14/06/07

PANORAMA





Em poucos lugares dessa cidade desigual, o contraste entre riqueza e pobreza é tão visível quanto no Jardim Panorama. Essa pequena favela está encravada na beira do rio Pinheiros desde 1960 quando os engenheiros que construíram a Marginal ainda estavam no ginásio e tudo o que se via em volta era mato, bicho e lama.
Dona Maria Gomes, 65, uma das moradoras mais antigas da área, conta que pescava lambari para o almoço no hoje podre Rio Pinheiros e que seus filhos nadavam e brincavam entre capivaras e preás. "Toda essa rua ai era uma horta que eu tinha. As pessoas chegavam do norte passando dificuldade e eu fui dando um pedacinho da horta pra cada um até acabar. Hoje só sobraram os barracos" conta.
O tempo passou, o progresso chegou e grandes empresas cercaram o lugarejo. Prédios gigantes e modernos subiram rapidamente. Marcas famosas como Microsoft, Sul América, Nestle, Hilton, Mapfre, Terra e tantas outras pipocaram no alto dos arranha-céus enquanto a favela continuava ali, do mesmo jeito que sempre esteve.
Quarenta anos depois, o lugar que dona Maria escolheu para morar com o marido vai desaparecer.
Por volta das seis da manhã desta quarta-feira outra Maria, conhecida como das Neves, acordou com o barulho de marretadas na parede do seu barraco. O Shopping Cidade Jardim, mais novo empreendimento milionário vizinho à favela, está pagando quarenta mil reais para que os moradores deixem suas casas para que sejam demolidas.
Rico não gosta nem confia em pobre. O caminhão de mudança encosta de manhã em frente ao barraco, todos os móveis são colocados dentro dele e um grupo com marretas começa derrubar a casa em que moravam. Só então eles recebem o cheque com o dinheiro da indenização para que saiam andando sem olhar pra trás.
Grande parte dos moradores parece feliz com a mudança. Trocam um terreno invadido e sem documentos por um cheque que dá pra comprar uma casinha na quebrada, bem mais longe, mas com escritura no nome. Outros não gostaram tanto das mudanças, como o rapper Pablo, 19, que preferia ver o local urbanizado, as ruas asfaltadas, melhorias no sistema de esgoto, uma quadra e uma escola municipal na quebrada. “São tantos anos morando aqui que já temos o direito ao uso-capião“ afirma.
Mas ninguém pode contra o dinheiro. Muito menos quem não tem nenhum. O Shopping Cidade Jardim comprou o terreno onde a favela está instalada e, segundo sua assessoria de imprensa, eles estão sendo muito generosos ao indenizar os favelados, já que por serem donos da terra poderiam simplesmente pedir a reintegração de posse e expulsá-los dali embaixo de porrada, bala de borracha e bomba de gás. Me comoveu a bondade deles. Será que essas empresas gostariam de ver seu nome nos jornais associado a um massacre da policia pra cima de moradores que viviam ali desde a década de 60? Rico pensa com a calculadora e não com o cérebro. Ficou mais barato indenizar.
O lugar que ninguém queria quando a favela chegou virou área nobre, com vista para a Berrini, a Daslu e o Morumbi. O Jardim Panorama é a última favela que restou na região e agora vai desaparecer do mapa. Os ricos que vivem e trabalham por ali ficarão felizes, porque não vão mais ver da janela de seus escritórios aquela favela que tanto incomodava. Os milionários jogarão os favelados para onde seus olhos não alcançam, mas isso não impede que um dia qualquer no futuro, eles voltem encontra-los, com um uniforme de faxineiro e uma vassoura na mão ou uma pistola semi-automática engatilhada e apontada para sua testa.

10 comentários:

Leo Caobelli disse...

Além de não confiar e não gostar de pobre, rico agora até "se une" pra expulsar. Lembro que há pouco tempo, moradores de um conjunto de prédios de classe média colocaram fogo nas madeiras que seriam usadas por sem teto para construir barracos no terreno baldio próximo desse empreendimento. Ninguém foi preso por destruir o patrimônio alheio.
Quanto aos trabalhadores deles, preferem que o porteiro e a faxineira morem longe, bem longe, assim não podem ficar com os filhos por perto, preocupar-se com os afazeres da casa própria, muito menos ter vida... já que essa ultima é privilégio, uma vez que atualmentemais se faz sobreviver do que viver

Maroca disse...

Ih, velho. Leo Caobelli boa coisa não é. Gostei do seu blogue, nêgo. Tu fala de onde, hein? Vamos nos contactar. tem msn?

um beijo:
-Maroca.

Tiago disse...

como diria mano brown, "em são paulo deus é uma nota de cem". abraço.

bulanascumbuca disse...
Esta postagem foi removida pelo autor.
Joana disse...

40 mil chega a ser um consolo diante do que me sopraram, "reembolsos" de 5 mil por terra, casa e vida desses cidadãos.
outra boa dose de fumaça da rua em minha cara.

brunot disse...

ta na hora do "então mostra pra esses cú como é que faz!", aí quero ver se blindagem adianta.

Gabriela Quinália disse...

Muito bom seus textos, esse em especial realmente é de se pensar! Mas ainda acho que o cheque de 40 mil é melhor que apenas serem escorraçados do lugar! Gabi

Sil Costanti disse...

bacana seu texto aqui e no jornal. Parabéns pelo espaço que vc está conquistando. Espaço merecido!
Engraçado né João... aqui no Rio a "faxina" rola por conta desse Pan do c... assim mesmo sem nenhuma moral, até pior. Vc sabia que o nosso digníssimo Presidente vai até tranferir seu gabinete para o Rio no período do Pan? Não é inacreditável? Imagina o que virar isso aqui...

Anna Carolina Negri disse...

Fala João, q bom q te achei aqui! Agora virei mais vezes, já q vou te adicionar nos favoritos!!!
bjos!!!

Talita Virgínia disse...

Puta que pariu.
Sem comentários pra essas fotos.
É aquele tipo de foto que cala a boca e faz a gente sentir vergonha de ser "humano".

Sem palavras.