05/06/08
A PONTE
Depois de quase 3 anos, finalmente ficou pronto o documentario "A Ponte" que fiz com o Roberto T. Oliveira. Esse ai é o trailler. quentinho, recém saído do forno...
04/06/08
03/06/08
24/05/08
LULA-LA

Fuçando nas entranhas do meu mac, achei hj esse texto feito em 2002, no calor da eleição, quando o Lula foi eleito presidente pela primeira vez. Fui um dos "carrapatos" dele, designado pela Folha, e cobri oito meses de campanha, viajando para todos os cantos do país, testemunhando um puta momento histórico. Gostem ou não, a eleição do Lula foi um marco na história do Brasil e foi ducaralho ter visto isso tão de perto. Segue o texto:
Em 1950 Getulio Vargas foi eleito presidente da república por uma maioria
esmagadora de votos. Meu avô, Samuel Wainer foi o único jornalista a cobrir
de ponta a ponta para os Diários Associados de Chateubriand, a campanha do ex-ditador que foi reconduzido ao poder nos braços do povo como ele mesmo havia previsto em entrevista exclusiva meses antes.
Dias atrás, Luiz Inacio Lula da Silva foi eleito presidente e desta vez fui
eu que, a serviço da Folha de S.Paulo, tive a chance de ser a testemunha da
história.
Sempre ouvi relatos da histórica campanha de Getúlio, das multidões nas
praças públicas gritando o “Ge-tú-lio” e das pessoas escalando árvores e
postes para ver mais de perto o “pai dos pobres” como era conhecido.
Imaginei que jamais veria algo parecido em minha vida, mas errei.
Do final de maio ate a festa na Paulista colei no candidato como um
carrapato no hospedeiro. Viajei aos quatro cantos do país e assisti de
camarote a comoção popular que Lula causava nos lugares em que chegava.
O roteiro era sempre parecido. Uma pequena multidão o esperava no aeroporto, e Lula fazia questão de atravessa-la no peito deixando malucos os policiais federais que tinham a missão de acompanhá-lo. As pessoas gritavam, choravam jogavam-se em cima do candidato que não perdia a paciência nem quando um mais afoito o machucava.
Na seqüência, uma carreata o levava até o local onde seria o comicio e lá
sim, uma verdadeira multidão o aguardava a postos, sob sol ou chuva, com um brilho nos olhos que só quem viu de perto a campanha pode compreender.
Depois do comicio, sem muita espera, Lula voltava ao aeroporto e embarcava
no jatinho alugado pelo PT para começar tudo de novo em outro canto do país.
Lula percorria trechos enormes no mesmo dia. Num dos mais longos, acordou em Natal, RN, tomou cafe com empresários e foi a Fortaleza. Fez comicio e carreata, trocou de roupa e seguiu para Dourados, MS, fez outro comicío por lá e novamente embarcou no avião para terminar o dia em Florianópolis num comício gigantesco do outro lado do país.
Apesar do jingle criado por Duda Mendonça e pelo compositor baiano Peri ser
de boa qualidade, quase ninguém o cantava nos comícios. A música cantada por 100 mil pessoas em Salvador no primeiro turno e por 150 mil no segundo era sempre a de 1989, o agora clássico “ Lula lá, brilha uma estrela, Lula lá,
cresce a esperança...”
Lula é uma daquelas pessoas que fala olhando nos olhos. Ele sobe no palanque e discursa como se estivesse no balcão da padaria conversando com um amigo que não vê a alguns meses. São raras as pessoas com esse talento.
Ouvi tantos discursos e entrevistas de Lula nos ultimos meses que no final
da campanha me sentia apto a dar uma coletiva no lugar dele.
Dia 26, na noite anterior as eleições, os Racionais fizeram um show no Brás
para 20 mil manos. Na manhã seguinte, milhøes foram as urnas e elgeram o
primeiro Silva presidente do Brasil.
O novo CD dos Racionais não saiu de meu discman durante todos esses meses. A analogia é inevitável: A periferia grita e o povo chega ao poder. Alguma coisa está mudando.
Em um dos primeiros pronunciamentos como presidente eleito, Lula dedicou a vitória a seu amigo “Cabeção”, morto dias antes vitíma de um infarte. A
frase que passou batida por todos os jornalistas presentes me arrepiou e fez
com que minha ficha começasse a cair.
Aquela noite do dia 27 de outubro jamais saira da cabeça daquelas 50 mil
pessoas que lotaram a avenida Paulista na festa da vitória.
Eu estava lá, a postos, com uma lente 500mm no tripé apontada para o palco onde Lula apareceria, concentrado e preparado para fazer uma das mais importantes fotos da minha vida. O cara que eu acompanhei durante meses foi eleito e a primeira página histórica do maior jornal do país estava aberta esperando apenas essa foto.
Haviam muitas bandeiras tremulando e a luz não estava bem posicionada.
Marquei o foco manual em um ponto e esperei a entrada do novo presidente.
A endorme bandeira do Brasil que servia de pano de fundo foi erguida por
volta da uma hora da manhã. De tras dela veio Lula, que sorria e acenava
para todos aqueles que estavam lá numa imagem emocionante. Estavamos no limite da hora do fechamento portanto a foto seria transmitida dali mesmo via celular assim que acontecesse. Eu estava com a lente certa, no lugar certo, cliquei na hora certa, mas ao abri-las no laptop para transmiti-las por celular descobri que estavam todas sem foco. Eu errei num momento
crucial e quando percebi, quis bater a cabeça na parede de raiva.
Voltei e fiz a foto desta vez com foco, mas havia perdido o “moment” da
história. Perdi a primeira página que ia coroar meu trabalho e a raiva
misturou-se com alegria. Foi uma verdadeira bomba de emoções que na verdade não tinha importância nenhuma, porque pela primeira vez um Silva ia governar o Brasil dos Orleans e Bragança, e o povo estava muito feliz com isso.
31/03/08
O DIA EM QUE FOTOGRAFEI UM FANTASMA

Na semana passada fiz uma foto pra Folha no IBCC (Instituto Brasileiro de Combate ao Câncer). Era uma matéria sobre radioterapia, tratamento realizado por pacientes com câncer.
Passei pela sala de espera, mas não passei batido. Haviam cerca de 30 pacientes esperando pelo tratamento. Todos eles com câncer. Mirei nos olhos das pessoas e pude sentir o cheiro do sofrimento no ar.
Perguntei a uma senhora na sala de espera se poderia fotografa-la para a meteria, que era sobre a demora de três meses no SUS para o conseguir uma sessão de radioterapia. Apesar da expressão cansada, a paciente foi extremamente simpática me deixou fazer a foto que foi publicada na capa do Cotidiano. No dia seguinte, recebi um telefonema do editor-assistente de fotografia Gustavo Roth me questionando sobre a foto. Um leitor havia mandado um e-mail para o ombudsman Mario Magalhães dizendo que a pessoa que aparecia naquela foto era a mãe dele, morta por um câncer no ano passado, exatamente 6 meses antes do dia em que fiz a foto. Reproduzo abaixo o email do leitor da Folha, para que os leitores do Tranca Rua tirem suas próprias conclusões...
Srs boa tarde,
Meu nome é Andre Almeida, tenho 33 anos e moro em Jundiaí - SP.
Ontem, minha irmã Ana que mora em Bragança Paulista, ligou pro meu pai em Jundiaí e disse: - "Pai, corre comprar a FOLHA de hoje e veja uma matéria sobre o CANCER no caderno Cotidiano."
Sem dizer do que se tratava, ela desligou o telefone e lá foi meu pai comprar o jornal.
Antes mesmo de ler a matéria, ele se espantou com a foto, onde diz abaixo: "Paciente com cancer se submete a radioterapia no IBCC"
Trata-se de minha queridíssima e mui saudosa mãe, Aparecida Conceição P de Almeida, falecida em 14/09/07 após longos 9 anos de tratamento contra um cancer de intestino.
Essa foto não deve ser no IBCC, pois todo tratamento de Dna Cida foi inicialmente em Botucatu, e os últimos 5 anos no Hospital Sírio Libanês, onde ela era inscrita no programa de NÃO PAGANTES, e onde acredito que seja o local da foto.
Quem a tirou, e quando, é um mistério. A família desconhece.
O objetivo de meu e-mail é somente alertá-los da verdadeira história da foto, que ilustra SIM o enorme sofrimento dessa gente que, infelizmente, não tem a mesma sorte que minha mãe teve de ter um tratamento de ponta, e que dependem do governo para continuar sobrevivendo.
Não sei a opinião de meus outros familiares, mas me sinto emocionado pelo fato de a imagem dela servir como alerta à população sobre um assunto tão importante e útil à sociedade.
Segue uma foto dela em vida, comigo, em meu casamento no ano de 2004.
Abraços
Andre G P Almeida
15/03/08
BLITZ NO PUTEIRO DE LUXO
Era uma pauta ruim, tão ruim que eu nem me lembro mais qual era. Cheguei na porta do 35DP, no Itaim e antes mesmo de por o pé pra dentro um policial que fumava um cigarro encostado na viatura vermelha e preta já me deu a letra. “Acabaram de fechar o Bahamas. Se vc correr lá vai se dar bem”, disse cheio de segundas intenções.
O Bahamas é o mais famoso puteiro de luxo de São Paulo, onde a entrada custa R$250, uma dose de whisky R$ 200 e um programa pode chegar a R$1.500.
Não pensei duas vezes e corri pra lá. Sempre quis conhecer o Bahamas e essa me pareceu uma excelente oportunidade.
Cheguei muito rápido, vi as viaturas da policia civil encostadas e quase nenhuma movimentação do lado de fora. Atravessei a rua e bati na porta, pronto para levar um não na cara, como é normal nessas operações. Um policial abriu a porta e para minha surpresa foi gentil e me convidou para entrar.
No saguão principal, algumas prostitutas de biquíni, salto alto e roupas de “trabalho” estavam sentadas em um canto enquanto do outro lado um grupo de clientes constrangidos, vestindo roupões de banho e observados por um policial armado eram obrigados a aguardar, transformando aquilo numa cena digna de Garcia Márquez.
Ao notarem a câmera fotográfica todos os rostos imediatamente se esconderam entre mãos, joelhos e cabelos longos.
As mulheres eram jovens, lindas, bem cuidadas e com corpos perfeitos. Os homens quase todos gordos, alguns carecas, grisalhos e completamente envergonhados como crianças pegas em flagrante. Pareciam empresários ricos, estavam em um lugar caro. Nus sob os roupões, os relógios Rolex e Tag Hauer eram as únicas peças que denunciavam a condição social do grupo. O relógio na parede indicava que eram três da tarde naquela terça-feira. Vida fácil devem ter os caras que freqüentam um puteiro de luxo nesse horário. Imagino o susto que devem ter levado ao serem surpreendidos pela policia pelados e com prostitutas no meio da tarde.
Um dos delegados responsáveis apareceu para me mostrar a casa. Me disse que havia encontrado irregularidades na reforma do andar de baixo, um revólver calibre 22 sem registro e uma peça de carne vencida no congelador, portanto o dono daquilo tudo, o empresário Oscar Maroni, conhecido comoo o Larry Flint brasileiro, ia ser preso e a casa seria lacrada. Logo as equipes de jornalismo da TV Record e da Band chegaram. De imediato imaginei o Datena berrando no Cidade Alerta. Os policiais apenas esperavam a chegada da TV para darem inicio ao show.
O delegado, em tom de brincadeira, declarou que era dia de “open bar”. Um policial fazia as vezes de barman e servia drinks para os jornalistas, fiscais da prefeitura e policiais que participavam da blitz. Todos pareciam estar se divertindo muito com aquilo. O balcão virou um happy hour informal.
Aos poucos as prostitutas foram sendo conduzidas semi-nuas aos camburões estacionados na porta. Os clientes nao puderam se vestir e foram levados de roupão para o chiqueirinho. Oscar Maroni desceu algemado e sob protesto também foi levado.
Sempre me lembro do método judaico para a resolução de problemas que diz que todas os problemas tem o lado “aparente” e o “oculto do aparente”. Aquele show parecia desproporcional as irregularidades encontradas. Quais seriam os interesses por trás daquela apreensão? Fui a luta pra tentar saber mais e por incrível que pareça, o que descobri não me surpreendeu tanto.
O dono do Bahamas, Oscar Maroni, é odiado por toda a Policia Civil de São Paulo. Dizem as más línguas que isso acontece porque ele é o único empresário de prostituição que não paga propina pra ninguém. Legalmente o Bahamas não é um puteiro. É uma casa que cobra uma pequena fortuna dos homens na portaria, os drinks são caríssimos e as mulheres “selecionadas” entram de graça. São universitárias de várias partes do país que estudam de manhã e no resto do dia andam seminuas pelo Bahamas dançando e oferecendo sexo pago para clientes endinheirados. Nos fundos existem pequenos quartos com cama de casal e espelhos por toda parte.
A casa fatura por todos os lados, menos na hora do programa. A garota combina diretamente com o cliente o valor da foda, e isso isenta completamente o Bahamas de qualquer envolvimento com a prostituição. Na legislação brasileira prostituição não é crime. Crime é agenciar a prostituição.
Com dinheiro e bons advogados, Maroni se blindou. Com seu talento, usou e abusou do marketing. Na semana anterior ao fechamento do Bahamas, havia dado uma entrevista para a revista “Istoé” gabando-se de faturar R$ 1 milhão por mês com o Bahamas. Alguém importante que não estava recebendo a propina que considerava ter direito ficou bravo mexeu seus pauzinhos e mandou fechar a casa.
Objetivo alcançado, foi gerado um grande estardalhaço na imprensa, mas em poucos dias tudo voltou ao normal. Operações policiais feitas exclusivamente para sair na mídia são assim mesmo. Infelizmente uma parte da nossa digníssima policia trabalha assim. Só saem da delegacia pra faturar um troco, ou defender o interesse escuso de algum fodão.
01/03/08
COMANDANTE RAUL REYES
Hoje ao abrir o jornal me deparei com a noticia da morte do Comandante Raul Reyes, segundo homem na hierarquia das FARC, em um bombardeio aéreo na selva equatoriana. Conheci Reyes em 2003, numa viagem para o sul da Colômbia a convite das FARC ao lado do repórter Fabiano Maisonnave, que eu não conhecia até então, mas que viria a se tornar um grande parceiro de roubadas pela América Latina.
Pegamos o avião em Cumbica sem saber muito o que nos aguardava. O destino era Quito no Equador (minha cidade favorita na AL) e as instruções passadas por membros da guerrilha que viviam clandestinos no Brasil eram simples e claras: Desembarquem, sigam para o hotel Libertad na calle 7 de Septiembre que alguém da guerrilha vai procura-los.
O contato logo foi feito. Uma mulher com cerca de 40 anos e o sugestivo nome de Esperança veio ao nosso encontro e passou novas instruções. Ela nos entregou duas passagens de ônibus para uma cidade na fronteira do Equador com a Colômbia. Disse que durante a viagem seriamos seguidos de perto mas só saberíamos quem nos acompanhava no momento oportuno.
No dia seguinte lá estávamos nós, sentados em um ônibus caindo aos pedaços e lotado de gente, bicho e sacolas de todos os tipos. Haviam pessoas em pé no corredor e logo uma índia velha sentou-se no braço da minha poltrona e jogou parte do seu peso (que não era pouco) sobre meu ombro direito. Ofereci o lugar a ela, que recusou. A viagem durou cerca de 22 horas. Numa das paradas, um homem com a barba por fazer, bigode preto e uma peruca loira, muito parecido fisicamente com o palhaço Tiririca entrou no ônibus e sacou da bolsa um pote de maionese com uma Tênia Solitarium no formol. Dizia que cada um dentro daquele ônibus poderia ter uma dessas em seu estômago e que a única solução para ficar livre daquele mal seria tomar uma das pílulas milagrosas que ele vendia. Além de te livrar da tênia, segundo ele, a pílula curava câncer e Aids. O incrível foi que ele vendeu várias. Até eu comprei uma.
A região da fronteira entre o Equador e a Colômbia é tensa. O sul da Colômbia é dominado pelas FARC e há um acordo velado entre guerrilheiros e governo equatoriano. A principal porta de entrada de pessoas, alimentos e armas para a Colômbia era o norte do Equador. As FARC não atravessam para o lado Equatoriano e o governo fazia vista grossa para o transito da guerrilha. Nesse corredor estávamos nós e a cada blitz do exército Equatoriano, fazíamos de conta que éramos turistas indo para um lugar onde não havia turismo e os militares faziam de conta que acreditavam. Grupos paramilitares de direita andavam barbarizando naquela área. Dias antes haviam parado um ônibus e matado todos os maiores de 14 anos. Os jornais colombianos puseram a chacina na conta das FARC.
Cinco blitze depois, chegamos ao ponto final de nossa viagem na beira do Rio Putumayo, que dividia os dois países.
Descemos do ônibus e uma menina de 16 anos que se apresentou como Sophia nos abordou. Para nossa surpresa, a única pessoa de quem não desconfiávamos era o nosso contato. Saímos dali com ela e caminhamos pela cidade até um ponto em que uma lancha nos aguardava.
Entramos clandestinos na Colômbia atravessando o Putumayo e na outra margem do rio dois guerrilheiros já nos aguardavam.
Vestiam calça camuflada, botas e camiseta branca. Não carregavam fuzis, apenas uma pistola cada. Subiram no barco e andamos por cerca de duas horas até uma cidade chamada Pinuña Negra onde paramos para almoçar.
Ganhamos botas de borracha e uma capa de chuva. Fui até um bar e pedi uma coca para surpresa da atendente. Depois fui descobrir que aquela cidade era uma das principais portas de saída da cocaína produzida no sul colombiano e corrigi a gafe dizendo que queria uma coca-cola.
Nas vielas de terra da cidadezinha, sempre o mesmo tipo de música ecoava. Eram os narco-corridos, tipo de funk proibidão local, em ritmo de cumbia, que exaltava os grandes generais da droga locais.
Seguimos viagem em um outro barco, bem menor, uma voadeira com um motor de 15hp. Entramos num igarapé muito raso e o barco atolava em raízes e bancos de terra. A cada atolada descíamos e carregávamos o barco nas costas.
No final do dia paramos para dormir na casa de um cocaleiro, no meio da selva. Podre como eu estava, dormi um sono profundo, mesmo estando ao lado de dois guerrilheiros armados. Nem o ronco do dono da casa foi capaz de atrapalhar meu sono.
No dia seguinte pela manhã continuamos e algumas horas depois algo alem de macacos se moveu na mata. Eram cerca de 5 guerrilheiros, vestindo roupas camufladas fuzis AK-47 e pistolas. Nos receberam muito bem e se disseram preocupados com nosso atraso. Caminhamos pela mata até o acampamento e um belo almoço nos esperava. Sentamos em uma mesa feita com troncos de árvore e nos foi servida uma carne de porco do mato, caçado por eles. Comemos e bebemos ao lado do grupo dos guerrilheiros. No final do almoço, surgiu na nossa frente a figura do comandante Raul Reyes acompanhado de mais dez guerrilheiros. Baixinho, gorducho e de barba e cabelos brancos parecia um Papai Noel fardado. Trazia seu AK-47 a tiracolo e duas pistolas na cintura. Extremamente simpático e sorridente, posou para fotos e conversou bastante conosco. Contou histórias da vida na selva, falou de política e da luta pela liberdade. Desconversava sempre quando o assunto eram drogas.
As FARC (Forças Armadas Revolucionárias Colombianas) surgiram na década de 60 como um movimento popular de esquerda liderado por Manuel “Tirofijo” Marlunda, que lutava contra os desmandos de uma elite que se perpetuava no poder e relegava aos camponeses uma condição de vida sub-humana. Com a queda do muro de Berlim e o fim da URSS, a guerrilha perdeu seu financiador e se aliou aos traficantes e produtores de cocaína para poder manter sua luta política, perdendo sua legitimidade e ganhando a antipatia total dos EUA, principais consumidores da droga produzida por ali.
Enquanto o Fabiano entrevistava o comandante, sentei com um grupo de guerrilheiros. Eles pediram pra ver minha câmera e em troca pedi para manusear o fuzil. Expliquei o funcionamento da câmera e eles do fuzil. Disseram que os fuzis russos AK-47 eram muito melhores que os AR-15 americanos. Perguntei porque e me contaram uma história que explicava a diferença entre americanos e russos. Disseram que os americanos gastaram milhões para inventar uma caneta esferográfica que pudesse ser usada no espaço, enquanto os russos não gastaram nada e levaram um lápis. O AK-47 é mais simples, disse um deles sobre o fuzil que segundo a lenda atira até embaixo d’agua.
Pedi para ficar mais alguns dias mas o comandante não autorizou. Insisti e fui até um pouco chato, mas sem perder a elegância Reyes deixou claro que não seria possível. Nao se deve abusar de alguém com um fuzil pendurado no pescoço.
No final do dia nos despedimos do grupo. Voltamos ao barco e fizemos o caminho de volta. Paramos na mesma casa para dormir e seguir viagem no outro dia. Desta vez menos cansados, conversamos bastante com os guerrilheiros, que estavam bem mais a vontade. Eles cantaram as musicas da guerrilha, falaram da rotina na floresta e o porque de estarem ali. Mostrei um CD dos Racionais que trazia no meu discman. Eles gostaram da musica e dei a eles de presente.
Na manhã seguinte assim que o sol apareceu seguimos viagem. Na hora da partida, um dos filhos do dono da casa em que dormimos colocou o CD dos Racionais para tocar. O barco foi saindo enquanto a musica Vida Loka II quebrava o silencio da selva amazônica colombiana.
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