

Acordei muito cedo de uma noite mal dormida naquela quinta feira. Eram cinco e meia da manhã e meu corpo ainda sofria da ressaca de cinco viagens consecutivas em quinze dias. O Papa Bento XVI está na cidade e para o jornal que trabalho essa é a pauta mais importante do ano. Estou credenciado para fotografar o encontro do alemão com o presidente Lula e o governador José Serra no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista nesta manhã.
O esquema de segurança é exagerado. São mais de dez mil homens pra garantir a segurança de um só. Policia Civil, Policia Militar, Policia Federal, Guarda Civil Metropolitana, Policia do Exército, ABIN e mais um monte de caras de terno preto e fone de ouvido circulando pela casa entre Q.A.Ps e Q.R.Us.
Se o Papa, que é teoricamente o cara mais próximo de Deus na terra precisa de tanta segurança, isso significa que os pecadores como nós estão mesmo fudidos por aqui.
Pensei em todos os crimes absurdos que a policia brasileira cometeu desde sua fundação, e tentei em vão calcular entre os dez mil, o numero de policiais bandidos que hoje fazem a “segurança” papal. Os mesmos que sábado espancavam e jogavam bombas sobre famílias inteiras no show dos Racionais na Sé hoje sorriem e até assustam de tão educados. Em seguida lembrei de todos os crimes que a igreja católica também cometeu desde a sua fundação, da inquisição, suas fogueiras e guerras santas. Relaxei e percebi que estava tudo em família.
Mas essa segurança espalhafatosa não tem nada de perfeita. Peguei minha credencial no Anhembi, onde fica o Media Center Papal as seis da manhã, que era o horário combinado, e fui para a fila do ônibus que levaria todos os repórteres, fotógrafos e cinegrafistas para o local do encontro. Todas as bolsas e equipamentos passaram por uma máquina de Raio-X móvel instalada em um furgão, mas nenhum dos cerca de cento e cinqüenta jornalistas que entrou naqueles ônibus foi revistado ou passou por detector de metais. Estava frio e eu vestia um casaco preto bem largo. Embaixo dele eu poderia estar carregando pistolas, granadas, explosivos, facas, espadas, zarabatanas, estilingues ou qualquer outro tipo de arma que se pode levar junto ao corpo num dia frio.
Fomos posicionados em um palanque a cerca de dois metros e meio de um tapete vermelho onde o Papa passaria. Havia gente do mundo inteiro, fotógrafos e cinegrafistas de veículos grandes, mas também de jornais ou agencias desconhecidas. Qualquer um daqueles cento e cinqüenta poderia estar armado. Qualquer um deles poderia matar o Papa, o presidente ou o governador. Eu também.
Peguei um lugar bom, bem na frente, o mais perto possível do tapete vermelho. Estava tão perto de onde o alemão passaria, que troquei a tele-objetiva (aquela lente comprida que vai buscar o assunto lá longe) por uma grande angular (lente bem aberta). Sentei no chão, câmera na mão, e esperei com calma a chegada do pontífice.
Três helicópteros do exército voando baixo avisavam que Bento estava na área. “The Pope is in the house” diria o MC se houvesse um conduzindo a festa.
Parecia um filme. Ao lado do presidente e do governador, o Papa desceu do mercedes-benz cinza blindado e passou de peito aberto a cerca de dois metros e meio de um monte de caras que não foram revistados. Parou e posou para fotos acenando a mão. Passou tão perto de mim que pude até sentir o cheiro de enxofre que ele exalava.
Se eu quisesse e soubesse atirar, daria tempo de mirar com calma e dar um pipoco preciso bem na testa do pontífice. Se eu tivesse uma granada então, não precisava nem saber atirar. Matava numa tacada só o Papa, o Lula e de brinde ainda mandava pro céu o Serra e um monte de caras de terno preto que estavam perto. Com tanto meganha em volta, confesso que se eu matasse os caras não escaparia nem fudendo, mas entrava pra história direto, sem escalas.
O Papa Bento XVI foi embora bem vivo, apesar daquela cara de morto, e eu fiquei ali parado, impressionado com a imprudência da policia paulista. No dia seguinte a cobertura continuou e a máquina de Raio X que a Policia Civil de São Paulo mantinha no Anhembi parou de funcionar. A partir de então nem as mochilas das equipes de TV e jornais eram mais revistadas.
Fiquei pensando em como seria fácil matar o Papa se eu quisesse. A sorte de Bento XVI é que eu nunca quis entrar pra história.
10 comentários:
lastimável. todo mundo reclama, mas quem abre mão para mudar o mundo? o papa só levanta, mas não abre.
o resto se esconde e continua na trama por fechar mais a mão. assim fica difícil.
as vezes tenho estas vontades joão.
não de entrar para a história mas, pelo menos uma vez, botar pânico nos "caras" para eles terem o gostinho de que não são assim tão protegidos, invencíveis.
como o ubiratan. que já foi tarde.
abraço
incrível né?
enquanto isso...
sorte do bento.
Essas fantasias são o que dão fôlego para continuar. Se imaginar matando o papa, mandando o pessoal se fuder, dando um tabefe nuns babacas, cuspindo noutros, pedindo demissão, puxando uns cabelos de laquê, calando a boca de criança mal-criada. Ai, esses prazerzinhos sádicos...
porra, joão, ia quebrar mó galho aí. vacilou.
gostei de seu humor. uma beijocona na sua bochecha.
massa
adoro esse seu texto. segunda vez que leio. beijão!
concordo com a clara ahahahaha
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