01/04/09

MAPUTO









O vôo da LAM (Linhas Aéreas de Moçambique) pousou no Aeroporto Internacional de Maputo no dia 5 de novembro de 2008. Era uma data especial para a África e para o mundo. Enquanto o avião taxiava na pista do pequeno aeroporto, o planeta mudava um pouco com o anuncio da vitória de Barack Obama na eleição presidencial americana. “O novo dono do mundo é um negro, filho de quenianos e filho da África!”, comemoravam os moçambicanos em festa exalando alegria pelo saguão do aeroporto.
Africanos cantam e dançam o tempo todo. Foram eles que ensinaram os brasileiros a serem assim. Cantam pra rezar, cantam pra chorar, cantam pra trazer sorte e cantam pra comemorar. Era um dia especial e a alegria podia ser sentida em toda parte.
Na madrugada anterior, o escritor moçambicano Mia Couto acompanhava pela televisão a apuração da eleição americana em sua casa em Maputo. “Foi uma madrugada de intensa comoção. Eu confesso que chorei, nunca pensei que pudesse embarcar numa coisa que eu sei que é ilusão, pois esse homem esta condicionado por poderes enormes. Mas ao mesmo tempo o que representa como valor simbólico é algo muito grande, traz benefícios do ponto de vista da auto estima. Somos tão influenciados por eles que deveríamos reivindicar direito a voto na eleição americana. Se bem que de uma certa maneira votamos com o coração,” confessa o premiado escritor, correspondente da Academia Brasileira de Letras e considerado um dos mais importantes escritores africanos e da língua portuguesa.
Moçambique fica na costa oriental da África, de frente para o Oceano Indico e de costas para o Brasil. O Brasil conhece pouco Moçambique, que por sua vez, conhece muito bem o Brasil. As novelas, a musica e a literatura brasileira tem uma influencia enorme nos costumes e na cultura local, o que faz com que o nosso português “adocicado”, como dizem os moçambicanos, abra qualquer porta por lá.
Foi assim na beira da praia, quando num dia quente como são quase todos os dias na África, vi de longe um cortejo passando pelo calçadão. Me aproximei. A noiva vestida de branco, véu e grinalda, caminhava de braços dados com o noivo. Atrás deles vinham cerca de cinqüenta pessoas. Eram convidados, padrinhos, madrinhas, damas de honra. As mulheres vestiam saias longas, adereços e cabelos cuidadosamente penteados. Cantavam uma música aguda e dançavam como num ritual ancestral. Os homens vestiam terno, gravata, traziam flores na lapela e sorrisos nos rostos. Foram em direção ao mar e nem o vento forte e o desconforto da areia entrando nos sapatos de domingo foram capazes de diminuir a alegria daquele momento. Um fotógrafo registrava tudo e olhou torto quando me aproximei com a câmera. Bastaram algumas palavras no português “brasileiro” para trazer de volta o clima amistoso.
Sobre uma coluna de concreto que avança mar adentro, os noivos se beijaram tendo o oceano Indico ao fundo. O cântico das mulheres ficou mais agudo. O vento soprou mais forte balançando o vestido branco da noiva feliz e misturando a maresia o forte perfume das africanas. O fotógrafo moçambicano registrou a cena que durante as próximas décadas será vista e revista centenas de vezes no álbum de casamento da família por seus futuros filhos e netos.
Depois de alguns minutos na praia, o cortejo voltou para a calçada onde alguns carros enfeitados com fitas e flores esperavam pelos noivos e seus convidados. Com as dificuldades impostas pelas roupas apertadas, os convidados subiram na caçamba das camionetes enquanto os noivos entravam no carro branco escoltados pelo motorista. A musica das mulheres parou e o cortejo se transformou em carreata, com buzinas incessantemente tocadas para comemorar a união do casal.
Na tarde seguinte ao casamento, na mesa do bar do hotel Southern Sun, em Maputo, Mia Couto explica e contextualiza o que vi e fotografei: “Isso é uma coisa que começa a acontecer depois da independência. Antes a cidade era estratificada racialmente e os casamentos das pessoas negras não tinham esse desfile na chamada “zona dos brancos”.O que acontece também nos casamentos, como nos batizados ou em qualquer ritual é que há esse casamento aqui e também há outro no bairro, no interior que é uma outra festa.”
Moçambique é um pais jovem, que recentemente descobriu a paz depois de longos anos de violência. Mia Couto viu o país nascer, acompanhou de perto as sucessivas guerras e hoje experimenta pela primeira vez a paz. “Moçambique tem trinta e três anos. Eu sou mais velho que o meu próprio pais, uma coisa que não é muito comum. Os meus filhos nasceram na guerra. Havia uma geração inteira de jovens que só sabia o que era guerra. Em 1992 houve paz. De fato foi uma coisa pra mim quase milagrosa. Depois que a paz se tornou uma cultura, nunca mais houve tensões, violência militar e o país vive esse período de estabilidade política e social. Simplesmente se transformou num pais igual aos outros.” Explica o escritor.
Mia resume em poucas frases a curta e agitada história do jovem país.“Em 1975 foi feita a independência contra a dominação portuguesa, Moçambique era uma das cinco colônias portuguesas na África que se tornaram independentes mais ou menos na mesma época, 1975, 1976, logo depois da revolução dos Cravos em Portugal. Tínhamos um movimento de libertação de orientação socialista, marxista, e houve uma revolução. Foram nacionalizadas grandes propriedades, foi introduzida uma orientação revolucionaria, quase todos os colonos portugueses saíram e tivemos um pequeno período sem guerra. Na seqüência começou uma guerra com a Rodésia (hoje Zimbábue), e depois tivemos uma guerra civil que durou 16 anos.” explica.
“A guerra civil era uma guerra trazida de fora, do regime do apartheid na África do Sul e que ganhou força internamente. Essa guerra levou a que houvesse uma mudança política a partir de dentro, portanto o mesmo movimento que fez a independência, que era a Frelimo converteu-se depois no movimento que implantou o capitalismo a partir da morte do líder revolucionário Samora Machel em 1986, o primeiro presidente moçambicano” completa Couto.
Conhecer a África é como conhecer o fundo da alma brasileira. Pelas ruas dos paises africanos nós brasileiros nos entendemos um pouco melhor. Não é por acaso que somos assim. O samba, o candomblé, a culinária e tantos outros pilares basicos da cultura brasileira vieram da África para serem digeridos no caldeirão Brasil e se transformarem em algo novo, diferente, brasileiro e único.
De toda a herança cultural e genética que herdamos da África, talvez o aspecto mais forte seja o da alegria, essa que o brasileiro demonstra até nas condições mais adversas de seu dia-a-dia. Lá e cá, todo mundo dança, todo mundo canta e todo mundo sorri. Não é necessário um motivo para isso, mas se por acaso um negro tiver sido eleito presidente dos EUA na madrugada anterior, não tenha dúvidas de que vão cantar, dançar e sorrir muito mais alto.

(publicado na revista ffw mag em janeiro de 2009)

31/03/09

+ MAPUTO




20/12/08



Depois de 53 dias presa por pichar o andar vazio da Bienal, Carol "Susto's" de volta as ruas de São Paulo. Hoje na folha:

LAURA CAPRIGLIONE
DA REPORTAGEM LOCAL

Caroline Pivetta da Mota, 24, ganhou ontem a liberdade, depois de 54 dias de prisão. Ela chegou a chorar ao se despedir da condenada por assalto a mão armada com quem dividiu uma cela na Penitenciária Feminina de Santana (zona norte de São Paulo). Saiu com uma micose que lhe provoca coceiras pelo corpo todo, "culpa da sujeira daquele lugar", e com a convicção de que sua prisão prolongada foi decorrência do ódio que a sociedade dedica aos pichadores, causado pelas "malditas pessoas que picham um muro branco". Como é que é?
Caroline, 20 tatuagens espalhadas pelo corpo, incluindo uma caveira entre os seios, piercing no nariz e na língua, baixinha, 1,55 metro, cabelos vermelhos, sobrancelhas recém-depiladas e risonha de felicidade ontem, foi um dos 40 jovens que, no dia 26 de outubro, picharam o andar vazio do prédio projetado por Oscar Niemeyer no parque Ibirapuera, onde acontecia a 28ª Bienal Internacional de São Paulo. Ela foi a única presa.
Caroline diz que foi agarrada pelos seguranças, jogada ao chão, xingada. Novata no mundo da pichação, a garota chegou a ser apresentada como liderança do grupo. Ela nega: "Eu só fiquei sabendo da ação na quinta-feira, três dias antes".
O advogado Augusto de Arruda Botelho Neto, que assumiu o caso da jovem, diz que ela foi vítima de um "equívoco".
"Nem o Fernandinho Beira-Mar, se fosse pego pichando um muro, receberia a pena que ela já recebeu. O Ministério Público denunciou a Caroline pelo crime de destruição de um bem protegido por lei, quando deveria tê-la denunciado pelo crime ambiental de pichação. Já seria um erro. Há mais. Também não se aplica a "destruição". O muro pichado por ela foi pintado e continua lá. Não houve destruição nenhuma." [Leia nesta página texto com pareceres de outros advogados sobre o caso].
Para Carol Sustos, como é conhecida entre seus camaradas de spray, a pichação na Bienal tinha o objetivo de "chamar a atenção para esta arte marginal". Ela provoca: "Por que é que se aceita que uma pessoa exibindo-se nua [refere-se ao artista Maurício Ianês] seja uma forma de arte e uma parede com algumas letras e siglas não possa ser?"

Aristocrata
Carol Sustos é uma legítima representante da aristocracia dos pichadores, os que atacam prédios (quanto mais altos, melhor), admirados por seus pares pela coragem e ousadia. Como tal, nutre uma espécie de desprezo pelos pichadores do chão. "Eu detestaria que alguém fosse lá pichar a parede da minha casa. Se eu quisesse um muro sem qualquer cuidado, eu teria deixado sem qualquer cuidado. Mas não, eu pintei de branco. É lógico que vou ficar com raiva se alguém descaracterizá-lo", surpreende.
Para a garota, rara representante feminina na categoria dos pichadores, o encanto da pichação de prédios (ela admite o ataque a 37) vai muito além do registro com spray naquela caligrafia peculiar.
"Eu gostava da dissimulação. De passar pela portaria, o porteiro me perguntar onde eu iria, eu despistá-lo e entrar, subir até o ponto mais alto, abrir a porta ou a janela e, lá em cima, olhar o céu, sentir o vento, ver a cidade de longe, em paz e em silêncio. É lindo. Deixava a minha vida muito mais contente", diz a pichadora.
Ela terá de deixar essa beleza de lado. Sabe que, se pichar, volta para a cadeia, o que não quer. Vegetariana por compaixão dos animais, Carol sofreu com a dieta da cadeia. "Tu sabes, a comida lá era triste", diz. "Aliás, aquele lugar inteiro era muito triste, 3.000 mulheres que não têm direito nem a um ginecologista; baratas, mofos e ratos por todos os lados."
Carol chegou a participar de uma "rebelião pacífica" com suas colegas de cana. Naquele dia, nenhuma presa trabalhou, ou comeu. Ficou todo mundo fora das celas até as 23h. O protesto foi pela melhoria, entre outras coisas, da alimentação.
Ontem à tarde a jovem ainda não sabia onde dormiria. Durante a prisão, ela perdeu o apê em que morava, por falta de pagamento do aluguel.
Sem um real no bolso, Carol quer retomar o trabalho como artesã e morar no centro da cidade. Por enquanto, jura, ficará longe das latinhas de spray.

18/12/08

NIGERIAN PORTRAITS

08/12/08

05/09/08

NIGERIA






Estou em Lagos, na Nigéria, o lugar mais caótico em que já estive na vida. Nessa semana 60% do tempo em que estive aqui não havia luz na cidade, não existe sanemaneto básico e sem dúvida esse é o pior transito do mundo. Deslocamentos de 5km podem levar duas horas.
São 15 milhões de habitantes, e não há sinalização de transito nas ruas. Estou aqui a uma semana e ainda não vi nenhum branco. Se eu fosse um ET verde e de um olho só chamaria menos atenção do que tendo a pele clara. Na verdade vi dois brancos, mas meu guia me disse que eram negros albinos.
Muita coisa na cabeça e pouco tempo pra escrever. Essa loucura me fez entender um pouco melhor quem somos nós e porque somos assim. Ainda vai levar algum tempo pra assimilar tanta informação. Escrevo mais assim que der...

O TRANCA RUA