao, talvez via secretaria da cultura, secret de turismo, que sao mais abertas...
acho interessante essa coisa de lutar contra o sistema, mas acho q o grafite ja amadureceu bastante, e devia ter seu espaço e respeito na cidade..

sector disse...

sampa sera sempre a mesma independente de cinza ou nao aceite isso como um desafio quem nao gosta de desafio,so tenho a dizer que as pinturas da cidade sao um incentivo a todos,so nao podemos parar porque eles parecem que nao param,força e muita tinta somos o que somos .....

IACO disse...

OI
SEM COMENTARIOS!!!!!!!!!!!
WWW.FOTOLOG.NET/IACO321
ORKUT*IACO