É periferia de Belém, mas poderia ser de qualquer lugar do país. Toda periferia é parecida mesmo.
Choveu a tarde, como chove todo dia no Pará e a lama se espalhou pelo chão do clube Ipanema, em Ananindeua. Domingo a noite é dia de baile Tecnobrega, febre popular paraense em que milhares de pessoas se juntam para dançar música brega/eletrônica em volta das “aparelhagens”, que são toneladas de equipamento de som, luz e imagem que urram em volume ensurdecedor frases mixadas como: “Quem vai querer a minha periquita?”, “Hoje é dia de adultério”, “Quem ta solteira levante a mãozinha”, “Cadê o corno? Tá em casa” e daí pra baixo.
Os Djs são as estrelas da noite. Do alto de cabines “high tech”, cheias de botões, luzes e fumaça, comandam a festa soltando gritos de guerra e recados entre músicas brega com batida tecno que levam ao êxtase as milhares de pessoas que se acotovelam sobre poças de água e latas de cerveja jogadas no chão.
Atrás do Dj, um enorme painel de LED, oito TVs de plasma e cinco telões projetam imagens psicodélicas trazendo para aquele fundão do Pará um clima de Blade Runner caboclo.
As letras de duplo sentido atiçam a sexualidade dos presentes. O cheiro de perfume de rosas das meninas se mistura com o de suor dos homens sem camisa que dançam em ritmo alucinante uma mistura de carimbó com lambada.
A cerveja é servida em baldes. Ambulantes circulam pela multidão equilibrando sobre a cabeça baldes com gelo e latinhas vendidas a preços honestos.
Todas as letras, por mais absurdas, são cantadas sem erros por quase todo o público que enquanto dança faz com as mãos o sinal do “S”, símbolo do Popsom, que é o nome da equipe que comanda a festa de hoje.
Existem várias “aparelhagens” em Belém. As principais são Popsom e Tupinambá, que disputam palmo a palmo o titulo de “a mais popular” tentando levar cada vez mais gente às festas.
A guerra entre eles é acirrada. Para atrair mais público, DJs trazem músicas exclusivas e se esforçam para tocar tudo cada vez mais alto. Para o público tecnobrega muitas vezes vale mais a potência do que a música em si.
Nos fundos do baile, há uma enorme parede de caixas de som com seis metros de altura. Alguns segundos em frente a esse muro falante são suficientes para fazer tremer todos os seus órgãos internos. A sensação é de que vc será arremessado para longe a qualquer novo acorde ou batida mais grave. Alguns casais gostam de dançar só ali, e rodopiam enquanto seu corpo treme com a musica. Experimentam algo parecido com o que sentem pilotos de caça que quebram a barreira do som e desafiam a força G. É o ponto alto de adrenalina para aquelas pessoas, que esperam a semana toda para isso. A felicidade está estampada nos sorrisos que dançam.
O DJ anuncia o vôo da águia. A musica muda e a cabine de onde ele comanda o som é erguida por braços hidráulicos enquanto solta fogo, fumaça e bolas de sabão por todos os lados. As luzes piscam freneticamente e o DJ se levanta para receber os aplausos do publico que vibra com aquele show pirotécnico. Me lembrei do Show da Xuxa, quando ela descia de um disco voador no meio do cenário. É quase um orgásmo cósmico para os presentes.
Depois do êxtase, o suspiro. A musica se acalma e as pessoas começam a voltar para casa. Amanhã é dia útil. De alma mais leve, quem tem emprego vai correr atrás do seu, e quem não tem só vai pensar na próxima refeição. Eu mesmo vou embora feliz, pensando em como é rica e bonita a cultura periférica desse pais que a maioria faz questão de não ver.
3 comentários:
"e daí pra baixo" é muito bom. Que texto legal, João.
É isso! Contou uma coisa boa.
eh traca...
Sei não. Parece bonita pra quem é de fora. Pra mim que cresci em Belém, não vejo nenhuma beleza nisso, nem nos funks dos morros do Rio, nem no Boi do amazonas, e afins. E não porque é periférica, mas simplemente porque não presta mesmo.
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