



Depois de dez anos fazendo jornalismo diário na Folha de S.Paulo, aprendi a discordar do Morpheus, do filme Matrix, quando ele diz que deja-vu é só uma falha no sistema. Todo ano é igual. Vai vendo:
Sempre começa com uma grande tragédia nos primeiros dias. Pode ser um tsunami que varre do mapa países ásiaticos, um Bateau Mouche que afunda, um ator de novela que mata a atriz, boate que pega fogo ou um avião que cai.
O importante é que seja merda suficiente pra encher jornal até chegarem as as enchentes, dois meses depois, provocando caos na cidade, deixando bairros embaixo d’agua, carros boiando e transito insuportável enquanto a cara gorda do Datena desfila toda a sua indignação de butique na TV.
A água ainda nem secou e começa o carnaval, com as mesmas bundas, os mesmos comentários, enredos e cores do ano passado. No outro canal as quase mesmas musicas baianas de sempre se infiltram feito um espião britânico no interior até do mais resguardado de todos os cérebros.
Finda o carnaval e Brasília volta a pauta porque a folia dos políticos só começa quando a do povo acaba. Aos poucos os absurdos que nos acostumamos a ouvir de nossos engravatados governantes lentamente vão tomando conta dos nossos anestesiados ouvidos.
Abril tem que pagar imposto de renda. Hora do governo encher o cofrinho e juntar dinheiro pra esbórnia federal.
Logo em seguida, as quaresmeiras do bairro da Liberdade ficam tomadas por flores roxas que, ao lado das cores dos grafites de Osgemeos, Nina e Nunca, te fazem respirar um pouco e deixam menos triste o cinza chumbo da 23 de maio.
O ano tá no meio, tem neve e geada em São Joaquim e agora é a vez do esporte. Copa do Mundo, Pan-Americano, Olimpíada ou o que seja. Cento e oitenta milhões em ação param tudo porque o verde e amarelo tá em campo. É a voz do Galvão novamente reverberando em nossa já desgastada caixa craniana.
Ressaca do esporte e ninguém tem tempo de respirar. Agora só se fala em eleição. As faixas e cartazes com a cara de bunda dos candidatos a qualquer coisa estão por todos os lados. A cidade vive sua primavera às avessas e passa pelo período mais feio do ano. Papel no chão, muro pintado, palanques oportunistas, troca de acusações, debates ensaiados. É a vez do horário eleitoral gratuito espalhar a mentira pelos quatro cantos do pais.
Político eleito, Big Brother decidido, é sinal que o ano quase acabou. O cansaço se vê na expressão das pessoas que andam rápido pela avenida Paulista. Ainda dá tempo pra ouvir o William Bonner dizer no JN que o lucro dos bancos triplicou e que o Bradesco e o Itaú bateram recordes de faturamento igualzinho ao ano passado.
O povo tá abrindo o bico, mas a perspectiva do Natal feliz faz com que resistam. Desta vez são os comerciais natalinos da TV que animam com sininhos tocando, gargalhadas falsas e gente ganhando dinheiro pra parecer alegre.
O espírito de Papai Noel penetra em todo mundo, menos na policia, que todo dia desce a porrada nos camelôs da 25 de março. Tropa de Choque, muita bomba de gás, borrachada e mercadoria apreendida. Camelô é pobre e não tem dinheiro para pagar propina como os coreanos do Promocenter.
A medida em que o calor começa a ficar insuportável, o clima fica mais tenso. Perto das “festas” o número de homicídios aumenta. Dia sim dia não tem nova chacina na quebrada.
As cadeias começam a ferver e está aberta a temporada das rebeliões. Ladrão faz castelo e sonha em passar o ano novo fumando um em Praia Grande. Já que não dá, só resta quebrar tudo mesmo.
Depois do Natal, todo mundo que não tá preso vai pra praia ao mesmo tempo. O trânsito entope as 15 pistas da Imigrantes enquanto os helicópteros das TVs quase batem um no outro procurando os melhores ângulos pra mostrar como paulista é burro.
As praias ficam tão lotadas que o calor que queima vem do suor do vizinho e não do sol. Toneladas de celulite com latinhas de cerveja na mão desfilam sua felicidade sobre a areia e seguem a risca o script do cidadão mediano.
As redações dão folga pra meia equipe e as matérias de gaveta inundam o noticiário.
O reveillon chegou e é hora de encher a cara. No DNA humano deve estar escrito pra beber dia 31.
Milhões vão pras ruas e ficam alegres. Dão abraços falsos uns nos outros, molhados pela chuva que sempre cai na noite da virada, borrando a maquiagem das mulheres em Copacabana e deixando transparentes as roupas brancas que deveriam trazer sorte.
Nos apartamentos, os solitários assistem a contagem regressiva gravada um mês antes pelo Faustão. Provavelmente a Ivete Sangalo ou o Zezé di Camargo vão cantar enquanto os fogos pipocam na tela.
O bar Estadão, continua aberto e servindo sanduíche de pernil igual a todos os outros dias do ano. Na Major Sertório, travecos e putas disputam os poucos clientes que sobraram na cidade. Tiozinhos solitários em última instância.
Dia 1 de janeiro, pela manhã não tem ninguém na rua. São Paulo parece uma cidade fantasma. Na avenida São João passa um ônibus vazio a cada meia hora. "Nóias" e cães dormem tranquilos na rua deserta. Na redação da Folha, quatro gatos pingados fazem o plantão de ano novo enquanto seus chefes viajam com as famílias. Logo mais vai acontecer alguma tragédia, afinal de contas o ano já começou e todo ano é igual.
6 comentários:
Não há comentários. Por que? Sem "puxa-saquismo" que isso não acrescenta nada, mas você disse tudo.
Vou falar o que? Só se for pra te mandar a merda, ou dizer que vou pular da janela.
nossa, quanta realidade!
vai um pouco de poesia aí?
bjs
muuuuito bom texto, muito boas as fotos. um beijo!
vc esqueceu da visita do Papa...
Oposição diz que base usa visita do Papa para aprovar reajuste
BRASÍLIA - Enquanto o país se volta para a visita do Papa Bento XVI, o plenário da Câmara tenta aprovar a toque de caixa o reajuste de parlamentares, ministros, presidente e vice-presidente da República na tarde desta quarta-feira. O plenário também tenta votar ainda hoje a proposta de emenda constitucional que aumenta o percentual do Fundo de Participação dos Municípios (FPM). O deputado Chico Alencar (PSOL-RJ) ironizou a pressa dos colegas em votar o reajuste dos parlamentares no dia em que o Papa toma a atenção da mídia e da opinião pública.
Habemos Papa, então tudo pode nessa Casa hoje - afirmou Chico Alencar.
deputado Ronaldo Caiado (DEM-GO) foi mais claro e acusou os governistas de usarem a visita do Papa para aprovar o reajuste. Segundo ele, o presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), e o PT estariam aproveitando a "blindagem do Papa para aprovar o reajuste".
queria comentar com calma. texto da porra esse seu! essa idéia vem me pegando quase sempre, sinto esse deja vu constantemente. as vezes parece que tudo é materia de gaveta, mesma abordagem, mesmos problemas, tudo igualzinho ao ano passado. grande bosta!
Texto bom pra caralho. Nas primeiras semanas desse ano fiquei com esse pensamento na cabeça, de que a merda voa no ventilador nessa época pq ninguém tá na frente da TV pra escutar. É aquecimento global, CPI e o caralho.
Mas nesse texto você já desvendou a fita do ano inteiro. Obrigado, abriu meus olhos.
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