

Sexta-feira as energias se intensificam e todo mundo vai pra rua. Quando faz calor então... Naquela sexta tinha baile funk na favela da Grota, Complexo do Alemão. Esse baile ficou famoso quando o repórter da Globo Tim Lopes tentou entrar com uma câmera escondida e acabou esquartejado e queimado num buraco ali perto que os traficantes chamam de microondas. Não pretendo acabar assim. Estou sendo conduzido por gente de confiança e procuro imagens para um videoclipe de rap.
Uma rua estreita, uma parede de caixas de som e um palco formam o salão. Na entrada, dois meninos magros, de bermuda e sem camisa, armados com pistolas e fuzis AK-47 conduzem o movimento. “Tem de dez, de cinco, de três e de um” gritava um deles, equilibrando o baseado na boca quase infantil enquanto espalha alguns papelotes de cocaína sobre o capô de um Santana cinza.
A clientela chega, compra e muitas vezes cheira ali mesmo. Taxistas, moleques, tiozinhos, todo mundo procura a "caspa do capeta" embrulhada em papelotes. Moradores passam normalmente com suas crianças. Outros traficantes chegam de moto fazendo barulho. Os Fuzis estão pendurados nas costas e as pistolas encaixadas na bermuda. “Um fuzil não é ninguém, sem uma pistola, e a pistola não é ninguém sem um fuzil” diz o mano com a sabedoria precoce de quem aos dezesseis anos já participou de mais combates do que qualquer general do exército brasileiro.
O som rachado que sai das caixas levanta o público. “Se lembra dos momentos juntos que passamos e todos os carros da policia que a gente fuzilamos, eu de AR-15, você de tresoitão, vendendo cocaína lá no morro do igrejão” diz a letra do “proibidão” exaltando os donos do morro e seus soldados.
Latas de cerveja e batidas com cores estranhas são consumidas sem parar. Garotos exibem orgulhosos suas armas no meio da multidão. Parece que hoje tem mais fuzil do que normalmente.
Num boteco vejo três mesas de plástico juntas e cinco homens em volta delas. Com seus fuzis encostados ao lado, olham atentamente para mapas sobre as mesas e discutem algo que parecia muito sério. Um deles se levanta. Somos apresentados e ele olha fundo nos meus olhos, me cumprimenta com mão firme e se apresenta como o dono daquele morro.
Quero fotografar, e ele gentilmente diz não. Explica que esta noite eles estarão muito ocupados planejando uma invasão a Parada de Lucas, morro controlado por rivais do Terceiro Comando, e que será impossível termos a atenção devida da parte deles. Porém, faz questão que fiquemos para o baile como seus convidados pessoais.
Agora entendi porque tanto fuzil naquele dia. Bondes de outros morros vieram para o Alemão reforçar o exército para a invasão. Cada um dos homens naquela mesa era dono de um morro do Comando Vermelho e estavam traçando a estratégia de ataque. O dono volta pra reunião de cúpula e eu sigo para o baile. Guardei o equipamento no carro, peguei uma cerveja e fui pra festa.
O cheiro de maconha era onipresente e a cocaína consumida abertamente. Traficantes cheiravam pó sobre o cano das armas enquanto abraçavam e beijavam meninas de shortinho e cabelo molhado. Se divertiam antes da guerra. Aquela poderia ser a ultima cerveja, o último beijo e eles sabiam disso.
O dia estava perto de clarear e o álcool já fazia em mim algum efeito. Na entrada da favela, a boca ainda funcionava a plenos pulmões. A diferença se via apenas na fisionomia dos clientes, que mordiam os lábios e esbugalhavam os olhos de tão bicudos. Passei por eles e me despedi acenando a cabeça. Pelo jeito aquele baile ainda ia longe.
Fui pra casa e dormi quase a tarde inteira. Quando acordei dei um mergulho no Leblon. A água estava gelada mas o resto de sol compensava o frio. Só de noite, depois de jantar que liguei a TV. Vi o William Waack indignado no Jornal da Globo diziendo que Parada de Lucas tinha sido atacada e que foram mais de cinco horas de tiroteio. Era tanta bala que a policia se escondeu e deixou o pau comer. Doze pessoas morreram durante o confronto.
Apesar da artilharia pesada, o Comando Vermelho não conseguiu dominar Parada de Lucas. Trocaram tiros a manhã inteira e depois voltaram para casa.
Os jornais do dia seguinte venderam feito água, o governador deu entrevistas, sociólogos foram consultados, o presidente lamentou o fato, os mortos foram enterrados e na noite seguinte, todas as bocas de favela continuaram a funcionar normalmente.
8 comentários:
adorei "caspa do capeta".
e o texto, claro.
maravilhosas fotografias! quanto talento.
é realmente foda essa situação como vc mesmo falou tem moleque com 16 anos que já entrou em "combate" mais vezes q muito oficial do exército. E o pior é que não falta disposição pra essa galera. Eu realmente não vejo solução.
PRA TOMAR A FAVELA DE LUCAS TEM Q TE DISPOSIÇÃO, AKI NAUM É PRA QUALQUER UM!!!
É triste toda essa realidade!"Crianças"trocando brinquedos por armas!
A situação chegou a um ponto que se perdeu total contrale!
Tem que se investir mais em educação!
Mas é engraçado né?
Os bandidos são mais educados do que os policiais e olha que muito deles nunca frequentaram uma escola..
a vida hj em dia ta assim
e princinpalmente na grota o meu namorado e bandido e eu posso dizer!!
essa é a realidade de muitos ...
ainda mais aqui no rio de janeiro que é cercado por favelas .
Fino esse teu trabalho...
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