10/06/07

CLANDESTINO




Nas quebradas mais nervosas de São Paulo ninguém tem internet. As rádios piratas se transformaram no blog dos pobres. O som rachado do bom e velho radinho de pilha é onipresente nos bares, barracos, mercados, cadeias, puteiros e igrejas espalhadas por vielas e ruas de terra da perifa.
Numa casa simples com um boteco em baixo e vários quartos em cima, moram filho, mãe, pai, avó e uma pá de crianças. Tem também uns cachorros, uns passarinhos na gaiola, um retrato de Jesus na parede e um São Jorge no corredor.
No quarto do fundo, uma porta com a pintura descascada dá acesso a um pequeno estúdio de som. Ao atravessar aquela porta, entramos em um universo paralelo, onde sentado a frente de um microfone, uma mesa de som, um computador, um transmissor e um microfone enjoado, Thomas* inicia todos os dias as transmissões da sua rádio pirata mandando para os quatro cantos da cidade, seu recado, suas musicas favoritas e disparando feito metralhadora giratória suas idéias contra tudo e todos que lhe incomodam.
A chapa anda quente no morro. Nos últimos dias a Policia Federal e a Anatel vieram babando pra cima das rádios piratas depois que o aeroporto de São Paulo teve que ser fechado por causa de interferência na freqüência dos aviões. Fecharam mais de 100 desde o começo do ano e todo mundo que tem rádio, comunitária, clandestina, ilegal, ou pirata mesmo, suspendeu provisoriamente as transmissões com medo de ser rastreado e preso.
Thomas* não se preocupa. Manteve a rádio no ar e ainda me deu uma puta entrevista (sai na Revista da Folha deste domingo 10.06.07).
“Comunitário é o caralho, sou revolucionário” afirmou o clandestino-mor do dial, me dando de bandeja o titulo da matéria.
Ele não pleiteia a legalização, e parece confortável com a clandestinidade. Diz que pra conseguir uma concessão oficial, só mesmo ganhando duas vezes seguidas na Mega-Sena ou então se elegendo deputado federal. A maioria das concessões de freqüências de rádios pertencem a políticos. Muitos deles acumulam sozinhos dezenas delas. A troca de favores entre politicos é a moeda corrente em Brasília e essas concessões valem muito nessa hora.
Thomas* foi DJ por muitos anos e alia a seu conhecimento musical à experiência de quem cresceu em um dos bairros mais violentos da cidade pra tocar e falar exatamente o que a molecada gosta de ouvir. A audiência é alta. Todo mundo conhece a emissora e pira na programação. É a única que fala a língua deles e toca só o que gostam, sem enlatados ou jabá. Na rádio dele só toca Black Music de primeira. Enquanto estive lá, ouvi de Tim Maia a Marvin Gaye, passando por Lauryn Hill, Tupac, Racionais e Cassiano.
“Minha rádio é melhor que qualquer rádio grande, bato de frente eles. Os caras ficam putos porque tiro uma pá de ouvintes deles. Mas é isso o que eu quero. As oficiais pagam propina pra policia vir me tirar do ar, só que ninguém me encontra. Faço o bagulho bem feito” diz com a experiência de quem surfa os limites da pirataria desde muito tempo.
Seus transmissores são potentes. Ele os esconde no mato, bem longe de onde mora. “Se me rastrearem e chegarem no transmissor vão prender quem? Só se forem algemar os macacos” espeta.
Thomas sabe que transmissores vagabundos, feitos em fundo de quintal podem interferir em outras freqüências, mas duvida que essa tenha sido a causa do fechamento do aeroporto. “Os caras tem umas duzentas freqüências. Deu interferência em uma passa pra outra. É óbvio” dispara.
O técnico em comunicações Manoel Martins, 77, com seus quarenta anos de experiência no assunto diz que não é possível ter certeza de que as piratas foram responsáveis por fechar Congonhas. “Se não monitoraram as freqüência que causaram a interferência, como podem afirmar que foram as piratas? Sem provas isso não passa de uma suposição. Eles querem um bode expiatório para justificar o caos aéreo”.
Thomas* concorda e completa: “Se fosse assim o Bin Laden ia comprar transmissores de rádio ao invés de lança-foguetes pra derrubar avião”.
O fato é que os piratas viraram os inimigos numero um do ministro Hélio Costa, das Comunicações, que estuda maneiras de aumentar a pena dos clandestinos. Quer bota-los na cadeia e sufocar as radios que continuam em atividade com operações policiais rigorosas.
“Esse ramo é muito sujo. Tem um monte de rádio grande que opera no interior e paga propina pra Anatel deixar a freqüência deles livres em São Paulo, pra eles poderem pegar aqui também. Só tem pilantragem ali, e depois nós é que somos criminosos” denuncia Thomas*.
Infelizmente, a maioria das piratas está hoje na mão dos evangélicos, e muitas delas copiam o esquema mercenário das rádios oficiais, cobrando jabás e tudo mais.
Porém, no meio desse universo, várias rádios comunitárias e livres prestam um serviço inestimável a população. A periferia precisa se comunicar de qualquer maneira, e a Globo nunca dará o espaço que ela precisa.
As emissoras grandes hoje em dia tocam apenas as músicas de quem paga jabá. Subestimam o povo tratando-os como idiotas e deixando longe de seus programas qualquer sinal de inteligência. Enquanto isso as piratas falam com a população de igual pra igual, tocam o que eles querem ouvir e abrem seus microfones para quem quiser falar.
“A favela precisa se comunicar, não vamos parar nunca. A policia sabe que fechar rádio pirata não adianta, é igual a enxugar gelo. Você fecha uma e abrem outras dez.” decreta o pirata Thomas enquanto põe pra tocar aquela clássica do Sabotage, pra delírio dos ouvintes.

* nome fictício

9 comentários:

brunot disse...

"Piratas são eles. Nós não queremos o seu ouro."

. disse...
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. disse...

Pô João, virei teu fã, cara. Tudo aqui tá sensacional e ler e ver a tua reportagem hoje na revista foi de perder o fôlego. Força aí nesta toada! Min

Joana disse...

adorei!

Sil Costanti disse...

a sua saga valeu a pena né...
viu só? eh tranca!
beijo

Volumetria disse...

bela matéria; até furou Coti, que nunca conseguiu a proeza.

Leo Caobelli disse...
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Leo Caobelli disse...

Se tenho dois privilégios recentes a relatar são: ter publicado nessa mesma revista da folha alguns retratos interessantes (esteticamente) como o Dali e a Dietrich da paulista... e saber que no mês que vem (julho), vou poder ver teu trabalho mais de perto, dentro da foto da folha.
Desde os tempos da faculdade, integrando as cadeiras de comunicação comunitária, que tenho um respeito quase sacro às rádios piratas (como diria a Muda de Campinas "piratas são eles que querem o ouro!). Em duas situações ajudei a instrumentalizar comunidades desfavorecidas a utilizar de zines e rádios para ter maior poder de união e pressão nos governos vigentes, fossem estes da tendência que declaracem. Resultado, ambas foram fechadas pois as rádio, especialmente no sul - de onde venho - tem como concessionários políticos que se aproveitam do meio da radiodifusão para fazer eleitorado. Ou seja, para a grande maioria dos políticos, rádio pirata não rouba frequência, mas voto... e aí é mandar PM atrás de transmissor pra lacrar

Mill disse...

Muito bom meu camarada, e é isso temos que continuar pirateando, buscando fugir da alienação Global....

Um Abraço

Prazer conhecer seu blog