28/05/07

NADA MAIS QUE A VERDADE






O saudosismo bateu forte hoje cedo. É domingo, li os jornais “sérios” e senti uma saudade fudida do Notícias Populares, onde trabalhei por um curto e delicioso período.
Seria impensável hoje em dia imaginar um editor-chefe submetendo a manchete do dia à aprovação dos contínuos, uma reunião de pauta em que jornalistas resolvem inventar a cascata do nascimento de um bebê com chifres e rabo ou que decidam fotografar uma mulher nua num frigorífico para falar sobre o aumento do preço da carne.
As manchetes do NP eram geniais. Pérolas como “Bicha põe rosquinha no seguro”, “Aumento de merda na poupança”, “Broxa torra o pênis na tomada” e “A morte não usa calcinha” semeavam diariamente o imaginário popular.
Pequenas aglomerações se formavam ao redor das primeiras páginas penduradas nas bancas do centro e sorrisos eram naturalmente arrancados de quem as lia. Ninguém passava batido a uma capa do NP.
O clima na redação era da mais pura diversão e na reunião de pauta as idéias mais absurdas eram sugeridas com a naturalidade de quem toma um copo de água. Quanto mais surreal melhor.
Num dos cantos a TV estava sempre ligada e todo mundo parava o que fosse quando começava o programa do Chaves. As gargalhadas eram ouvidas de longe enquanto putas e travestis que eram fotografadas nuas numa salinha anexa circulavam com suas micro-saias entre as mesas dos repórteres.
O fechamento era às 23:00h e a partir de então a redação começava a se esvaziar. O ultimo que saia desligava a TV e o barulho diminuía até atingir o silêncio total. Depois da meia-noite, quando tudo se acalmava, o velho repórter Hélio Santos abria a porta com a pele clara de quem não conhece o dia e seus cabelos brancos encrespados. Chegava para fazer o que fazia há trinta anos: mergulhar na madrugada violenta de São Paulo em busca de homicídios, chacinas, latrocínios ou qualquer outra história bizarra dessas que acontecem naturalmente por aqui.
Seus companheiros de ronda eram o fotógrafo José Maria da Silva e o motorista Zé Carlos. Juntos formavam um trio que via coisas tão absurdas que achavam melhor nem comentar. Ninguém acreditaria mesmo.
Encontrei num caderno velho anotações que fiz em uma das noites que saí com o Hélio para a ronda, cobrindo férias do Zé Maria. Reproduzo aqui alguns trechos:
“Saímos da redação à meia-noite já com a informação de que havia um morto no Jardim Santa Lúcia, zona sul da cidade, corpo no local. Uma pequena viagem nos leva até uma viela sem movimento onde avista-se apenas um bar, uma luz e um corpo no chão. Mais de perto uma viatura da PM guarda o cadáver enquanto o IML não chega. Helio se identifica ao policial com a frieza de quem faz isso a anos e entrega uma edição recém impressa do jornal do dia seguinte como um passaporte para começar a trabalhar.
Pedi autorização para fotografar, tirei o pano que cobria o corpo e comecei a clicar.
A cena é assustadora. O sangue escorria pela boca, e por trás da cabeça. O rosto estava levemente desfigurado em decorrência dos tiros na cara.
O nome da vítima é Laércio Dias da Silva, tem 28 anos e é caminhoneiro. A dona do bar diz que não viu nada. Havia se agachado para pegar uma cerveja no freezer e quando se levantou o rapaz já estava morto. Olho para o Hélio e fingimos acreditar. Ninguém nunca vê nada. É o parágrafo primeiro da lei da favela.
Um freguês do bar chegou já bêbado e ignorou o morto. Saltou sobre o cadáver, encostou no balcão e pediu uma dose de pinga exatamente como fazia todos os dias. O PM fez de conta que não viu e a dona do bar o serviu. O show tem que continuar.
O celular do Hélio tocou mais uma vez. Do outro lado da linha um policial informa nova ocorrência. Dois homens baleados, um deles ainda está vivo. Foi socorrido e levado ao PS em estado grave. O outro morreu na hora, corpo no local. A região, para variar é a zona sul, o bairro é o Jardim Santa Cruz e a página do guia de ruas que usamos para nos localizar é a mesma do primeiro homicídio da noite. Rotina macabra.
Chegamos em minutos. O procedimento é o mesmo, as perguntas também. A vítima era um guarda noturno. Na gíria policial eles são conhecidos como “pirriú” por causa do apito que assopram a noite inteira. O nome dele é Pedro Lourenço dos Santos, 48 anos e foi assassinado quando voltava do velório de um colega que havia morrido na terça-feira anterior.
O IML não costuma chegar muito cedo. Dez ou doze horas de atraso são consideradas normais na periferia. O morto está caído em frente a uma escola municipal e provavelmente amanhã, quando as crianças chegarem para estudar o cadáver ainda estará lá. O pior é que elas não se assustarão. É apenas mais um morto, elas já viram vários, não será o último, a vida segue.
Trabalho feito, vamos embora direto para o bar Estadão, tomar café e comer sanduíche de pernil antes de voltar pra casa.
Essa foi uma noite comum para o experiente repórter Helio Santos. Não aconteceu nada além do previsto, nada fora do normal”.
Naquele dia pessoas morreram na periferia de São Paulo exatamente como morrem todos os dias.
Na manhã seguinte, além das cascatas, bizarrices e matérias bem humoradas, o NP estava nas bancas noticiando as mortes de Laércio e Pedro.
Na periferia de São Paulo, até hoje as pessoas continuam morrendo da mesma maneira. O jornal acusado de banalizar a violência deixou de existir em 2001 e a violência hoje é tão banal, que nem sai mais no jornal.

9 comentários:

Joana disse...

nada mais que a verdade

Volumetria disse...

digo mais: ainda que saísse no jornal, numa notinha burocrática como costuma sair, eu nem teria lido. Mas aqui, assim, em narrativa, a verdade seduz sem sensacionalismo nem burocracia.

Tiago disse...

final glorioso pros que se foram sem nada e por nada, provavelmente. abraço.

decio g. disse...

a respeito do que "volumetria" comentou, não existe "notinha burocrática que costuma sair". ninguém liga para as mais de 50 pessoas que são mortas violentamente das 20h da sexta às 8h de segunda só no município de São Paulo. será que todos eles são bandidos? óbvio que não. nessas dezenas de casos têm desgraça que não acaba mais... O NP noticiava esses dramas. Com o fim do jornal, os outros populares também andaram pra trás e hoje nem têm ronda na madrugada. A Folha continua com seu perfil escroto, de ligar apenas para o que acontece nos Jardins (para eles é mais importante uma tentativa de furto de coleira de poodle na Oscar Freire do que a morte de jovens inocentes no Capão). Vale lembrar também que na época do NP, o pauteiro da Folha de S. Paulo telefonava para a ronda do NP (os jornais pertenciam a mesma empresa) e perguntava como estavam as coisas na cidade (época que nem havia internet...) -- deixava claro, porém, que não se interessava por nada que acontecesse na periferia (como se o ser humano do Terminal Capelinha fosse outra espécie em relação ao animal que baba no travesseiro no Jardim Europa). E por menor que fosse a nota de crime que saísse no NP (na coluna que se chamava B.O.) -- afinal de contas não dava pra fazer matéria grande de 50 crimes em um jornal que a editoria "Geral" tinha 5 páginas -- aquela notinha servia como instrumento para a família do morto ir à delegacia cobrar empenho da polícia na investigação que, claro, também não tinha (e não tem até hoje) a menor condição de solucionar nem uma mínima parte dos crimes paulistanos (muito menos os que envolvem gente pobre). E por mais burocrática e espremida que fosse uma notinha no B.O. do NP aquelas magras linhas serviam quase como uma homenagem ao morto -- uma simples menção de alguém que não teve a devida atenção de ninguém, nem durante a vida, nem na hora de abotoar o paletó de madeira.
saúde,
decio g.

brunot disse...

os mortos só parecem tangíveis quando estão próximo ao nosso sangue, ou parente.
o resto vira número.

a verdade dói.

Joana disse...

linkei o tranca rua pro meu blog, certo? bj

Joana disse...

posta mais coisas!!

jonas disse...

sefodê!
o melhor blog em anos.

Anônimo disse...

Aprendi muito